Não é possível pensar e ser feliz

moça-e-chuva

 

 

Ainda bem que no meu caso a depressão é suave, ele pensou. Bem, se tem que ser doença e tem que ser depressão, pelo menos que seja suave. Era algo que não o impedia de ir até a loja de tinta ou buscar a filha na escola. Pobre menina, crescer com um pai depressivo, mas a gente não escolhe as doenças que vai angariar nem a família onde vai nascer. Ainda assim, pobre menina, pensava Oduvaldo, todo fim de tarde que conseguia ir buscá-la na saída da escola. Depressão, pelo lado bom, era efeito colateral de ter inteligência. Embora fosse obrigado a admitir que havia gente inteligente que não era especificamente deprimida. Mas tinha certeza que pessoas medianas não eram deprimidas, e portanto podiam almejar e conseguir felicidade ou qualquer coisa que leve esse nome embora sem ser. Ou, se não felicidade, pelo menos conseguiam o bastante para se declarar bem resolvidas, o que não deixa de ser um avanço. O que não era seu caso, nunca tinha sido e sem qualquer perspectiva de vir a ser. Talvez fosse por causa do nome que os pais lhe deram, pensou, mais uma vez. Quem dá um nome desses para um filho? Alguém que não quer a criança, que a teve muito cedo, bem antes da hora, num momento em que os hormônios falaram mais alto do que a lógica ou a perspectiva de ter um futuro. Lembrou-se de um episódio em que a filha cantava e, ao chegar ao refrão, pediu ao pai que cantasse junto, mas ele permaneceu em silêncio. Você não cantou, ela disse. Cantei na minha mente, ele respondeu, porque lá pelo menos eu sou afinado. Mas a verdade é que nem lá. E, no entanto, naquela tarde Oduvaldo não conseguiu buscar Matilde na saída da escola. Ligou para a loja de tinta e pediu para uma funcionária ir até a escola e levar a menina para a casa da tia. Quando o corpo de Oduvaldo foi encontrado, o bilhete pedia desculpas à filha e trazia uma orientação específica: que evitasse ser deprimida. Mas a gente não escolhe as doenças, nem a família onde vai nascer.

 

Fazer da derrota vitória

Imagem | Ferdy Remijn
Imagem | Ferdy Remijn

 

 

Fomos para a piscina assim que acordamos. Era bom estar na casa de um amigo bem de vida que mantinha piscina no quintal, à espera de livrar nossos corpos dos efeitos da ressaca. Redenção pela água, alívio dos pecados alcoólicos. Um fogo-pagou anunciou presença como se exigisse ser reconhecido, os cachorros vizinhos expressaram vontades de lhe estraçalhar as entranhas, aqueles cães são uns brutos disfarçados de amor incondicional que reservam somente aos humanos, crianças sobretudo. Beto pôs as mãos sobre o rosto, depois empurrou os cabelos para trás, como se quisesse arrancá-los pela raiz de uma vez. Abandonado por Marina, que deu no pé com Olavo, considerado a partir de então traidor, Beto não mede esforços para estragar o próprio corpo, como se ainda precisasse se punir por ter sido largado. Tornou-se fingidamente cínico, mas não passa de bebê chorão e às vezes é preciso lhe dar uma descompostura. Também, lamuriento como você está, quem aguenta?, alguém lhe diz, para ver se melhora. Ele engole o choro, feito menino, depois sucessivos copos, para ver se consegue se manter anestesiado por mais um dia. A verdade é que somos todos um tanto imaturos, pelos variados motivos que nossas histórias estimulam ou reconhecem. E a verdade também é que bebemos demais na festa de ontem, a pretexto de afogar mágoas que agora queremos ressuscitar na piscina. Bem, vá lá, não as mágoas, mas o que restou de nossos próprios corpos infames. Berna ameaçou vomitar na água, foi expulso. Ocupou o banheiro dos fundos e ouvimos suas tripas sendo excomungadas para fora do corpo, em profusão. Aquilo parecia não ter fim, como cabia tanta coisa naquele cara? Enfim, silêncio. Tranquilidade relativa. O resto de nós na flutuação, esperando clemência do sol em seu trabalho implacável. Berna saiu um fantasma da casinha, proibido por unanimidade de voltar à piscina. Nos resta um fio de honra, alguém lhe advertiu, chamando-o nojento. Ele prometeu bochechar com algo refrescante e voltar à piscina em breve, também era filho de Deus, o que nos anunciou com voz pastosa, como se estivesse primeiro mastigando as palavras antes de proferir. Parecíamos o exército da derrota depois da batalha de nossas vidas e houve um cretino que anunciou essa exata imagem, como se ainda fosse necessário ouvir a verdade naquele momento, algo que tenho certeza de que estávamos dispostos a deixar para outra ocasião e oportunidade. A questão profunda, sabíamos, era que a ressaca apontava nossa desclassificação não só momentânea, mas na guerra da vida de modo geral, ela assinalava o quão perto estávamos de assinar a rendição definitiva. Nem pensar em virar o jogo, em mudar de perspectiva. Nem o fato de estarmos produzindo aquelas análises de nossas perdas e danos na piscina do Setúbal aliviava a nenhuma consciência de que dispúnhamos. Mas depois de duas horas de tratamento aquático, à base de suco de tomate, hidratantes, antieméticos, cafeína em variadas formas, água de coco, a promessa do organismo de aguentar outra rodada se num futuro distante, recebemos a visita de Mariza. Nossas lamentações estavam na fase próxima ao esgotamento. Mariza é o mais perto que temos do que seja Musa, pelos mais variados motivos e razões. Alguns conseguiam sorrir de novo. É impressionante como a vida sabe renovar os ciclos, para a nossa glória, amém, para a nossa salvação, amém, para a continuidade dos trabalhos até o sem-fim dos tempos, amém, e a perpetuação inesgotável dos fígados, amém. À noite estaríamos de volta as nossas respectivas casas, restaurados parcialmente para o enfrentamento de pelo menos mais um round, outra semana, apoquentações, trabalho, contas pagas e renovadas. No próximo fim de semana estaríamos loucos por um pretexto para celebrar a vida, beber e comemorar antes que ela finalmente chegasse ao fim.

 

perspectivas distintas

hopper-revisitado

 

 

ele estava esgotado, gordo e se sentia um tanto incomodado consigo mesmo, mas não conseguia parar de beber cerveja e continuar a trajetória ladeira abaixo, era mais forte do que o incômodo. depende de você, de sua força de vontade, os amigos advertiam ou sugeriam. ele dava um sorriso amarelo, balançava a cabeça, mas por dentro os amaldiçoava a todos. em casa, à noite, a compulsão pela cerveja falava mais alto. o som da latinha ao ser aberta, o sabor insuperável do primeiro gole —- a necessidade de se encharcar em todos os outros. estar esgotado era sua força, não sua fraqueza.

 

sono interrompido

coqueiro

 

 

quando alguém me liga no meio da tarde e estou dormindo, não sei dizer qual é o motivo pelo qual sempre tenho essa reação instintiva de me proteger com uma mentira. a primeira reação, enquanto o olho ajusta o foco e procura identificar o autor da ligação, é pigarrear uma ou duas vezes para limpar a voz da rouquidão, antes de atender. sou culpado, penso com a voz interna, enquanto a externa eleva o tom duas oitavas para dar a impressão jovial de que interrompi os exercícios de dança ou esgrima e, ainda inebriado da alegria que essas atividades certamente me provocariam caso decidisse praticá-las, digo: “alô”. mas quando do outro lado uma voz que também força jovialidade e procura me vender um plano de assinatura de televisão imperdível (com essa palavra ela me perde), descubro mais um motivo exterior para responder a minha depressão com esse sono infindável que me joga na cama a qualquer hora do dia ou da noite.