Felicidade comprometida

 

lençóis

 

 

Havia essa cidade em que as pessoas sorriam muito e festejavam em tempo integral. Uma felicidade enlouquecida parecia ter tomado conta dos habitantes. Então, começaram a aparecer os turistas, atraídos pela notícia de um lugar em que todo mundo era feliz. Queriam ver com os próprios olhos e partilhar da alegria, se possível. Alguns começaram a perceber e assinalar que a cidade estava descuidando da economia, ninguém vive só de sorrisos e festas. Não demorou para ficar igual a outra qualquer.

 

Guerra interna

Foto | Tim Ronca
Foto | Tim Ronca

 

 

Ele tinha sido um sujeito assustadiço no começo da vida. Mais tarde, tornou-se introspectivo e por último podia ser visto como alguém cheio de brusquidão e amargura. É difícil imaginar o que as pessoas atravessam e como são afetadas pelo concreto das relações humanas. É fato que esteve num pequeno barco que deslizou bem próximo de um jacaré, mas e daí?, se você pensar bem, isso talvez não signifique muito. Até mesmo essas definições são limitadas e não conseguem delinear a quantidade de emoções ou a variedade de pensamentos. Soube que ele havia estado numa zona de guerra, fui a um jantar em sua homenagem e conversamos de forma breve. Eu estava fumando na varanda, contemplava as luzes da cidade e pensava a respeito das pessoas e das vidas irrefletidas que levavam. Ele se aproximou e começamos a conversar.

— Deve ser difícil voltar da guerra e se engajar em atividades sociais, como jantares — comentei.

— Pois é — ele assentiu —, muito.

Então me filou um cigarro e fumamos um pouco em silêncio.

— Chegou a matar alguém? — perguntei, depois de um tempo, mesmo sabendo que era o que todo mundo devia perguntar.

— Não, eu estava encarregado de organizar a distribuição de alimentos. Sou da área de logística.

— Entendo — eu disse, mas não entendia coisa alguma, a não ser o fato de que ele não havia matado alguém. Qual o sentido de ir para a guerra, nesses termos, eu me abstive de perguntar, mas fiquei com vontade. — Quer dizer que a guerra foi algo distante.

Ele deu uma tragada. Olhou para a cidade, depois para mim, como se eu fosse estúpido. Talvez estivesse certo.

— É possível ver muita merda, eu vi muita merda. A guerra externa pode ser bem feia, mas as guerras mais terríveis acontecem dentro das pessoas.

Sério que ele tinha dito um absurdo daqueles? Para quê, santo Deus, alguém diria uma bobagem daquelas? Acontece que tempos depois eu ainda estava pensando a respeito do assunto e me lembrava da voz rouca dele pronunciando aquelas palavras, as guerras terríveis dentro das pessoas. Parecia bom, depois de um tempo. Parecia realmente impactante.

 

No rumo de casa 1

Imagem | Laurent Cherehe
Imagem | Laurent Cherehe

 

 

Era o primeiro hotel em que entravam os desavisados que chegavam à cidade, porque ficava na principal rua de acesso e só depois é que se descobria que era o único. Tinha também um café caindo aos pedaços, onde seu Olavo servia cerveja quente e café frio, combinações normalmente fatais para esse tipo de negócio. No entanto, lá estava, e durando, com clientela fixa e os transeuntes do hotel que porventura não queriam se arriscar em outra parte, até serem informados que de fato nem havia outra parte, aquele era o único café no hotel da cidade. Jupiler, chamava-se, e pertencia ao nosso mafioso de plantão, Agnaldo. Ele estava sempre de colete e sempre de óculos escuros, mesmo à noite, ninguém jamais entendeu. Parecia ter vindo de outra época para lembrar a todos que os valores do passado ainda contavam para alguma coisa, sem que necessariamente se pudesse precisar o que seria essa coisa. Agnaldo tentava formar um corpo de associados subalternos que estaria sob seu comando, mas a indolência de nossa população, 752 almas desenganadas (e diminuindo), era completamente avessa a esse tipo de conduta e ele não chegava a ser um grande líder para reverter a situação. Nossa cidade parecia condenada, os filhos se mudavam para estudar e dificilmente queriam voltar depois, o destino que nos aguardava era lacônico e reticente, o que temperávamos com cerveja quente, à noite, e café frio, de dia, além de melancolia e resignação que ninguém sabia explicar qual seria a origem, mas que se espalhavam com enorme eficiência pelos habitantes. Seu Olavo também era gerente do hotel de Agnaldo e o único que parecia disposto a suportar as chatices do chefe. Nós outros simplesmente ignorávamos os comentários e admoestações de Agnaldo, cópia chinfrim de um Al Pacino mais jovem, em fins dos anos 1970, por aí. A estagnação e anúncio de morte de uma cidade é algo terrível, gela o sangue, interrompe a noção de que a vida é vibrante. Até os ventos pareciam se desviar nas montanhas em volta e evitavam arejar as ruas silenciosas de Rio das Almas, no interior de nem te digo qual estado (o nosso era lamentável). O rio estava assoreando, sucumbindo como metáfora viva da condição patética de resistência dos parcos habitantes. Ali o tempo tinha andamento muito mais caprichoso, excelente para escritores, essa raça que precisa ter exatamente o que escasseia por toda parte e lá havia de sobra, com inclusive muita folga a ponto de virar recurso. Foi o que fizemos para nos salvar, criamos uma colônia de escritores, para os quais vendemos tempo e eles vêm, em peregrinação, em busca do ambiente agradável e dilatado que proporcionamos. Há um bangalô para cada um, no qual escrevem e onde dormem, e espaço comunitário para conversas noturnas. Nem todos são bons, mas isso pouco nos importa, o que queremos é que a cidade não morra. E para os que estão com falta de inspiração, sempre tem Agnaldo, com relatos de histórias que jamais aconteceram, mas que funcionam muito bem em literatura. Ele é nossa versão local de Barão de Munchausen. O próximo passo é convencer seu Olavo a comprar geladeira nova e decente para a cerveja, uma máquina apropriada para fazer expresso e estamos feitos.

 

quando paris era realmente uma festa

imagem | matthew davis

 

 

joseph roth escreveu a respeito de paris um tipo de elogio muito forte (mas claro que não sei se vale para os dias de hoje).

está em joseph roth: uma vida em cartas. a tradução é minha:

 

“estou compelido a te informar pessoalmente que paris é a capital do mundo, e que você tem que vir para cá. quem quer que não esteve aqui é só meio humano e de jeito nenhum europeu. paris é livre, intelectual no melhor sentido e irônica na disposição mais majestosa. qualquer motorista é mais talentoso do que o mais talentoso de nossos autores. realmente somos um bando de infelizes. aqui alguém sorri para mim, me apaixono por todas as mulheres, mesmo as mais velhas, a ponto de considerar o matrimônio. poderia chorar quando cruzo as pontes do sena, pois pela primeira vez na vida estou chocado com o aspecto de construções e ruas, sinto-me à vontade com qualquer um, embora continuemos a nos desentender nos assuntos práticos, simplesmente porque nos entendemos maravilhosamente nas questões de nuance. se eu fosse um escritor francês, não publicaria nada, apenas leria e conversaria. os criadores de gado com quem tomo café da manhã são tão educados e nobres que deixariam nossos ministros com vergonha, patriotismo é justificado (mas só aqui!), nacionalismo é uma expressão da consciência europeia, qualquer cartaz é um poema, os pronunciamentos numa corte de magistrados são tão sublimes quanto a nossa melhor prosa, os letreiros de cinema têm mais imaginação e psicologia que nossos romances contemporâneos, soldados aqui são crianças fantásticas, policiais, editorialistas divertidos. você tem que vir para cá!”