origem do mal

foto | florian beckers
foto | florian beckers

 

 

não consigo imaginar em que idade e com que propósito pérfido uma pessoa decide se tornar político. quer dizer, não consigo imaginar que a pessoa tenha a honestidade de dizer para si mesma: sim, serei um cretino mentiroso que irá advogar em causa própria o tempo todo, pouco me lixando para quem quer que seja. imagino, ao contrário, que essa pessoa, ainda jovem —- portanto iludida —- suponha que possa chegar lá na arena política e fazer alguma diferença, mudar a situação, melhorar a vida da comunidade. é com a intenção limpa, suponho, que o jovem se ilude ao tomar a decisão de trilhar por esse caminho. mas em que momento, tendo percebido que capitulou, que se deixou subornar ou tomou a iniciativa de subornar, em que momento percebe o canalha em que se tornou ou, ainda pior, em que momento passa a sentir orgulho do canalha em que se tornou, como se isso fosse digno de nota. parabéns, senhor deputado, diria o texto no jornal, a comunidade fica feliz de ser comunicada e se congratula com o senhor que acanalhou-se de vez, de maneira definitiva e incondicional. fico pensando se havia honestidade lá atrás, na decisão inicial de lançar-se à vida política, ou se desde lá tudo o com o que o sujeito sempre sonhou foi a chegada desse momento de máximo acanalhamento.

 

a arte da canalhice

arte | juha arvid helminen
arte | juha arvid helminen

 

 

tomaram-me pelo canalha que não fui ou sou. e o que importa o passado ou o presente?, pensei. a partir de agora, é preciso desempenhar esse novo papel. e passei a me investir ao máximo em ser o melhor, isto é, a ser o pior canalha que o mundo precisava, alguém que fizesse jus às acusações —- infundadas ou não, não fazia mais qualquer diferença —- de maneira sólida e veemente. não abdiquei nem mesmo quando alguém modulou e disse que eu era um canalha tão bom que merecia um prêmio por isso.