O que vai, o que volta

Foto | (desconhecido)
Foto | (desconhecido)

 

 

Todas e tantas juras de amor conectadas por ligações telefônicas mensagens digitadas gravações de voz enviadas por aplicativos que usam internet todos os amores trocados as juras os segredos universais as três palavras mágicas o significado de todas as conexões a mesma conexão o mesmo amor universal o segredo mais bem espalhado do mundo e a outra metade os desarranjos os não te amo mais os nunca te amei tudo não passou de ilusão os meu coração vagabundo os não vai dar certo desconexões bater o telefone na cara bater na cara ir embora para nunca mais voltar meu copo meio vazio e o seu metade metade entropia desacerto união juras eternas de uma semana de duração conexões o amor do mundo o desamor no mundo crise sorriso estou ansioso para te ver só liguei para ouvir sua voz desliga você não você ad infinitum.

 

Sono e guerra

paraquedistas

 

 

Pensar que passarei um terço da vida mergulhado em sono e sonho. Me faz pensar em escrever um Manual beligerante do ser humano, que explicaria o talento incontornável para a guerra (inclusive a de mentira que são as disputas esportivas: a guerra diplomática da civilização). Sono e guerra, duas faces da atividade inquieta que define o humano. E multiplicar-se pela fornicação, outra tarefa definidora, mesmo quando banhada de civilização e atenda pelo nome de amor. Na falta de perspectiva que a solidão oferece, escolhe-se superar uns aos outros, em disputa eterna. Acontece que o plano tem problemas de fundo, nunca devidamente resolvidos.

 

No rumo de casa 3

Imagem | Laurent Chehere
Imagem | Laurent Chehere

 

 

Um vento atroz percorria a praia e vinha até o centro da cidade, com aquele odor marítimo característico, como se o oceano fosse uma enorme panela em que os animais, mesmo vivos, estivessem sendo cozidos lentamente. A mulher tinha os cabelos soltos, esvoaçantes por conta do vento forte, e um casaco que era uma espécie de vela terrestre do corpo, navio e mastro de uma só vez. Tinha desembarcado à procura do grande amor de sua vida, todos estão sempre à procura do grande amor, esse mito que permanece no horizonte. Para quem encontrou, daí a pouco começa a ladainha de reclamar do convívio e é possível imaginar que o amor da vida está em outra parte, no canto do mundo reservado aos amores da vida. Numa foto antiga, ela aparecia nua, sorrindo para a câmera, segurava os seios com as mãos e sugeria topar qualquer convite inusitado. Agora a mala era quadrada e parecia pesar muito, teria ali dentro o que achava essencial, para o caso de encontrar o amor. Embarcar, navegar, criar expectativas, desembarcar do outro lado, erguer a mala, carregá-la por ruas ventosas, o cabelo desarrumado, o amor cada vez mais perto, é o que ela imagina, é o que todos começamos a imaginar, torcendo por ela, pelo encontro, adoramos todos as histórias com finais felizes, por mais que saibamos que só existem nesse formato de histórias, não na vida real. Na vida real há vento e cheiro forte de peixes, um oceano bravio e uma pedrinha que entra no sapato e precisa ser retirada, a travessia completa, um descortinar de oportunidades que tanto podem se revelar contentes quanto muito frustrantes, não se sabe. Talvez caia uma chuva e será muito bom se ela estiver abrigada, quando isso acontecer, será muito bom se estiver aquecida e sentada, uma xícara de café ou chocolate quente para também aquecer por dentro, um olhar lançado para o vidro da janela onde as gotas de chuva batucam e se prendem, para começar uma corrida vidro abaixo, quem vai chegar primeiro, o modo como se prender aos detalhes impede o pensamento de ir atrás de questões complicadas. Aproximei-me da mesa e disse, pode ser que seja eu. Perdão, ela respondeu, não entendi. Nada, comentei, apenas disse em voz alta uma coisa que estava pensando, me desculpe. Ela virou o rosto de novo para a janela, tudo bem, disse, a voz suave, melodiosa, um acinte de voz, mas a atenção sobre a minha pessoa começou a se diluir naquele momento. Os cabelos eram cacheados e enfeitavam um rosto que eu tinha vontade de dizer que pertencia a uma deusa. Ia perdê-la, para sempre, se não a fisgasse. Aquele peixe, aquela sereia, vinda do oceano até onde eu estava, era um presente mas era fugidio. Ou você age, minha voz interna me deu um ultimato, ou perde. Com você eu seria capaz de ir a qualquer água, a toda parte, falei. Ela me olhou como quem se dá conta de estar na presença de um louco. Tem hora que não se pode perder tempo, ou você lança a linha e o anzol, ou vira o barco e passa fome. Não estou recitando uma fala de uma peça, não, moça, é isso mesmo que você acabou de ouvir. Qualquer parte. Entende? Posso te pagar mais uma bebida? E ali começou o nosso romance, o desentendimento mútuo, a vontade de ir ao outro lado do globo para encontrar um novo amor, porque ele está sempre lá, do outro lado, no canto do mundo reservado aos amores da vida.

 

Companhias constantes

Foto | Sigurd Grünberger
Foto | Sigurd Grünberger

 

 

A fera à espreita é sempre mais sedutora do que a que salta. 

John Banville — Eclipse

 

O que me atraiu nela primeiro foi a superfície. Disso não tenho dúvida, o primeiro mecanismo da atração para um homem é sempre a aparência. Os olhos, boca, seios, a grossura da perna, a maciez adivinhada da bunda, só depois as outras características assomam. No caso dela, um charme no sorriso, no gesto de mão ao jogar os cabelos para trás da orelha, o modo como levanta primeiro os olhos e então a cabeça em seguida. Então as camadas mais internas, o traço da personalidade, a manifestação do caráter, as sutilezas das emoções. Havia evidentemente esse problema comigo, essa disfunção que me faz cair de amores muito fácil e a vocação terrível para o sofrimento. A felicidade me incomoda de maneira profunda. Então, quando tudo parece ir bem, as peças se encaixando nos devidos lugares para que a vida possa continuar sua farsa a respeito da possibilidade de ser harmônica, eu dou um jeito de chutar a vida na canela com bastante força. Com ela não fiz diferente e logo dizia o quanto detestava seus gestos, seu charme, o quanto não podia mais suportar a feiura dela, todas as mentiras convincentes que estavam ao meu alcance usei para afastá-la para bem longe de mim e para me deixar em paz com a minha única e constante companheira, a infelicidade.

 

Futuro é angústia

Foto | Flor Garduño
Foto | Flor Garduño

 

 

A expectativa de que algo vai acontecer gera uma angústia da espera: acontecerá? Terá o efeito que se imaginava quando acontecer? Será melhor ou pior do que a cena antecipada na imaginação? A quebra dessa expectativa, por exemplo adiar o horário para outro, bem mais tarde, pode ter duplo efeito: amplia ainda mais a agonia que incomodava ou então se abdica dela de uma vez por todas e entra-se numa espécie de relaxamento. Arnaldo na frente do espelho, a ensaiar as palavras que dirá para a mulher que deseja ter a seu lado e a quem pretende conquistar. Não será fácil, a vida desses dois, equilibrando mal e mal as projeções alheias de um sobre o outro, os defeitos não apenas revelados, mas ampliados, até que não mais se suportem ou, ainda pior, não mais se respeitem. Mas isso é depois, amanhã. Hoje a vida é desejo e esperanças luminosas e expectativas felizes. Como Arnaldo, diante do espelho, ensaiando sua fala.

 

Certas trocas

gaveta

 

 

Ele queimou todas as cartas que ela havia enviado ao longo dos anos (essa história é da época em que as pessoas enviavam cartas umas para as outras). Ele não queria mais a lembrança das palavras trocadas com juras de amor, agora que a relação havia se desgastado e estava se transformando em algo triste, envelhecido e mesmo sombrio, antes que o fim realmente se tornasse real. Ela, no entanto, não destruiu as cartas recebidas dele, porque algumas mulheres têm um tipo de apego a coisas materiais. Portanto, o que restou da história foi apenas a versão dele de todos os fatos, registradas nas cartas que ela guardou para o bem da História inclusive. Claro, há sempre conjecturas que se podem levantar em relação a como ela encarava o romance deles, mas sem grande exatidão e o potencial especulativo tem limites. Não é toda vez que a história faz justiça com as limitações com as quais é obrigada a conviver. Ele foi um escritor, além do mais, alguém para quem a destruição de cartas deveria ser sempre o componente de um crime sem redenção. Mas quem pode entender as crises do coração de maneira precisa?

 

Um casal diferente

carro-flutuante

 

 

Toda vez que penso a respeito do assunto, não consigo deixar de achar que é estranha a união daquele casal e acho que todos na minha cidade concordavam nisso. Os dois não poderiam ser mais diferentes nas escolhas profissionais e é algo tão determinante para dizer que tipo de vida você pretende levar, que me parecia sempre maluco que Iêda fosse mulher de Zenóbio. Parteira, Iêda sempre esteve ao lado de pessoas que estão grávidas, que geram vida, trazem existências para este mundo. Um momento inquietante, sem dúvida, temerário, em alguma medida, também, mas sobretudo um momento de felicidade extrema, de potência absurda, de vitalidade e de superação. Essa mulher gera vida. Essa mulher, Iêda, ajuda no processo. Iêda é uma das sacerdotisas da vitalidade. Pode haver algo mais belo? Bem, por contraste absoluto, o marido, Zenóbio, é agente funerário. Prepara corpos para frequentarem caixões abertos por alguns instantes e em seguida fechados para a eternidade. Zenóbio trabalha com o fim, com o momento em que a vida não está mais lá, e portanto ele precisa ser atencioso para com toda aquela quantidade de lágrimas e choro dos parentes e amigos do morto que estão envolvidos com esse momento tão terrível quanto inevitável. Não consigo pensar no cortejo entre os dois, não consigo imaginar Zenóbio chamando Iêda para um cinema, conversando ambos a respeito dos respectivos trabalhos, interessando-se, apaixonando-se, tomando sorvete juntos. Nem mesmo quando penso naquela imagem da cobra que engole o próprio rabo e que sugere que início e fim são parte da mesma coisa, nem assim me convenço.

Foi inevitável que em algum momento as pessoas começassem a desconfiar das aptidões de um e de outro. Quando Iêda perdia uma criança ou uma mãe, porque essas pedreiras existem na vida de uma parteira, vamos ser francos, bem, quando isso acontecia sempre se podia pensar até que ponto Iêda não estava dando uma ajuda ao destino e indo em socorro do negócio do marido, que nem sempre apresentava demandas. A favor dela deve-se dizer que nunca, jamais mencionou o nome do marido nessas ocasiões. Mas as pessoas sabiam, faziam a associação e então perguntavam. Nessas ocasiões, sim, os dois pareciam partilhar do mesmo princípio e da mesma proximidade, vida e morte passavam a estar definitivamente na mesma fronteira e muito próximas. O que é difícil para todo mundo, suponho, e também para mim, não nego, é que viver é tão precário e morrer é tão definitivo e aqueles dois apontavam isso para todo mundo de maneira muito evidente, sem qualquer disfarce ou pudor, que para todos nós era dolorido e angustiante lidar com a situação. A favor deles, sempre se deve registrar que eram discretos, dificilmente eram vistos em público de mãos dadas ou aos beijos. Bem, e agora que contei tudo isso e cheguei até aqui, não sei como termina essa história, que encaminhamento dar a ela, que tipo de moral retirar de tudo isso. Não tenho uma reviravolta para apresentar, nem uma reflexão a sugerir nem sei que tipo de desfecho é mais propício ou apropriado, de modo que a história vai ficar sem fim adequado, apenas com essas minhas palavras de inconclusão.

 

todos querem tanto amar

foto | ben zank
foto | ben zank

 

 

a predisposição humana para encontrar amor em qualquer parte normalmente tem como alvo outro ser humano, mas às vezes se vê casos em que ovelhas, manequins de vitrine, bonecas infláveis e sistemas operacionais avançados podem fazer o sujeito se sentir elevado às nuvens. entretanto os resultados são quase sempre desastrosos, não importa que o recipiente seja um substituto ou um humano original. embora inadequados para o amor, todos querem amar e sentem-se imbuídos do espírito, defendem o sentimento, vangloriam-se de tê-lo hoje ou ter tido no passado. o amor é sucesso das paradas de todos os tempos, desde que foi inventado. amor é a principal droga da autossugestão, a mais eficaz.

 

amor é água 4

arte | gustave coubert
arte | gustave coubert

 

 

margarete foi o nome que pronunciamos em torno do caixão. ela estava morta cedo demais —- é sempre cedo para essa dama feroz. generosa na distribuição do amor e em angariar amantes, ela atravessou a vida espalhando contradições e colecionando paradoxos. muitos se lamentam de terem sido alcançados pelo radar amplo dessa mulher. sou dos poucos que reconhecem o quão benéfico foi o convívio com ela. depois fui um medíocre consistente. estou feliz que ela esteja morta e não possa mais exercer influências, mas a verdade é que também tenho a boca amarga.

 

amor é água 3

arte | gustave coubert
arte | gustave coubert

 

 

margarete, esse nome ao mesmo tempo sonoro e debochado, tratou os amantes do mesmo modo, com sonoridade e deboche. ninguém que se aproximou dela saiu ileso —- a não ser que tivesse a mesma disposição e despojamento e mesmo esses conseguiam no máximo um empate, em que ambos se feriam. três maridos e incontáveis amantes —- na sucessão ou na simultaneidade. margarete parece uma máquina de amar com nome sonoro, amargo, mago, quase um diminutivo. não se pode saber quantos homens margarete amou, nem se de amor se trata, essa é que é a verdade.

 

amor é água 2

arte | gustave coubert
arte | gustave coubert

 

 

margarete, o nome que se decidiu dar a essa moça, sabe que amor é sofrimento e volubilidade. arnaldo, ela me disse, deixa de ser idiota. posso amar você e outros homens. amor é livre, senão nem é amor. concluí que o meu não era, por lógica. o que eu sentia suprimi, reelaborei, afoguei no tanque ou na bebida, mas essa é outra história. nunca me esqueci completamente de margarete, nem com todos esses anos em que nos afastamos. continuei a acompanhar a trajetória dela da forma que podia, ou seja, com a devida distância.

 

amor é água 1

arte | gustave coubert
arte | gustave coubert

 

 

margarete, porque vamos dizer que esse fosse o nome da moça, acreditava no amor na mesma proporção que acreditava nas marés: algo que estava ali, diante dos olhos, em movimento perpétuo. acreditar no amor não significa assumir papel de tola, ela dizia. o amor não era romântico nem choraminguento. estava mais para pragmático e movimentado. margarete se dizia determinada a fazer os outros sofrerem, em vez de sofrer ela mesma. isso porque sei que amor implica sofrimento, avaliou. mas para os outros, não para mim. não tenho talento para sofrer.

 

outra história de amor

banheira

 

 

achei que ouvia as chaves na fechadura. ela voltou, me enganei. a esperança é ótima para inventar variações de histórias e manter as expectativas em alta. tirei o prato do forno e pus o vinho sobre a mesa. acendi a vela outra vez e outra vez troquei a água do vaso de flores. mantive o prato dela sobre a mesa durante todo o tempo em que me forcei a me alimentar —- caso contrário ia entrar na zona de extinção em breve. ainda esperei um minuto ou dois, achando que ela entraria, um sorriso torto e um pedido de desculpas pelo atraso, a chuva tinha tornado o trânsito uma impossibilidade. tiraria a capa de chuva molhada e penduraria em qualquer lugar, como fazia sempre, molhando algum dos tapetes da sala de forma displicente. o amor não tem tempo para minúcias, eu a perdoaria. beberíamos o vinho, devoraríamos o jantar, riríamos das histórias que nos aconteceram durante o dia, a semana, o mês, faríamos sexo selvagem sobre os tapetes da sala. no entanto, na vida real, minha fome minguava, minha sede se ampliava e já me antecipava frequentando futuras reuniões do aa. olá, meu nome é roberto e eu sou um alcoólatra e depois de uma pausa para todos me cumprimentarem de volta eu encheria o saco deles com minhas histórias de amor, de longas esperas, de jantares frustrados, de velas derretidas, de flores mortas, de garrafas vazias e de finais alternativos inventados pela imaginação.

 

flutuações do amor

chalés

 

 

era um homem de coração inconstante. amava maria e depois joana, amava heloisa ao mesmo tempo que bárbara, amava a todas e todas diziam que não amava ninguém além de si mesmo. errante, bandoleiro, à deriva, seu coração flutuante foi chamado de muita coisa, mas quando cessou de funcionar só podiam dizer a mesma coisa que sempre se falam nessas ocasiões: estava morto. seu coração nunca mais seria inconstante. houve quem comemorasse.

 

para falar de amor

arte | tasos chonias
arte | tasos chonias

 

 

às vezes eu me pergunto se o que sentia por ela era amor, se podia levar esse nome, a palavra provavelmente mais gasta e de pouca serventia na face da terra. talvez não fosse amor, mas obsessão. talvez uma mistura dos dois, se é que um —- o amor —- existe sem o outro. um amor suave, tranquilo, sossegado, pode-se dizer que é amor? há que dizer que sim, mas não estou bem certo. amor tem que ser fogo e carne exposta e dor e felicidade suprema e compulsão e abertura dos pulsos. o resto é armazém de secos e molhados. a vida besta, a vela que brilha, a reza e a comunhão, a bobagenzinha menor, o cigarro aceso, os vazios acumulados dentro da carcaça abandonada no mais remoto dos desertos. o que sentia por ela era amor, me respondo, porque era destrutivo. doentio, desgarrado, alucinado, portanto sufocante, e descompassado, mas insisto, amor tranquilo não é amor. ainda bem que superei, suspiro, que superamos. senão ia acabar em morte certa, dela, minha ou de nós dois.

 

casas para habitar

bancos

 

 

existem pessoas que constroem a vida (sim, é um tipo de construção) em torno do conceito de lugar: em algum momento, no futuro imediato, breve, médio ou distante está a ideia de casa. tê-la, habitá-la, ser por ela habitado, afastar-se dela (viagens de férias) para melhor compreender o papel central que ela exerce na vida. depois se pensa que a ideia de casa, lar, domicílio só faz sentido se puder ser compartilhada. e quando se entende e se pratica o compartilhamento, a ideia de casa não faz mais tanto sentido. passa a ser onde a pessoa está.

 

o que não sabem

foto | xan latta
foto | xan latta

 

 

morto por causas desconhecidas, dizia o relatório. o fato é que legistas não capazes de identificar quando alguém morre de tristeza, solidão ou por amor, então ficam esses relatórios estúpidos de admissão de incompetência. mas para mim não havia mistério a respeito dos motivos pelos quais ela estava morta.

 

de onde vem

foto | mario cravo neto
foto | mario cravo neto

 

 

ela achava que o amor era uma decisão que se toma, parecido com escolher o legume a ser comprado para o almoço. dizia, naquela voz chorosa: “por que você não me ama?”. ele um abismo de silêncios sem eco. entre ambos, a expansão da matéria escura, dos desacertos existenciais, do descompasso cujo desenho é feito à mão livre. “quando precisa de palavras”, ele disse, cansado feito um velho sábio, “o amor não está mais lá”. que servisse de lição para ela, mas nada a abalava. as mulheres, ele suspirou, têm uma determinação e uma persistência insuportáveis. e têm o péssimo hábito de achar que o amor organiza.

 

sem novidades no front

imagem | lara zankoul
imagem | lara zankoul

 

 

as mulheres eram a mesma, convertida em duas, ou de acordo com a licença poética, em todas. cláudio as amou com supostamente a mesma intensidade, embora soubesse que elas estavam se revezando e julgassem enganá-lo — ele sabia perfeitamente quando era maria angélica, quando era maria inês. mas no fundo eram a mesma maria, na essência, no que tange ao essencial. como os relacionamentos tendem a se esgotar — a rebelião é a continuidade, estendida de forma longa (infinita) além da validade por causa sobretudo de teimosias de ambas as partes —, o deles também deu mostras de exaustão e nem quando o ménage se tornou oficial — cláudio nem se divertiu como imaginava, a duplicidade apenas unificada e a libido mantida em rédeas curtas —, a coisa esquentou. o fim próximo nem deixou margem a arrependimentos, que só atingem quem tem memória e a cultiva. lá se foram as marias para fora da vida de cláudio e outra história de desilusão amorosa engrossa o caldo dos longos e lacrimosos anais da história da humanidade.

 

até quando é possível falar de amor

arte | rené magritte
arte | rené magritte

 

 

se o sujeito não consegue amar a si mesmo, jamais conseguirá distribuir qualquer amor pelo mundo. o velho que me disse isso parecia realmente levar a sério o que estava dizendo. não tem nada mais vergonhoso e indigno do que um sujeito com a sua idade falar de amor, disparei, com aqueles meus modos que sempre geravam reclamações. o amor não é prerrogativa exclusiva dos jovens, rebateu, mas a gentileza bem que poderia estar mais distribuída pelo mundo. eu sabia que ele estava se referindo a mim e a minha postura de sempre dizer o que me ocorresse, sem me importar com quem eu iria atingir ou como. da minha boca costumavam sair dardos envenenados e certeiros. um velho que ainda ousa falar em amor não passa de um tolo, prossegui, inabalado. a única desculpa que teria seria se fosse um escritor, mas eu sei que esse não é o seu caso. você está se desviando do assunto, ele continuou, da verdadeira natureza do assunto. ele tinha olhos castanhos e pálpebras caídas que lhe escondiam as emoções que porventura ainda sentisse. daria um excelente jogador de pôquer, se se dedicasse. qual é o centro do assunto?, não resisti e perguntei. ele disse: você é uma dessas pessoas que não ama a si mesmo. e antes que eu pudesse abrir a boca para começar a fornecer resposta, me calei. afinal, ele estava correto.

 

a boca um túmulo

fachada-de-carro

 

 

fala, arnaldo, por que você não fala? eu aqui botando o meu coração para fora, sempre fui essa mulher que não para de falar dos próprios sentimentos, te entrego todas as vezes o que sinto, minhas emoções e você aí, mudo, estático, como sempre. um dia a gente se cansa, você sabia?, desse silêncio todo. eu sei que toda vez repito esse meu discurso, digo que vou me cansar e estou com você tem quanto tempo?, quinze anos, né, próximo mês. mas cansei, sabia, cansei desse seu silêncio profundo, de ser ignorada, tratada como sei lá o quê, mulher-objeto, objeto sem mulher, cansei, caralho. você pelo menos sorria para mim no começo e era tão bonito que eu podia passar por cima desse seu silêncio, mas ele cresceu tanto esse tempo todo que parece que tem mais alguém na sala junto com a gente, sabia? e além disso o tempo fez um estrago nesse seu rosto e nem bonito você é agora. me incomoda, não suporto mais, é só a minha voz e até dela eu estou me cansando. eu sei que hoje é particularmente difícil para você falar, mas agora que nossa situação mudou tão radicalmente você podia para variar me surpreender e dizer alguma coisa, em vez de ficar olhando para cima, com esse olho aberto. fala agora, desgraçado, abre o bico, põe para fora o que você sempre escondeu aí dentro do peito. foi para isso que eu abri ele, para ver se agora você fala. não vai dizer nada, arnaldo?

 

até que a morte não separe

arte | henri toulouse-lautrec
arte | henri toulouse-lautrec

 

 

lúcidos e misturados, eles eram o que se chama por aí de nascidos um para o outro. simbióticos até nos momentos de brigar e desentender, desafiaram teorias conceitos percepções conclusões teses comprovações casos estatísticas tudo. não bastasse, morreram juntos no mesmo acidente que carbonizou os corpos a ponto de ser impossível dizer qual tinha pertencido a quem. a família não quis esperar os testes de dna para separar os caixões. foram enterrados no mesmo, partilham a lápide comum por toda a eternidade.