Quando chega o fim

carro-e-sofá

 

 

Ela estava quebrando a louça e nossas memórias no mesmo gesto furioso de as atirar contra a parede. O passado tem formas estranhas de se manifestar. Lembrei dos amigos reunidos em torno daqueles pratos, próximos de nós na felicidade da refeição e das histórias compartilhadas. Lembrei dos jantares silenciosos em volta da mesa, ela e eu, em que engolimos a sopa e nossos ressentimentos, as mágoas de sobremesa, as reconciliações guardadas para o dia seguinte. Nossa vida conjugal fraturada ao longo dos anos e agora, despedaçada de vez ali, com aquele gesto de jogar a louça, de gritar, os vizinhos, supus, já deviam estar chamando a polícia, íamos envolver todo o prédio em nossa separação, todo o bairro e depois todos os presos da delegacia. Seríamos manchete dos jornais do dia seguinte, estaríamos nas discussões das redes sociais, no trailer antes do filme, sem qualquer temor de estragar o enredo: nossa separação era igual a de tantos outros casais, talvez apenas um pouco mais ruidosa e com menos porcelana no fim. Como íamos repartir os amigos, lançando-os contra a parede? Metade para ela, metade para mim? Impossível, não daria certo. Quando só tinha um último prato, renovei as esperanças: quem sabe um novo jogo de jantar e aquela explosão nos colocaria de novo nos trilhos, uma sobrevida, prontos para começar nova etapa do casamento? Foi que o propus a ela, sem muito sucesso, no entanto. Quando uma mulher se põe a jogar a louça contra a parede é porque o ponto de reconciliação foi ultrapassado há muito tempo. Agora sei disso. Dividimos um último item da nossa cartela conjugal: as aspirinas, que só curam as dores da superfície.

 

Profissão difícil

Foto | Gunars Binde
Foto | Gunars Binde

 

 

A dúvida é o que me mata. Se tivesse certezas e precisasse lidar apenas com elas seria tão mais fácil. A vida se tornaria um ângulo reto, encaixes e ajustes perfeitos. Em vez disso, tenho dúvidas, desgostos, círculos que não fecham, muito espaço tracejado. Margarete está me traindo, penso durante o café da manhã. Imagino que possa ser com Hércules, meu sócio, ou com Tânia, a dúvida não me deixa decidir e tento encontrar resposta em seus olhos, mas ela dissimula e foge. Quando Margarete se levanta da mesa e me dá um beijo de despedida, fico na dúvida se ela realmente me trai, se contrato um detetive para resolver o assunto, se me importo no fundo com isso, se abandono minhas amantes, Lurdes e Malva, para reconduzir Margarete à retidão do casamento e honrar o contrato de fidelidade que fizemos diante do padre e de nossas famílias. As dúvidas se multiplicam ao longo do dia de maneira realmente fascinante, em intermináveis bifurcações, mas encerro o dia cansado com tantas variáveis e o travamento geral que elas me provocam. Simplesmente não consigo decidir. A última do dia é a dúvida que sempre retorna como se fosse o fantasma de um filme ruim: devo ir para a cama e dormir ou cometo suicídio de uma vez por todas. Pelo menos, essa é uma dúvida que o dia seguinte responde por mim, sempre que desperto para enfrentar nova leva de conflitos e verifico que ainda não tive coragem suficiente para tomar a outra decisão.

 

Rumos da civilização

Foto | Anna Morosini
Foto | Anna Morosini

 

 

As pessoas se casam para manter a etiqueta, ele me disse, no meio da conversa. Não sei porque o assunto chegou aí. Elas se casam para cumprir os protocolos da natureza e da civilidade, prosseguiu. Como assim?, rebati. Sorriu, antecipando um domínio de determinado assunto que me escapava. Bem, prosseguiu, os protocolos da natureza disparam cargas hormonais em cascata e a pessoa não consegue mais raciocinar com lógica, pensa com as sensações, emoções, distúrbios, instintos, necessidade. Fez uma pausa, suponho que em busca de efeito dramático ou à procura de um hiato entre os tópicos. Depois continuou. Os protocolos da civilidade te estimulam a seguir o modelo vigente, quase sempre aquele que tem em casa. Quando vê, a pessoa está ansiosa para repetir os padrões ou faz isso sem nem mesmo se dar conta do que está fazendo, calcula com naturalidade as economias que fará ao levar a vida a dois. É um dos principais cimentos da sociedade, o casamento, ele disse, uma indústria muito bem sucedida a movimentar milhões e milhões, inclusive, por isso fiz tanta questão de evitá-lo. E você por acaso se arrepende?, perguntei, ao notar um tom de lamento em sua voz. Só me arrependo de não ter sido médico, ele falou, muito sério. Caí no truque, porque disse ué, mas você é médico. E ele: então não me arrependo de nada. E abriu um sorriso malicioso. Em seguida o assunto mudou de novo.

 

reclamação justa

arte | howardena pindell
arte | howardena pindell

 

 

é como eu te digo, a balança está desequilibrada. hoje vim para o trabalho e só quando cheguei à portaria para começar meu turno foi que vi que tinha esquecido a carteira no bolso do outro uniforme. agora tenho que aguentar o dia inteiro sem poder comprar um cigarrinho que seja. liguei para a minha mulher, ela disse que a carteira está lá. menos mal que não perdi. mas se peço a ela para me trazer dinheiro para eu comprar uma pinguinha, ela diz que não, não vai alimentar o meu vício. agora, estou casado há trinta e oito anos. são trinta e oito anos alimentando o vício dela, por que ela não pode alimentar o meu?

 

insistência

foto | pirkle jones
foto | pirkle jones

 

 

ele escrevia a respeito de homens perturbados pelo casamento e alguns andarilhos —- às vezes, algum personagem saía do casamento e se tornava andarilho, como se os anos de casamento com a causa de uma vida partilhada pudessem ser compensados pelas caminhadas intermináveis. nas entrevistas, ele sempre tinha que explicar que os personagens nada tinham a ver com sua vida real: era bem casado e nunca tinha sido andarilho —- nem alimentava a vontade de começar. quando vocês vão entender que se trata de invenção?, ele perguntava calmamente para todos os entrevistadores, que nunca se satisfaziam com a ideia de não existir relações entre arte e vida. em segredo, alimentavam a expectativa de que o casamento acabasse, para ver o que ele iria fazer em seguida.

 

a boca um túmulo

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fala, arnaldo, por que você não fala? eu aqui botando o meu coração para fora, sempre fui essa mulher que não para de falar dos próprios sentimentos, te entrego todas as vezes o que sinto, minhas emoções e você aí, mudo, estático, como sempre. um dia a gente se cansa, você sabia?, desse silêncio todo. eu sei que toda vez repito esse meu discurso, digo que vou me cansar e estou com você tem quanto tempo?, quinze anos, né, próximo mês. mas cansei, sabia, cansei desse seu silêncio profundo, de ser ignorada, tratada como sei lá o quê, mulher-objeto, objeto sem mulher, cansei, caralho. você pelo menos sorria para mim no começo e era tão bonito que eu podia passar por cima desse seu silêncio, mas ele cresceu tanto esse tempo todo que parece que tem mais alguém na sala junto com a gente, sabia? e além disso o tempo fez um estrago nesse seu rosto e nem bonito você é agora. me incomoda, não suporto mais, é só a minha voz e até dela eu estou me cansando. eu sei que hoje é particularmente difícil para você falar, mas agora que nossa situação mudou tão radicalmente você podia para variar me surpreender e dizer alguma coisa, em vez de ficar olhando para cima, com esse olho aberto. fala agora, desgraçado, abre o bico, põe para fora o que você sempre escondeu aí dentro do peito. foi para isso que eu abri ele, para ver se agora você fala. não vai dizer nada, arnaldo?