auto meta para e as ficções

foto | alejandro guijarro
foto | alejandro guijarro

 

 

buscavam um escritor que fizesse autoficção e metaficção e, sobretudo, que não soubesse muito bem explicar os motivos pelos quais fazia o que fazia. queremos um escritor capaz de ser simultaneamente safo e ingênuo, explicaram aos dois ou três candidatos que se apresentaram. os três franziram a sobrancelha ao mesmo tempo quando ouviram a explicação, porque ela parecia completamente estapafúrdia, embora não tenham usado essa palavra. ou não tinham entendido direito? safo e ingênuo, insistiu o sujeito. aquilo mesmo, tinham escutado direito. um dos candidatos imediatamente se declarou desclassificado e abandonou a competição, não se sabe se por excesso de honestidade ou por ter compreendido bastante bem a barafunda que aquilo parecia ser. os outros dois, porque a vida não andava fácil para ninguém, permaneceram, porque havia certa quantia de dinheiro envolvida, em forma de bolsa literária, além da promessa meio vaga de promoção da pessoa e da obra, que afinal foi o primeiro estimulante para todos, ou pelo menos é como gostam de lembrar o episódio. os dois que restaram tinham metade das qualidades exigidas, infelizmente metades distintas. um era safo, o outro ingênuo e não parecia aos distintos senhores que colocar os escritores para trabalharem juntos fosse alternativa razoável, embora talvez, alguém aventou, pudesse ser uma solução. foi então e só então que se deram conta: o escritor que havia se retirado de cena primeiro, o que se abstivera alegando desculpas, ele era perfeito para a posição. dispensaram a dupla e foram atrás do escritor, que os recebeu com um sorriso amável, porque antecipou que era o que aconteceria. de quebra, ele tinha outra virtude não prevista, além de escrever autoficção e metaficção: também escrevia paraficção.