Esticar a lei

Foto | Markus Jans
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Ele começou como detetive, acumulando indícios da culpa alheia em provas de crime e em atribuição de responsabilidades. Havia também, claro, isso sempre existe em alguma medida, a curiosidade pela vida alheia, pelo modo como os outros organizam ou bagunçam a própria vida e os objetos em volta. Mas, à medida que foi se enveredando pela profissão e premido por um comportamento (hábito? rebeldia?) pouco afeito a respeitar limites da ética, abandonou o estágio policialesco que tem a presunção mal resolvida de querer corrigir desmandos alheios e abraçou primeiro timidamente mas depois com gosto os princípios que levaram as outras pessoas a cometerem crimes. Tornou-se muito bom no que fazia, porque conhecia os métodos de investigação e sabia como evitá-los melhor, mas também e sobretudo porque afrouxou ao extremo o rígido controle moral que era sua bússola e adotou uma lassidão extrema ao abdicar com radicalidade do mecanismo da culpa. Há sempre um modelo de reequilíbrio de distribuição de renda no ato de roubar, um princípio interessante, como ele pôde comprovar. O que torna os bancos maus ladrões é o fato de que acumulam capital alheio e o mantêm entre uns poucos associados, em vez de redistribuí-lo. Não foi o caso com o ex-detetive: era generoso com os ganhos obtidos e comungava do princípio de fácil vem, fácil vai. Por isso foi mais perseguido, de forma implacável, e finalmente jogado na prisão. Onde já se viu, abalar as bases do capital dessa maneira tão vil?