Ponderações à toa

Imagem | Yang Cao
Imagem | Yang Cao

 

 

1

Quer dizer que você é candidato a ser a pessoa mais infeliz do mundo? Pegue a senha e aguarde ser chamado, por favor.

 

2

Escritor é o sujeito que apresenta alternativa para a miséria do mundo. Ou seja, ficção é um tipo de anestesia existencial.

 

3

Ser infeliz é fácil e o mundo te propicia todas as oportunidades para isso. Ser feliz é uma arte, mas sem alguém que a domine. Felicidade é utopia, a cenoura que empurra para a frente.

 

Alguns pormenores literários

Imagem | Sunga Park
Imagem | Sunga Park

 

 

Para escrever é preciso sobretudo caráter, e o que tenho sobrando é personalidade, às vezes nem isso. Para um escritor, personalidade é um truque funcional que ajuda a distrair a plateia durante um truque ou dois, mas o que o público realmente quer é encontrar a manifestação do caráter com o qual possa se identificar, seja porque é um ponto a ser almejado, no sentido de melhorar a vida, seja porque já se é detentor de caráter numa dose razoável e causa prazer vê-lo manifesto sobre o palco da arte. A personalidade é como o bobo da corte, diverte e mostra o quão interessante é ter diversidade de visão para que se possa questionar o como e porquê algumas decisões são tomadas, mas no fim do dia quem responde pelo bom ou mal estar da nação é o rei, não o bobo. Do rei se pede caráter, do bobo basta a personalidade.

 

Falhas incorrigíveis

Foto | Sayaka Minemura
Foto | Sayaka Minemura

 

 

Cheia de imperfeições, a vida é manca. Com a literatura não é diferente. Os escritores tentam dar o melhor de si, muito esforço e tutano à procura do ritmo perfeito, da palavra exata, da fluência bem dosada, mas a falha, a imperfeição está sempre no encalço. Há quem se angustie com isso, caso de Fausto, que tem insônias com o assunto, dobrado sobre o papel, na tentativa de destilar ideias da cachola, como se houvesse nesse ato insensato algum sentido a se obter. Mas da vida, é preciso que se diga, vem também o aprendizado do convívio com a imperfeição, de onde se retira o tempero da beleza. Sabe, a simetria é enfadonha. Claudia, a vizinha, plena consciência do fato, cantarola despreocupações vida afora, sozinha ou em dueto com o rádio, enquanto dedica as curvas à felicidade e aos temperos da comida que prepara com o mesmo gosto que põe em todas as áreas que a satisfazem, sobretudo essas que te ocorreram quando você leu a frase. Voraz e animada, voluptuosa, Claudia sabe que é de barulhos que o mundo se lembra, então faz questão de ampliar os próprios para ser lembrada. Fausto e Claudia atropelam suas intempéries no elevador, avaliam personalidades nesse espaço social de confinamento temporário e cheio de sugestões ao constrangimento. Mas não para Claudia, que sorri para Fausto como se sorrisse para o amante. Ele se desconserta, tímido e cauteloso, ela não liga, a vida não espera, é manca, mas Claudia não é e não perde tempo com hesitações ou com quem se perde nelas. Ao sair, tem pressa porque é feliz, joga um tchau melodioso e sugestivo e se ele tivesse erguido a cabeça teria visto que ela chegou mesmo a lançar uma piscadela provocadora. Fausto rumina, antecipa os momentos em que tentará captar, inútil e repetidamente sobre papel (suas amarras), a vida que escapa pelo elevador, a passos largos porta afora, para viver com intensidade, antes que tudo se evapore porque esse é o destino inexorável.

 

legado de pedra

foto | al sattherwhite
foto | al sattherwhite

 

 

morto e canonizado, cada vez mais gente anda a escrever a respeito do escritor, que era bom em vida, mas parece melhor agora. criam-lhe um dia de homenagens com leituras de trechos da obra e estudos, o personagem daquela que é considerada a obra-prima vira adjetivo (que maior homenagem? essa entrada certeira na vida pedestre), nomeiam um time de futebol com um animal que é claramente retirado de sua obra. ele estaria contente com tanta repercussão e mesmo com as leituras estranhas — ele não diria equivocadas — que fazem dos romances, contos, artigos de jornal, polêmicas. o conjunto de pedra que é o legado da obra cristaliza-se e se sedimenta, o que também é inquietante, como apontam alguns sagazes. a maleabilidade deveria ser o valor, não a fixidez. a chama, não exatamente o cristal, ou pelo menos os dois, como defendia italo calvino. pranteado na terra, à qual não mais pertence, o escritor é esquecido pelos anjos que o cercam, estigmatizado. será preciso fazer o romance desse novo ambiente — o romance que sempre foi um acerto de contas com a falta de lugar no mundo. escritores não podem ter descanso eterno, nem pensar.

 

perplexidade

lápis

 

 

ele escrevia com elegância, as frases trabalhadas para manter ritmo agradável à leitura, as passagens entre as frases e os parágrafos medidas com precisão e às vezes certo charme do descompasso, como se o grão de improviso fosse o tempero que faltava e veio. escrevia para esclarecer a si e a quem mais se interessasse que a perplexidade com o mundo não cessa de provocar espanto e o espanto é o verdadeiro alimento da literatura.

 

durante as perguntas

olho

 

 

por que você se interessa tanto pelo abismo a ponto de escrever várias histórias em que abismos são mencionados e um livro que tem a palavra no título, perguntou a moça para o escritor, quando abriram para que a plateia se manifestasse. o escritor a olhava, sério, e assim permaneceu enquanto formulou a resposta, que se derramou sobre vários outros pontos (escritores adoram estender comentários), mas essencialmente o importante na resposta foi o seguinte: o abismo está em tudo a nossa volta, portanto não faz sentido ignorá-lo, fingir que ele não está aí, tentando a todos com suas promessas de vertigens.

 

conselhos de escritor

foto | beth kirby
foto | beth kirby

 

 

ao escritor sempre perguntavam que conselhos aos jovens e que leituras deveriam fazer para chegar ao ponto que ele havia atingido. mas a sugestão dele não seguia manuais. “bebam café”, ele dizia, “o mais importante é beber café. bebam como se ingerissem a tinta que depois destilarão nas histórias.” alguém desconfiava que havia algum componente de troça naquela orientação, mas o recado verdadeiro não era difícil de entender: qualquer conselho é tão inútil quanto qualquer outro e portanto a irreverência é o único caminho no fim das contas. irreverência e café.