É preciso alguém para conversar

Foto | Giulia Pesarin
Foto | Giulia Pesarin

 

 

Ele era curioso, é bem verdade, mas o calor prostra todo mundo e ele não conseguia ficar imune. Estava dividido entre a curiosidade e a lassidão naquele dia em que o sol parecia especialmente determinado a castigar a terra. Sua curiosidade, entretanto, não se atinha a dados quantificados ou exteriores. Ele gostava especialmente de ouvir as pessoas a expressar inquietações, seja na forma de angústias ou como paixões. Não era exatamente bom conselheiro, mas bastava ser ouvinte, observador imparcial num mundo em que ninguém escuta ninguém embora na aparência todo mundo se exponha muito e praticamente o tempo todo e tudo terminava bem para seu lado. Sobretudo mostrava curiosidade por essa característica humana que percebia nos outros de desejar tanto e tão intensamente um interlocutor para problemas, crises, animosidades, alegrias, alguém que escute a esse, o quê?, narcisismo simplesmente não comporta tudo o que era. Além do que a palavra narcisismo tem certa carga negativa com a qual não concordava. Implica dose exagerada de egoísmo e embora se possa reconhecer que egoísmo é um dos componentes da vontade de interlocução, não dá conta de tudo. Ele poderia escrever um tratado a respeito do assunto, mas o calor o desanimava e de modo geral parece impraticável desenvolver raciocínios densos do lado de baixo (ou muito próximo) da linha do Equador, embora de vez em quando ocorra, com gente mais tenaz e preparada do que ele.

 

Sobre algumas tardes perdidas

Foto | Paulo Paniago
Foto | Paulo Paniago

 

 

Era uma dessas tardes quentes e abafadas e eu seguia a pé até meu carro, que tinha apresentado um defeito mais cedo e jazia, feito morto, estacionado próximo a uma entrada do metrô. A cidade parecia ter se transformado numa estufa e se Deus existisse ele devia estar pensando num experimento para testar qual a temperatura em que um ser humano se deixa cozinhar. Eu seguia pelo caminho tentando me desviar tanto quanto possível do sol e pensava, aturdido, em como meu corpo afinal tinha capacidade de resistência. Por que não me mudo?, pensava, por que diabos não sou um nômade à procura de temperaturas mais amenas. Tinha alcançado aquele estágio em que a solidão deixa de ser um incômodo e se torna a melhor companhia de um homem. Olhava para cada uma das mulheres que cruzava meu caminho com o mesmo olhar guloso, adestrado ao longo de décadas: como seria o sexo com esta, e com esta, e com esta… As paredes pichadas das passagens subterrâneas me lembravam um projeto que jamais executei: fotografar toda essa rede de imagens sorrateiras, todos os recados que milhares de anônimos persistentes continuam a enviar para os demais habitantes da mesma cidade, sem saber se serão compreendidos ou se operarão alguma mudança. Recados despretensiosos e no fundo mais para satisfação dos egos dos próprios emissores. A tarde foi apenas essa que tinha tudo para ficar perdida na poeira dos tempos e jamais ser retomada pelo biógrafo que não terei, até porque os biógrafos costumam insistir nos pontos altos da vida de suas vítimas, nunca nas tardes abafadas e quentes e nos pensamentos à deriva que elas costumam produzir. Bom, e no caminho tirei uma foto que mostra algumas árvores, um pedaço de um prédio residencial de um lado, uma rua na qual se vê um ônibus, de outro, uma foto tão esquecível quanto aquela própria tarde. Fui cuidar dos aspectos práticos para ressuscitar o carro relegado às sombras de árvores que circundam o estacionamento onde ele jazia, à espera do milagre elétrico ou químico da ressurreição. Há uma beleza esquecida dentro dos meandros dessa cidade, uma beleza que não sei quem tem tempo ou capacidade para notar, porque estão todos tão preocupados em cuidar da vida, em prosseguir com os trabalhos, em escapar ao calor.