Esperança é vício

Foto | Gordon Spooner
Foto | Gordon Spooner

 

 

Regular o futuro e as esperanças pelas estações. Regular o passado pelas memórias, recompostas ou fidedignas. Mas o que alguém pode saber do meu passado, por mais que eu insista em relatos circunstanciados? Havia uma vaca com dificuldades de parir, por exemplo, e meu avô chamou um veterinário e me deixou assistir à intervenção no curral a céu aberto: ele enfiou o braço dentro do traseiro da vaca e puxou de lá o bezerro, que estava com as patas para fora mas não nascia. Um deles, talvez os dois, vaca e bezerro, se salvaram e se tivesse que fazer uma aposta diria que foi o bezerro. O veterinário ficou com o braço encharcado e a autoconfiança de quem realizou bem o próprio trabalho. Mas de que adianta esse relato, a mim, aos outros, a quem seja? A vaca e o bezerro já morreram há muito, meu avô também, logo será minha vez. Eu conto, no entanto, na esperança (essa centelha do futuro que ainda insiste comigo no poder das expectativas) de que algum neto me leia (meu avô só deixou livros-caixa; não sei nada a respeito do que pensava) e me entenda, ou pelo menos saiba o que me inquietava, quando eu era vivo. Meu avô deixou terras, que se converteram em dinheiro também para mim. Meus netos terão minhas palavras, que valem pouco do ponto de vista prático, mas talvez lhes sirvam para alguma coisa. Tenho esperanças, elas me alimentam de futuro.

 

O longo desvio

Foto | Logan White
Foto | Logan White

 

 

Levantou os olhos do papel e havia alguma coisa de antiga naquele semblante, algo de outro tempo, sabedoria, cicatrizes acumuladas, sofrimento curtido. As narrativas que lhe saíam das anotações revezavam minúcias e amplidões, chapadas inteiras de pensamento, ponderações microscópicas, seres imaginários se misturando com eventos reais que a memória intencionalmente produzia e misturava. Bebeu café, olhou a rua pela janela com a xícara na mão porque imaginou que era isso que esses caras faziam, consideravam o peso de alguma história medindo-a contra o mundo lá fora, o mundo com barulhos, cores, confusão intensa. Algo daquilo borbulhava também nas tramas e enredos, algo do caótico, mas de alguma maneira precisava estar ali com aparência de organização, certas elegâncias, um ajuste, mesmo no desgarramento mais audacioso. Este é o homem cujo fermento é interno, cuja expressão de calma suave se contrapunha com furacões, assassinatos, reviravoltas e revoltas, alucinações, com todo o destempero do mundo. Ele estava prestes a criar a trama mais contundente e provocadora do romance contemporâneo, estava à beira de descortinar para os semelhantes a verdadeira intensidade e vibração e loucura da vida no papel. Mas antes de voltar a toda essa confusão e atividade, precisava terminar o café.

 

Manual de sobrevivência do homem solitário

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Foi acometido por sensação de abandono quando o ônibus se aproximou do aeroporto. Era sozinho no mundo, viajar aguçava um tipo especial de desesperança, era agravante daquela condição de desterro. Os parentes cuidavam das próprias vidas, os amigos tinham se afastado sem que fizesse qualquer movimento para impedi-los, a ex-mulher não falava com ele há séculos. Estava isolado no ambiente de trabalho e, ainda por cima, havia essa rotina de muitas viagens, aeroportos impessoais, a vocação das grandes cidades em que os atendentes te tratavam de modo cortês e impessoal. Sentia saudade de ser humano, de ter algum tipo de vínculo que lhe lembrasse dessa condição, queria encontrar alguém com cartaz de abraços gratuitos na mão, mas que significasse algo além de simples desempenho. Imaginou a voz sobreposta de um narrador de documentário científico a lhe descrever: este é um dos últimos espécimes do humano solitário, forçado ao isolamento emocional mesmo em meio a tantos bilhões de seres da mesma espécie com os quais poderia interagir, se soubesse como se faz, e sem noção precisa de como se acasalar novamente. Ele poderia, a depender do tempo de espera antes do embarque, iniciar a escrita de um tratado, Manual de sobrevivência do homem solitário. Numa loja de conveniência do aeroporto que tinha seção de livraria e papelaria comprou bloco pautado e caneta por preços abusivos. Sentou-se à mesa de um café, depois de pagar no caixa por um expresso e receber um número para deixar sobre a mesa até que uma atendente, cortês e impessoal, pudesse localizá-lo e trocar a xícara pelo número. Então começou a produzir anotações de um livro que poderia ser sucesso de vendas ou fracasso absoluto, ainda era cedo para dizer qual. Mas pelo menos, ao começar a escrita, sentiu um pouco de alívio, mesmo que soubesse que seria temporário, se pensasse bem.

 

Ruínas da literatura

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Ele escolheu ser escritor na época errada, quando a literatura enquanto novidade tinha se tornado obsoleta e as pessoas continuariam a ler apenas até perder completamente o impulso. Inércia, explicaria o físico, numa única palavra. Mesmo assim, ele acreditava que conseguia captar a grandeza do projeto, a literatura era como aqueles bustos de membros decepados que os gregos construíram por inteiro há milhares de anos e cujas ruínas eram admiradas hoje, sobretudo pelo poder de evocação que uma peça deteriorada pela ação do tempo provoca: o passado tem importância e um recado que merece ser ouvido. Mesmo assim, ele não iria desistir, simplesmente porque aquela atividade é que o ajudava a definir a pessoa que ele era no mundo, em ruína ou não.

 

Metido em línguas

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Scrivi i tuoi pensieri, dizia o anúncio de caneta numa revista italiana. O objeto nem era lá essas coisas, embora o preço fosse, mas o conselho, meramente publicitário, surtiu efeito em mim e decidi que sim, escreveria os meus pensamentos, mas com o meu velho método de usar grafite macio sobre papel de cor creme do meu bloquinho metido a besta — feito o dono, que se lança a ler em língua que não domina.

 

O mundo se agita

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Havia uma pilha de papéis na mesa a sua frente e ele olhou para ela como um conjunto. Papéis que faziam parte de sua vida, que solicitavam encaminhamento, resolução, uma atitude, dois dedos de concentração e algum desdobramento. O sol entrava por uma janela lateral e traçava uma faixa clara sobre o piso escuro, pequenos fiapos de algo — tecido, vegetal — flutuavam no ar. Primeiro Amy Winehouse recusou-se a ir para a clínica de reabilitação, depois Lana Del Rey foi implacável e precisa e estabeleceu que ela e eu nascemos para morrer. Os papéis aguardavam, memorandos da preguiça. Ocorreu-lhe um francês: il s’agit, que na tradução vira “trata-se”, mas que no original diz que algo precisa se agitar para acontecer. A vida é sucessão de ações e não-ações. Agir sem pensar, pensar muito antes de agir, fazer as coisas porque são necessárias ou porque algo deve ser feito, há um protocolo prévio de encaminhamentos e seu papel é dar vazão aos papéis, posicionar-se: emitir opiniões fortes, médias ou fracas e testar a temperatura das respostas, deixar o corpo fazer praticamente sozinho o trabalho de inspirar e expirar, ar que entra, ar que sai, uma formiga que passeia sobre a cordilheira nevada de papéis e que será poupada da morte por esmagamento. Ele puxou dois papéis do alto da pilha e começou a leitura do texto, o início de um romance que precisa aquela revisão, uma palavra diferente aqui, uma frase a mais ou a menos ali, um polimento, arrumação, o burilar da dança sincopada e cheia de cadência do raciocínio. O que se sabe sobre o mundo, o que se pode saber. Il s’agit. Um romance que será lido por três ou quatro amigos e depois esquecido para sempre, sem causar qualquer repercussão. Ninguém disse que seria fácil, cantarola em falsete Chris Martin, para consolá-lo. Il s’agit de se agitar, meu camarada. Aos papéis, ataque-os como se não houvesse amanhã, o que importa que os editores e leitores ignorem a sua existência e palavras? O motivo para escrevê-las, papel após papel, é outro, interno, obsessivo, conturbado. E isso basta. Ele se agitou, ergueu o lápis, depois o baixou sobre o papel. Nada de grandioso ou emocionante. Mas no papel a vida fervilhava, trepidante e provocativa, agitada. E ele viu que era bom.

 

Malabarista de palavras

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Não fazer nada é fazer. Burilar cada palavra da frase, buscar um refinamento, até enxergar o momento em que as faíscas escapam em direção ao vazio, seguidas por aquele som agudo e desagradável que indica: trabalho. A observação do tempo em toda a sua majestade é o poder e a glória do escritor, sua perdição ao mesmo tempo, o lento afundar na areia movediça e lodosa do nada estendido ao infinito. O bom escritor é o hábil malabarista a jogar para cima um conjunto de cinco, depois sete, onze palavras, a frase se estendendo gigantescamente a dizer o nada, mas fingindo que diz tudo, aquele sorriso de autoconfiança que não se abala sob qualquer circunstância. Os pinos giram, voltam a se encaixar novamente nas mãos do escritor-malabarista antes de serem de novo arremessados para cima com um giro veloz das mãos. Um escritor passa a madrugada bêbado de palavras. Elas são suas? Pertencem-lhe? Ele sabe que não, ele sabe que sim. As palavras existiam antes mesmo de ele nascer, mas a disposição delas, as aproximações inesperadas que é capaz de fazer, isso é dele, sua contribuição à causa abstrata da literatura, na tentativa meio sem sentido de mobilizar as pessoas para aquela sucessão específica de argumentos. Esse sujeito aqui brigou contra moinhos, este outro contra si mesmo e a própria dúvida, antes de partir no encalço do tio e destruí-lo, para vingar a morte do pai. Esses sujeitos ensinam outros tantos a viver, muito embora sejam apenas pinos, tenham sido lançados para cima num encadeamento específico de palavras para formar frases. O aplauso ecoa através do tempo, mesmo que o público saiba da impossibilidade de que alcance os ouvidos e o coração do escritor distante. Mas o malabarista sabe que o efeito de sua arte se propaga e não há pressa para alcançar a repercussão. O tempo dirá quem merece atenção pelo modo como lançou pinos para cima e entreteve o respeitável público. Arte é solidão, o aplauso apenas distrai do verdadeiro sentido oculto da coisa toda.

 

Futuro da literatura

fósforo

 

 

O palestrante convidado para falar a respeito de como a literatura pode se relacionar com novas mídias, um tema que começava a dar sinais de exaustão mas prosseguia sendo agendado para todos os encontros, feiras, congressos, bienais, enfim, sempre que escritores eram chamados para propagandear ideias e textos para públicos cativos ou potenciais. A certa altura da exposição, o palestrante sugeriu que se escrevesse um texto na tampa de uma caixa de fósforos. Pensei em duas coisas. A primeira era que para alguém convidado a falar a respeito de novas tecnologias, a metáfora da caixa de fósforos parecia algo deslocada. A outra foi que não seria má ideia, no fim das contas. Usa-se a tampa da caixa de fósforos, escreve-se sobre o papel com as informações sobre marca, fabricação etc., depois acende-se um deles e coloca-se fogo da caixa, impedindo a posteridade de ler o tamanho da bobagem que custou afinal tão pouco espaço para ser perpetrada.

 

quantos olhos

foto | frank kanters
foto | frank kanters

 

 

tenho dois pares de olhos. dois olhos que uso para ler, dois para escrever. o problema é quando uso os olhos para ler na hora de escrever. o problema também se dá quando uso os olhos de escrever para ler. os olhos para escrever são um tanto míopes, os de leitura alcançam lá na frente. depois que escrevo, tento usar os olhos de leitura para enxergar os erros, que se multiplicam e me revelam toda a miopia. deveria procurar um oculista que me ajustasse os quatro olhos ou quem sabe um cirurgião que me removesse dois.

 

clodoaldo

mergulho

 

 

renunciar a escrever, ele anunciou. zero de impacto. quer dizer, dona dolores, a mulher que usava bobes — bobes! — no cabelo e lhe servia um prato mais ou menos morno no jantar, ela resmungou algo. mas deve ter sido: quer o jantar agora ou mais tarde? e não: oh, que pena, não faça isso. clodoaldo, o dono da renúncia, mora num país encalacrado na cabeça, bem diferente daquele em que divide a cama a velhice as dores as dívidas com dolores e o banheiro com os bobes. o paraíso é a raspadinha que dá prêmio instantâneo. inferno é prestação.