Coisas erradas

Imagem | Oliver Flores
Imagem | Oliver Flores

 

 

A melhor professora que tive, costumava dizer aos amigos. A vida só me ensinou coisas erradas, truques bestas, a ambição de jogar para a plateia, suprema vaidade que alimentei com humildade suficiente para ninguém perceber. Mas todo dia ela pedagogicamente me encaminha para o grande aprendizado ao me retirar o sabor de estar vivo. Sobretudo, é preciso aprender a morrer. Quando for a hora, fingirei o mesmo despreparo que todo mundo que me antecedeu, mas estarei pronto. Que digam a meu respeito que descansei, porque se tratará justamente disso, de descansar, de me livrar do peso infatigável que é estar semi vivo, fingindo que levo a sério esta coisa, sendo que nunca de fato aprendi a viver, ou quis, ou me interessei a fundo pela matéria. Estuda-se muito, a vida inteira, para atingir o ponto de certo de passar no vestibular da vida e entrar na universidade da morte. Fingindo que me ensina as coisas erradas, a vida está me encaminhando direitinho e o fato é que sou bom aluno.

 

O que há para ver

Imagem | Sam Samore
Imagem | Sam Samore

 

 

Para Raymond Carver

O papel para desenhar e os lápis crayon, com muitas, muitas mais cores do que eu conseguiria descrever. Acontece que ela era cega e me disse para fechar os olhos. “Não me engane”, ela disse. “Estou confiando que você fechou os olhos.” Respondi sério, “fechei”. E tinha fechado mesmo. Ela pegou minha mão e começou a desenhar. Primeiro apresentei certa resistência, como se fosse um cego novo, tateante, sem saber que tipo de caminho havia a minha frente. Mas fui aos poucos aprendendo a ceder, deixando que ela conduzisse minha mão, embora ela não tivesse ideia de qual cor de lápis eu havia escolhido. É como andar na garupa de uma moto. Na primeira curva, você ainda resiste, rebate com o corpo na esperança de evitar que a moto caia, que o condutor a sua frente perca o controle. Mas à medida que vai ganhando confiança, você se entrega, passa a fazer a curva junto com a moto e o corpo a sua frente. É como aprender a andar de bicicleta também, num certo sentido. Você percebe que está conseguindo manter o equilíbrio, que há certa dificuldade inicial mas que depois se supera, você aprende uma nova qualidade de si mesmo com isso, um outro grau da própria humanidade. Então eu soltei a mão, deixei que ela desenhasse por nós dois, que nos conduzisse, ela à frente, eu acompanhando o movimento. Até que ela parou o movimento e me deixou continuar sozinho, quando viu que eu tinha pegado o jeito. Daí a pouco eu parei. “Pronto”, ela disse, “pode ver.” Mas eu não queria abrir os olhos, não ainda. A ideia de um novo grau de mim mesmo, de um estágio mais avançado, dessa visão dentro da cegueira, estava mexendo comigo. “Ficou ótimo”, eu disse, ainda de olho fechado.

 

pela janela do carro

foto | robert doisneau
foto | robert doisneau

 

 

o pai leva uma tartaruga na cabeça, o filho, uma tartaruguinha. o pai pedala certo orgulho e um bocado de mal disfarçado tédio, o filho desliza o desajeito aprendiz e a felicidade das descobertas. ele sabe que entre o chão e o infinito, todas as possibilidades estão em aberto.