Brasília te amo e te odeio

Arte | Constantinos Chaidalis
Arte | Constantinos Chaidalis

 

 

Brasília é um monstrengo. O vazio imenso, a ocupação insana. Onde alguém via espaço negativo, quiseram preencher: negativo é o caralho, imagino que alguém possa ter dito. É preciso preencher cada centímetro, sem falta, como se o vazio fosse falha a ser corrigida. Mas não se consegue mover uma palha contra a amplitude do céu, o espaço negativo superior que encobre tudo. Um monstrengo, nem vazia, nem cheia.

 

Breve

gato-e-bolha

 

 

O que é breve tem qualidade extra no mundo. Sobretudo quando o sujeito começa a entender que a vida é persistente — impressão que aumenta bastante quanto mais idade se adquire, a ponto de virar obsessão — e portanto longa. Inevitável ser lembrado da frase com que Blaise Pascal encerrou uma carta certa vez: “E se escrevi essa carta tão longa foi porque não tive tempo de fazê-la curta”. Ganhar tempo significa aprender a encurtar. Um dia escrevi um aforismo para expressar isso: elegância é breve. O que me leva à triste conclusão: quanto mais envelheço, mais elegante me torno, necessariamente.

 

Sarcasmo e aspirinas 3

Foto | Bruce Mozert
Foto | Bruce Mozert

 

 

Ensaio narrativo em três partes

Terceira

25

Se as pessoas estão à procura de bússolas que as orientem, o único efeito plausível do sarcasmo será desnorteá-las. Portanto, você que se comporta como ovelha desgarrada à procura de reingressar no rebanho, mantenha distância do sarcasmo e de quem o pratica.

 

26

O que você anda fazendo, me perguntou um amigo. Morrendo, respondi. Ao que ele sorriu: nada para hoje, então, de novo?

Esse é um verdadeiro amigo.

 

27

O cheiro do sangue e da tragédia anunciada enchem de expectativas aqueles dotados dessa especialidade do humor. A elegância é relegada para os piratas da existência. Charme é atributo dos filhos que receberam atenção excessiva das mães, preocupadas com botões e casas e as firulas ocupacionais, da existência.

 

28

É muito difícil se equilibrar na corda bamba do sarcasmo. Uma gota a mais de amargor e a fórmula se perde, o veneno vira combate. A diluição, da outra parte, gera subprodutos, como ironia, bazófia, deboche, chiste. Mas a imperfeição, afinal, fundamento do projeto humano, cai bem, quando se pesa tudo na balança.

 

29

Num mundo que briga para banalizar tudo — passando com a régua da democracia como trator por cima de ideias e paixões — ou radicalizar de vez em fundamentalismos inflexíveis, o sarcasmo é o único remédio autoimune que se anuncia, mas com discrição.

 

30

Um mapa para emoções em conflito, para inteligência inquieta, para o riso que não acha exatamente graça daquilo de que ri. Um tumor na alma torta, que não consegue tolerar o nível sempre crescente da imbecilidade humana. Embora contraditórias, ambas as definições se aplicam a sarcasmo.

 

31

A Bíblia é cheia de narrativas excelentes, mas leva tudo excessivamente a sério. A se crer no texto, Deus concedeu sarcasmo aos seres humanos para vê-los manifestar em pequena escala o humor que teve ao criá-los, mas que não permitiu que aparecesse no livro sagrado — talvez esteja nisso umas das chaves para desvendar os mistérios.

 

32

Leio que os artistas plásticos do Brasil migram aos poucos para a literatura. É esforço para desautorizar o lugar-comum repetido à exaustão — bête comme un peintre (eu estou demais com meus chavões em outras línguas, hein?). Ou o desespero manifesto que é ser artista plástico num país analfabeto. O gesto dos pintores me enche de emoção, essa que é o tema recorrente dessas anotações.

 

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Existe o mundo e ele pode ser visto e experimentado diretamente. O sarcasmo é essa película que separa a pessoa de ter uma experiência direta com o mundo, como se estivesse subitamente impossibilitado de alcançá-lo e por isso se atormenta com essa manifestação de sua alma mutilada, no sentido de provocar uma ruptura que lhe permitisse enfim alcançar a experiência direta.

O sarcasmo é uma dobra, o impedimento de ter a mesma experiência em que estão mergulhadas as ovelhas do rebanho. O sujeito dotado de sarcasmo trocaria em dois tempos a própria inteligência, se pudesse, com isso, absorver a experiência sem julgamentos que teve um dia, por um breve período.

 

34

Você corre para fugir da polícia e no caminho tem uma cerca, alta, de arame farpado, a qual você tenta escalar, a despeito dos ferimentos que ela te provoca. É essa a vítima do sarcasmo.

 

35

Não ter pudor de ferir os sentimentos e as suscetibilidades alheias é o que torna alguém sarcástico. Isso e a consciência de que é preciso fazer uso do sal com que se temperam as relações humanas. Amizades, casamento, são o terno e gravata das relações. Sarcasmo é o tempero que ajuda a sair da formalidade morna.

 

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Desde que Montaigne colocou a lupa para enxergar a si no mundo que existe essa preocupação do entendimento. Mas Michel (o prenome de Montaigne) era elegante, portanto o sarcasmo ali passou longe. Mais recente, em meados do século vinte, Jean Cocteau escreveu um livro intitulado A dificuldade de ser, em que se retoma esse jeito especial e próprio de enxergar-se no mundo. Pronto. Está aberto o caminho para a entrada do sarcasmo, até porque Cocteau diz que a dificuldade de ser “nunca se ajeita”.

 

37

Sarcasmo é um isolante, um veda-rosca existencial. Parcimônia no uso é o recomendável, a não ser para o verdadeiro sarcástico, que não tem menor paciência com a contenção. É preciso corroer o estar no mundo, esse é o princípio e ele não quer ser bonito nem simpático. Se tem uma coisa que tira um sarcástico do sério é a simpatia, placebo das relações humanas.

 

38

Sarcasmo ri alto, mas é triste.

 

P.S.:

Antídoto que me permite continuar no mundo: sarcasmo previne contra o suicídio.

 

Sarcasmo e aspirinas 2

Foto | Bruce Mozert
Foto | Bruce Mozert

 

 

Ensaio narrativo em três partes

Segunda

13

Sarcasmo não tem alternativa: precisa ser intolerante com a burrice.

Não é à toa que no mundo florescem, neste momento, livros de colorir.

 

14

Numa ficção distópica, imagino um futuro em que o sarcasmo foi proibido e a punição é severa. Uma seita secreta iria se reunir, uma seita de adoradores de George Bernard Shaw, H. L. Mencken, Nelson Rodrigues.

 

15

A versão carnavalesca do sarcasmo é o deboche. Combina com o Brasil, porque deboche é o sarcasmo que não consegue assumir-se plenamente diante da estupidez do outro e disfarça o repúdio com um toque de malemolência. O que me gera o aforismo: deboche é sarcasmo com malemolência. Mas, para usar minha ferramenta predileta, posso dizer: deboche é o sarcasmo que se acovarda.

 

16

Jornais não conseguem lidar com os níveis elevados de acidez do sarcasmo e se contentam em chamar os políticos de hábeis. Mas o máximo que um jornal alcança é a suavização do sarcasmo, ou seja, a ironia. Porque políticos não são hábeis, pelo menos não no Brasil. O nome correto é sempre outro. Mas é difícil para a nação conferir o verdadeiro nome ao político que elegeu para representá-lo, porque isso significaria reconhecer o verdadeiro caráter local para a cretinice ilimitada.

 

17

Alguém que se disponha a usar de sarcasmo é porque alcançou o patamar de ir além do senso de humor. A única coisa além de sarcasmo é a mordacidade — embora ela ainda queira encontrar algum potencial para o riso no mundo.

Além do sarcasmo, só mesmo o remédio para dor de cabeça.

 

18

O cético é realista. O sarcástico acredita que o riso não salva, mas pelo menos permite uma postura intransigente diante do absurdo da existência. Ride ridentes, como diria, muito sério e compenetrado, um poeta russo cujo nome me fugiu.

 

19

Para se conseguir ser sarcástico, é preciso ter a mente desocupada para perceber o vazio das atribulações mundanas.

É por isso que as pessoas se ocupam tanto e a cada dia mais: não querem se contaminar inadvertidamente.

 

20

Religiões abominam o sarcasmo, porque se levam a sério demais no papel de explicar a ficção a respeito do espírito.

 

21

O meu único espírito é o do tempo. E ele vive gripado.

 

22

Só se pode pensar no limite da liberdade se se puder fazer o exercício perpétuo do sarcasmo. Quando começa o respeito, a liberdade vai para o saco.

 

23

Apontar o dedo na cara de uma ideia ou argumento e chamá-la de idiota ou cretina é a prerrogativa de que o sujeito sarcástico não pode abrir mão, mesmo sob risco de ser — e será, não tenha dúvida — tachado o tempo todo de grosseiro.

 

24

Elegância é incompatível com sarcasmo, esse rude do humor com fome pelas canelas das visitas. Ainda mais se bem vestidas.

 

Sarcasmo e aspirinas 1

Foto | Bruce Mozert
Foto | Bruce Mozert

 

 

Ensaio narrativo em três partes

Primeira

1

É jogar sempre a inteligência por aí, desperdiçá-la com bobagens, com a cota extra do fútil. É esse o talento do tempo, o que para dizer de modo chique e elegante eu poderia usar o alemão, Zeitgeist. Ou o francês, l’esprit du temps.

 

2

Eu mesmo trato muito mal os neurônios que meus pobres pais se uniram para me transmitir. Não que tenham feito esforço especial para caprichar: a verdade é que o processo foi um tanto aleatório e atribulado. Atraídos pelos feromônios mútuos, acasalaram-se de modo muito parecido com o de outras espécies, ou seja, a atividade envolveu suor, saliva, fluidos, coração a toda, o pacote completo.

E eis-me, nove meses depois, a lhes berrar nos ouvidos para que se arrependessem. É claro que de nada adiantaram meus berros e eles ainda tiveram outros filhos.

Às vezes só me resta mesmo duvidar que somos capazes de usar a inteligência da melhor forma.

 

3

Hoje vi uma referência ao filósofo Wittgenstein. Jornais e revistas promovem, a intervalos regulares, os mesmos grupos de pensadores e artistas. O negócio é cíclico. Entra Wittgenstein, sai Kierkegaard, é assim?

Troque uma preocupação com a linguagem — um traço de superfície — por um mergulho no amargor da existência. E considerando que as discussões a respeito de inteligência artificial terão que levar em conta os fundamentos da linguagem, voilà, eis Wittgenstein em alta.

Eu, eu abomino as tendências, porque tornam os humanos muito parecidos com carneiros.

 

4

Tenho, atrelada a minha inteligência, que reputo cada vez mais escassa, essa característica terrível: o mau humor. No meu caso, ele se manifesta de forma muito específica, com essa característica que parece ausência de humor, ou até mesmo inversão completa: sarcasmo. Quando afiada demais, a inteligência se vê acuada a esse ponto de entrar em curto-circuito ou manifestar-se por meio desse riso acerbo.

 

5

Sarcasmo é veneno e remédio: não saio de casa sem levar uma boa dose comigo, embora o uso seja pouco recomendável e agrava as crises de relação pessoal.

 

6

Acabo sempre me voltando ao mesmo ponto: para que servem as gentes? Ainda bem que a humanidade se encaminha (a meu ver, ainda de forma lenta) para a criação definitiva da inteligência artificial e da superação definitiva do fracassado projeto humano. Mas demora e terei morrido quando essa etapa for atingida. A mim só me resta testemunhar os filmes que tentam se antecipar ao assunto. Todos com o mesmo princípio básico: o medo desse momento de superação, esse complexo de Frankenstein (o humano que cria um monstro autônomo e ele se volta contra o criador).

As gentes servem para viver a vida, contaminar o planeta, serem chatas, umas poucas serão efetivamente legais, servem para morrer de acidente ou velhice e renovar o estoque de gentes que se fazem as mesmas perguntas vazias de resposta: qual o sentido de tudo isso?

 

7

Sarcasmo não é riso coletivo nem inclusivo. Sarcasmo é o riso solitário da inteligência. Envenena a alma e estimula a produção da cárie, essa mazela típica de terceiro mundo com alimentação recheada de doces.

 

8

É isso. Vivo num país doce.

É o mais sarcástico que consigo ser.

 

9

Sarcasmo é inimigo da elegância, acho que essa conclusão não é difícil de admitir. Ele funciona para blindar quem o detém dos ataques de insanidade coletiva que o mundo é pródigo em produzir.

Sarcasmo te isola e te protege, no mesmo movimento. Por isso tem baixos índices de aproveitamento: o desenho da humanidade privilegia os tais bons sentimentos: solidariedade, tolerância, compaixão.

Sarcasmo é artigo de luxo e toda parcimônia deve ser empregada no uso dele. É como manipular veneno: se não forem tomadas as devidas precauções, alguém vai acabar machucado de forma séria ou morto.

 

10

Até quando se vai insistir na ideia de que só se pode ser terrible quando se é enfant? Quero ser um adulto terrible e um velho, se chegar a tanto, insuportável. Algumas pessoas que me conhecem hão de concordar que a minha terribilità está a toda.

Pessoas com um perfil parecido com o meu terminam presas ou internadas em hospício. Já entendi o destino que me aguarda, é questão de tempo. Claro, se eu tivesse poder, o cenário seria inteiramente outro, poderia ser chefe de estado, ministro, congressista. Minha têmpera me impede, no entanto. Vim definitivamente defeituoso. Confinei minha inteligência — parca, insisto — no campo das artes, onde os excêntricos podem caminhar sem serem incomodados. O que faço, artisticamente, alcança zero de repercussão. Para minha sorte ou azar, não sei dizer bem, mas acho que é o que ainda me faz manter algum grão de sanidade.

 

11

O mundo se esfacela e a arte sorri.

Não poderia ter feito melhor escolha.

Ou: o mundo se esfacela e a arte é elegante — o que dá mais ou menos no mesmo resultado.

 

12

Num mundo plenamente evoluído, todas as pessoas seriam plenamente inteligentes, ou seja, haveria uma distribuição em escala de sarcasmo. Ou será que aí não faria mais sentido usá-lo como ferramenta de sobrevivência.

 

criações

ler não me deixou mais inteligente ou mais bem preparado para a vida. no entanto leio e a leitura me provoca grande quantidade de prazer. transfiro minha mente para essa dicção alheia que articulou a trama e percebo semelhanças e diferenças na conclusão da história, entre o que está escrito e o que eu mesmo poderia fazer se fosse eu o autor. surpreendo-me com as ideias discutidas, reviravoltas na trama, mas sobretudo penso nesse modo estranho com que as ideias do autor dialogam com as minhas, esse modo silencioso e breve, praticamente irreprodutível. a raiva explosiva dos romances de philip roth ou a longa ladainha (mas envolvente ainda assim) que surge das páginas de um josé saramago, as reflexões narrativas que são a base dos livros de enrique vila-matas ou mesmo o tom entre irônico e melancólico de um machado de assis apresentam para mim aspectos variados e interessantes a respeito de como enxergar e estar neste mundo, com os quais encontro afinidades ou discrepâncias. nos momentos em que os leio sinto-me em muito maior sintonia com esse ambiente onde eles articulam essas histórias — esse mundo eminentemente literário, constituído de palavras sobre papel — do que com o mundo concreto e real que tenho a volta de mim.

poderia escrever um livro a respeito de alguém que, de tanto gostar de ler, por preferir essa vida ficcional à real, um dia se transforma em personagem de ficção e passa a interagir com outros personagens de ficção, como se pudesse morar nos livros. essa interação se faz, a princípio, de modo que ninguém perceba. afinal, quem lê pela primeira vez um madame bovary ou um moby dick não sabe o que vai encontrar ou, se sabe, sabe apenas em linhas gerais, sem necessariamente conhecer os pormenores. por exemplo, o número e o nome de personagens secundários.

assim, esse personagem pode aparecer como secundário aqui e ali e não ser percebido durante muito tempo. até que um dia um especialista volte a fazer a leitura de um livro clássico (porque sim, esse meu personagem escolheu começar o passeio pelos clássicos) para um estudo que pretende realizar e se dê conta de que a história está diferente do que lembrava. há um personagem novo que não se recorda que existia antes.

adendo: este livro pode se chamar o leitor, ou paixão pelos livros, quem sabe realidade abdicada ou o homem de papel. o livro poderia ser uma espécie de retratos de fidelman, o romance em contos de bernard malamud, ou lembrar em alguns aspectos a sequência do sujeito que mora em pinturas clássicas no filme sonhos, de akira kurosawa. no mínimo, deve mencionar essas hipóteses, bem como as várias situações em filmes de woody allen em que essa interface entre mundo ficcional e real se estabelece.

adendo 2: isso que acabei de escrever aqui mistura ensaio com ficção e pode ser um novo gênero que acabo de criar, o ensaio narrativo.