Punição para o virtuoso

 

 

Num livro de Margaret Atwood que comecei a ler para fazer o projeto Escritores escrevem, há uma anotação interessante a respeito dos motivos dos escritores para escrever. O livro dela se chama On Writers and Writing, algo como Sobre escritores e escrita.* Na introdução, ela menciona os motivos que foi recolhendo entre escritores de várias épocas, em resposta a uma das três questões que julga que são fundamentais de se constar numa investigação dessa natureza: Para quem você escreve? Por que você escreve? De onde vem?

A compilação que ela faz se concentra apenas num aspecto, o do motivo. O mais divertido da longa lista que ela faz me parece ser o que considera a ironia de um marquês de Sade. Ela lista um motivo de alguém: Para recompensar o virtuoso e punir o culpado, antes de fazer o que chama de defesa Marquês de Sade, usada pelos irônicos, que é inverter a ordem.

Um bom motivo para escrever, de acordo com a ironia de Atwood: recompensar o culpado e punir o virtuoso.

Mas ao fim do prefácio, quando a coisa se torna mais séria, ela fala das muitas metáforas usadas pelos escritores para mencionar o ato de entrar vendado num labirinto, ou com uma lanterna num quarto escuro (essa é a explicação de Virginia Woolf: iluminar o que já existe lá dentro, veja bem).

Atwood menciona uma lembrança de ter ouvido um estudante de medicina lhe dizer há quarenta anos que é escuro dentro do corpo humano. Em seguida, ela escreve o seguinte: “Possivelmente, então, escrever tem a ver com escuridão, e um desejo ou talvez uma compulsão de penetrá-la, e, com sorte, iluminá-la, e trazer algo de volta para a luz”.

Uma boa metáfora para a literatura é vê-la como cavalo. Você o vê ao longe, na fotografia, ou projetado num filme.

Para alguns, o cavalo está próximo.

A literatura é um cavalo selvagem a correr desembestado por um campo aberto. Vê-lo ao longe pode ser bonito e ter exuberância, mas a verdade é que ele está desembestado. Você pode se concentrar no movimento, nas cores, imaginar como seria cavalgar esse cavalo.

James Joyce é o sujeito que está montado, segura a crina e se equilibra no dorso. Ele também não sabe o que é ser cavalo — mas está bem mais perto do que a maioria de nós.

 

* Há uma edição no Brasil, pela Rocco, com o título Negociando com os mortos

 

— Paulo Paniago

Dar motivos para escrever

 

Entender por que os escritores escrevem é uma tarefa difícil, talvez impossível de ser realizada. Mas ela continua a ser tentada, de maneira incessante. Sobretudo por, obviamente, escritores. Eles escrevem, por que não escrever a respeito dos próprios processos e dos que são usados pelos colegas? Eles escrevem a respeito de si mesmos e dos demais.

Talvez agora, quando os escritores parecem o mais próximo da extinção, a tarefa se torne ainda mais urgente e necessária, ou pelo menos mais exigente. Eu mesmo, embora não seja escritor nem nada, pensei em escrever a respeito do assunto e comecei a tomar notas para um livro a que chamei, pelo menos em termos de título de trabalho, Escritores escrevem. Ele seria um dos títulos de uma série de não ficção a que chamei Infinitos Literários.

Cada título deve abordar um tema específico da literatura com um viés muito próprio que vou tentar imprimir. Escrevi apenas o primeiro dos títulos até o fim, Literatura é invenção. A respeito do poder inventivo, criativo, que deve ser uma das linhas de força da literatura. Os demais ficaram pelo caminho, em forma de anotações, inclusive o livro a respeito dos motivos pelos quais os escritores escrevem.

O que me faz falta para levar a bom termo um projeto como esse é a falta de capacidade para produzir sistematização cuidadosa. Nesse momento da minha vida, estou bem mais interessado em me dedicar à ficção do que a textos de não ficção, embora seja justamente nessa categoria que entraria este texto aqui que produzo de maneira lenta e gradual e que ainda deve me tomar muitos anos pela frente, se é que não vou abandonar a ideia antes disso.

 

— Paulo Paniago 

Esperança é vício

Foto | Gordon Spooner
Foto | Gordon Spooner

 

 

Regular o futuro e as esperanças pelas estações. Regular o passado pelas memórias, recompostas ou fidedignas. Mas o que alguém pode saber do meu passado, por mais que eu insista em relatos circunstanciados? Havia uma vaca com dificuldades de parir, por exemplo, e meu avô chamou um veterinário e me deixou assistir à intervenção no curral a céu aberto: ele enfiou o braço dentro do traseiro da vaca e puxou de lá o bezerro, que estava com as patas para fora mas não nascia. Um deles, talvez os dois, vaca e bezerro, se salvaram e se tivesse que fazer uma aposta diria que foi o bezerro. O veterinário ficou com o braço encharcado e a autoconfiança de quem realizou bem o próprio trabalho. Mas de que adianta esse relato, a mim, aos outros, a quem seja? A vaca e o bezerro já morreram há muito, meu avô também, logo será minha vez. Eu conto, no entanto, na esperança (essa centelha do futuro que ainda insiste comigo no poder das expectativas) de que algum neto me leia (meu avô só deixou livros-caixa; não sei nada a respeito do que pensava) e me entenda, ou pelo menos saiba o que me inquietava, quando eu era vivo. Meu avô deixou terras, que se converteram em dinheiro também para mim. Meus netos terão minhas palavras, que valem pouco do ponto de vista prático, mas talvez lhes sirvam para alguma coisa. Tenho esperanças, elas me alimentam de futuro.

 

O longo desvio

Foto | Logan White
Foto | Logan White

 

 

Levantou os olhos do papel e havia alguma coisa de antiga naquele semblante, algo de outro tempo, sabedoria, cicatrizes acumuladas, sofrimento curtido. As narrativas que lhe saíam das anotações revezavam minúcias e amplidões, chapadas inteiras de pensamento, ponderações microscópicas, seres imaginários se misturando com eventos reais que a memória intencionalmente produzia e misturava. Bebeu café, olhou a rua pela janela com a xícara na mão porque imaginou que era isso que esses caras faziam, consideravam o peso de alguma história medindo-a contra o mundo lá fora, o mundo com barulhos, cores, confusão intensa. Algo daquilo borbulhava também nas tramas e enredos, algo do caótico, mas de alguma maneira precisava estar ali com aparência de organização, certas elegâncias, um ajuste, mesmo no desgarramento mais audacioso. Este é o homem cujo fermento é interno, cuja expressão de calma suave se contrapunha com furacões, assassinatos, reviravoltas e revoltas, alucinações, com todo o destempero do mundo. Ele estava prestes a criar a trama mais contundente e provocadora do romance contemporâneo, estava à beira de descortinar para os semelhantes a verdadeira intensidade e vibração e loucura da vida no papel. Mas antes de voltar a toda essa confusão e atividade, precisava terminar o café.

 

Manual de sobrevivência do homem solitário

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Foi acometido por sensação de abandono quando o ônibus se aproximou do aeroporto. Era sozinho no mundo, viajar aguçava um tipo especial de desesperança, era agravante daquela condição de desterro. Os parentes cuidavam das próprias vidas, os amigos tinham se afastado sem que fizesse qualquer movimento para impedi-los, a ex-mulher não falava com ele há séculos. Estava isolado no ambiente de trabalho e, ainda por cima, havia essa rotina de muitas viagens, aeroportos impessoais, a vocação das grandes cidades em que os atendentes te tratavam de modo cortês e impessoal. Sentia saudade de ser humano, de ter algum tipo de vínculo que lhe lembrasse dessa condição, queria encontrar alguém com cartaz de abraços gratuitos na mão, mas que significasse algo além de simples desempenho. Imaginou a voz sobreposta de um narrador de documentário científico a lhe descrever: este é um dos últimos espécimes do humano solitário, forçado ao isolamento emocional mesmo em meio a tantos bilhões de seres da mesma espécie com os quais poderia interagir, se soubesse como se faz, e sem noção precisa de como se acasalar novamente. Ele poderia, a depender do tempo de espera antes do embarque, iniciar a escrita de um tratado, Manual de sobrevivência do homem solitário. Numa loja de conveniência do aeroporto que tinha seção de livraria e papelaria comprou bloco pautado e caneta por preços abusivos. Sentou-se à mesa de um café, depois de pagar no caixa por um expresso e receber um número para deixar sobre a mesa até que uma atendente, cortês e impessoal, pudesse localizá-lo e trocar a xícara pelo número. Então começou a produzir anotações de um livro que poderia ser sucesso de vendas ou fracasso absoluto, ainda era cedo para dizer qual. Mas pelo menos, ao começar a escrita, sentiu um pouco de alívio, mesmo que soubesse que seria temporário, se pensasse bem.

 

Ruínas da literatura

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Ele escolheu ser escritor na época errada, quando a literatura enquanto novidade tinha se tornado obsoleta e as pessoas continuariam a ler apenas até perder completamente o impulso. Inércia, explicaria o físico, numa única palavra. Mesmo assim, ele acreditava que conseguia captar a grandeza do projeto, a literatura era como aqueles bustos de membros decepados que os gregos construíram por inteiro há milhares de anos e cujas ruínas eram admiradas hoje, sobretudo pelo poder de evocação que uma peça deteriorada pela ação do tempo provoca: o passado tem importância e um recado que merece ser ouvido. Mesmo assim, ele não iria desistir, simplesmente porque aquela atividade é que o ajudava a definir a pessoa que ele era no mundo, em ruína ou não.