Peregrinos insaciáveis

cavalo

 

 

O grupo se reuniu num bar no centro da Europa. Ou seja, pode ter sido em Suchowola, na Polônia, ou em Vilnius, na Lituânia, ou em uma razoável porção de vilarejos, a depender dos critérios que se adote para entender o que é o centro da Europa, num dos seguintes outros países: Áustria, Alemanha, Eslovênia, República Checa, Eslováquia, Romênia, Ucrânia ou Bielorrússia. Importa talvez apenas isso: o bar tem um nome em qualquer das línguas que se queira que traduzido para o português é algo como Bar Central. O grupo tem, no total, dez integrantes, e todos se esforçam para participar dessa reunião anual, mas nem sempre é possível. Desta vez, estão presentes oito integrantes. São todos viajantes, vão de um país a outro transportando carros para levá-los e entregá-los a alguém. A vida que levam é errante, em certo sentido, e comporta elevado grau de incerteza. São nômades da Era Ford, que está com os dias contados e, reunidos, partilham histórias a respeito do que lhes tem acontecido, alguns contam segredos, às vezes um simples relato das rotinas é feito. Falam de solidão, do deslocamento não apenas físico, mas interno. “O curioso é que sempre que nos reunimos aqui, no centro da Europa e, portanto, para muita gente, no centro do mundo, eu me sinta tão periférico”, diz Hans, o alemão do grupo, naquele momento em que as bebidas começam a fazer efeito e certa nostalgia não se sabe do quê se anuncia. “No centro do mundo e no Bar Central”, reitera Gustav, austríaco. Ele começou a atividade aos dezenove anos, dez anos atrás. Nunca mais parou. Ganha o suficiente para continuar a sobreviver, mas não consegue juntar dinheiro. Martha, a única mulher do grupo e a única oriunda da França, tem um aspecto meio másculo e está tão curtida que ninguém parece notar a diferença de gênero, como se não importasse mais. “É minha última temporada”, ela anuncia. Vai se aposentar. Conheceu um caminhoneiro sérvio e vai deixar que ele continue as rotinas de viagens, enquanto ela se dedicará a fazer comida e conversar com as vizinhas a respeito de couves, não se sabe exatamente em que língua comum. Todo mundo está à busca de estabilidade, mas esse mundo velho sem porteira não para de girar, não para de empurrar todo mundo em direção à periferia, não cessa de acusar que o centro é uma ideia ridícula, por mais que se insista em alcançá-lo e aí permanecer.