Para o buraco

Imagem | Giorgio Ortona
Imagem | Giorgio Ortona

 

 

O país está indo para as cucuias, mas quando é que não não esteve?, ele pensou. Não se afunda um país, é impossível, as pessoas sempre dão um jeito de se reinventar, de juntar os cacos, de colar os fragmentos. Mas sempre que abre o jornal e se põe a ler, tem a impressão de que a coisa está feia, está piorando, fica mais decadente e acintosa. Mas então decide ser honesto e olha bem o rosto no espelho. O que está indo para as cucuias é você, meu caro, ele diz para a imagem no espelho, que lhe dá um sorriso melancólico de volta.

 

Um último recado

Imagem | Nathan Ford
Imagem | Nathan Ford

 

 

Antes que vocês se dispersem, eu gostaria de dizer, eu disse. E olhei a cada um deles nos olhos. Eu gostaria de dizer, repeti, depois da pausa dramática, que o problema da literatura brasileira são vocês, os leitores. Como assim, nós?, uma moça de cabelo comprido e pintado artificialmente disse, tornando-se porta-voz automática do grupo. Não fizemos nada, ela acrescentou, desafiadora, eu diria até que irritada. Pois justamente, rebati, não fizeram nada, e é bem por isso que as coisas estão como estão. Eu tinha engasgado uma vontade de dizer que a falta de leitores era o grande desestímulo do escritor brasileiro. Mas achei que ficava bem deixar as coisas no pé em que estavam e por isso me abstive de acrescentar qualquer coisa. A culpa da literatura brasileira estar como está é de vocês não lerem, aí ela não pode crescer, dizer coisas importantes e profundas, fica assim rasa, superficial, boba. Havendo leitores e cobranças, a literatura se veria forçada a melhorar para agradá-los. A culpa é inteiramente de vocês, bradei, dessa vez me dirigindo a eles, e agora me deixem em paz que quero pensar.