Psicanálise da rejeição

Arte | Kent Williams
Arte | Kent Williams

 

 

Escritores escrevem e sofrem recusas, várias, sucessivas vezes. Acumulam nãos, cartas negativas, como se fossem o avesso de prêmios que supõem merecer. Depois, no futuro, concedem entrevistas nas quais explicam o que julgam terem sido os motivos para tanta rejeição e, velada, discretamente, agradecem o fato de terem sido enfim reconhecidos em talento. Agora são parte do outro time, vitorioso, as cartas de recusa podem fazer parte do anedotário pessoal relegado ao passado. O estigma foi vencido. Mas não há quem estude e compreenda o efeito dessas tantas recusas na vida emocional dessas criaturas que vêm de fábrica já emocionalmente perturbadas, para início de conversa, a ponto de terem escolhido como atividade justamente escrever. Em alguma oportunidade, poderão talvez escrever uma carta de recusa a um editor e nesse dia começa a vingança.

 

Consolações da literatura

entre-lençóis

 

 

Algumas feridas se curam, criam casca, depois as células fazem o trabalho de reposição e a pele fica como nova, num ou noutro caso resta uma cicatriz, a escrita do acidente sobre o corpo, um memorando para o futuro. Mas há certas feridas internas cujo sangramento não estanca, uma hemofilia de sentimentos insalubres. Nesses casos, as pessoas viram escritores. Como automedicação, fumam, bebem, se drogam e alguns colocam a cabeça no forno ou apertam o gatilho. Para os mau-sucedidos há um conforto: fazem sucesso e recebem prêmios, convites para palestras e mesas-redondas, têm leitores que os adoram, enfrentam fila na noite de autógrafos e tudo isso se parece também com um prêmio de consolação, porque a literatura de verdade está em outro lugar.

 

Malabarista de palavras

disco

 

 

Não fazer nada é fazer. Burilar cada palavra da frase, buscar um refinamento, até enxergar o momento em que as faíscas escapam em direção ao vazio, seguidas por aquele som agudo e desagradável que indica: trabalho. A observação do tempo em toda a sua majestade é o poder e a glória do escritor, sua perdição ao mesmo tempo, o lento afundar na areia movediça e lodosa do nada estendido ao infinito. O bom escritor é o hábil malabarista a jogar para cima um conjunto de cinco, depois sete, onze palavras, a frase se estendendo gigantescamente a dizer o nada, mas fingindo que diz tudo, aquele sorriso de autoconfiança que não se abala sob qualquer circunstância. Os pinos giram, voltam a se encaixar novamente nas mãos do escritor-malabarista antes de serem de novo arremessados para cima com um giro veloz das mãos. Um escritor passa a madrugada bêbado de palavras. Elas são suas? Pertencem-lhe? Ele sabe que não, ele sabe que sim. As palavras existiam antes mesmo de ele nascer, mas a disposição delas, as aproximações inesperadas que é capaz de fazer, isso é dele, sua contribuição à causa abstrata da literatura, na tentativa meio sem sentido de mobilizar as pessoas para aquela sucessão específica de argumentos. Esse sujeito aqui brigou contra moinhos, este outro contra si mesmo e a própria dúvida, antes de partir no encalço do tio e destruí-lo, para vingar a morte do pai. Esses sujeitos ensinam outros tantos a viver, muito embora sejam apenas pinos, tenham sido lançados para cima num encadeamento específico de palavras para formar frases. O aplauso ecoa através do tempo, mesmo que o público saiba da impossibilidade de que alcance os ouvidos e o coração do escritor distante. Mas o malabarista sabe que o efeito de sua arte se propaga e não há pressa para alcançar a repercussão. O tempo dirá quem merece atenção pelo modo como lançou pinos para cima e entreteve o respeitável público. Arte é solidão, o aplauso apenas distrai do verdadeiro sentido oculto da coisa toda.

 

Como vão os escritores

guarda-chuva-vermelho

 

 

1

Os escritores sempre se dão bem. Escrevem sobre crises, problemas, confusões e tudo isso é o que também os leitores têm em suas vidas e portanto procuram nos livros conforto ou solução ou, na hipótese mais modesta, pelo menos compreender que não estão sozinhos com os próprios dramas, mapeados de forma tão competente no texto.

 

2

Os escritores sempre se dão mal. Expõem em público as inquietações, problemas existenciais, as confusões em que se metem e o modo estranho e peculiar com que enxergam o mundo e depois, quando os leitores os ignoram ou buscam os concorrentes mais habilidosos, embriagam-se e se queixam aos amigos que ninguém nesse planeta perdido entre galáxias é capaz de compreendê-los.

 

auto meta para e as ficções

foto | alejandro guijarro
foto | alejandro guijarro

 

 

buscavam um escritor que fizesse autoficção e metaficção e, sobretudo, que não soubesse muito bem explicar os motivos pelos quais fazia o que fazia. queremos um escritor capaz de ser simultaneamente safo e ingênuo, explicaram aos dois ou três candidatos que se apresentaram. os três franziram a sobrancelha ao mesmo tempo quando ouviram a explicação, porque ela parecia completamente estapafúrdia, embora não tenham usado essa palavra. ou não tinham entendido direito? safo e ingênuo, insistiu o sujeito. aquilo mesmo, tinham escutado direito. um dos candidatos imediatamente se declarou desclassificado e abandonou a competição, não se sabe se por excesso de honestidade ou por ter compreendido bastante bem a barafunda que aquilo parecia ser. os outros dois, porque a vida não andava fácil para ninguém, permaneceram, porque havia certa quantia de dinheiro envolvida, em forma de bolsa literária, além da promessa meio vaga de promoção da pessoa e da obra, que afinal foi o primeiro estimulante para todos, ou pelo menos é como gostam de lembrar o episódio. os dois que restaram tinham metade das qualidades exigidas, infelizmente metades distintas. um era safo, o outro ingênuo e não parecia aos distintos senhores que colocar os escritores para trabalharem juntos fosse alternativa razoável, embora talvez, alguém aventou, pudesse ser uma solução. foi então e só então que se deram conta: o escritor que havia se retirado de cena primeiro, o que se abstivera alegando desculpas, ele era perfeito para a posição. dispensaram a dupla e foram atrás do escritor, que os recebeu com um sorriso amável, porque antecipou que era o que aconteceria. de quebra, ele tinha outra virtude não prevista, além de escrever autoficção e metaficção: também escrevia paraficção.

 

vantagens

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não dá para competir de igual para igual com esses caras que nasceram na europa, ele me disse. eles têm milhares de guerras no currículo, sem contar a segunda mundial, com sua sombra de terror elevada ao extremo, a primeira vez na história que a industrialização foi posta a serviço da matança de maneira explícita, sem qualquer disfarce. quando esses caras decidem fazer literatura, pode apostar que o tema vai ter outra pegada, não dá para evitar. eu assenti. mas não são só guerras que geram literatura, rebati. é também e sobretudo a vida. queria lhe dar um contraponto, um motivo para continuar, e estava pensando por exemplo no quixote. ele disse, mas a vida crivada de drama é sempre muito mais interessante.

 

para onde vai

tubarão-e-mergulhador

 

 

ele sentia que a história é uma espécie de capotagem —- você é responsável por ela na qualidade de condutor do veículo, alguém que está no controle do volante e do acelerador, mas a partir de determinado ponto deixa de ser responsável, quando a máquina adquire autonomia e começa a seguir leis da física, e passa a ser vítima.

 

coragem é um cavalo desembestado

cavalo

 

 

para ele, escrever era ganhar e perder uma vocação —- e reaprendê-la toda vez que ia começar um novo livro. quando terminava, meses ou anos depois, geralmente adoecia, tal tinha sido o empenho para concluir o texto. era sua vida que suava, transbordava e sobretudo reinventava quando passava tanto tempo escrevendo e reescrevendo alguma história. a última tinha sido a respeito de um cavalo que precisou transportar com o avô, quando era criança e tinha doze anos, da fazenda até o local determinado pelo veterinário, onde seria sacrificado. o avô reconhecia a necessidade do ato —- o cavalo tinha uma doença incurável e dolorida —- mas também sua incapacidade pessoal de praticá-lo. “você recebeu tantos anos de sacrifício deste cavalo, vovô”, ele fez o jovem personagem dizer, “que seria agora justo que o senhor também se sacrificasse um pouco para ter a coragem de matar o cavalo”. o avô olhou para ele com um jeito que não conseguiu traduzir. podia estar sério ou triste —- não apenas pelo cavalo e pela própria incapacidade de sacrificá-lo, mas sobretudo por escutar seu neto lhe apontando aquela falha de caráter. os abismos de comunicação entre gerações encontravam novas formas de se manifestar entre aqueles dois. não pretendia voltar a escrever tão cedo —- talvez não voltasse nunca.

 

perguntaram ao escritor onde ele arruma ideias

ilustração | oliver jeffers
ilustração | oliver jeffers

 

 

no supermercado, foi a primeira resposta. seguida de um sorriso maroto. estavam em promoção, ele insistiu, como se fossem um produto  que pode ser vendido a preços mais baixos do que os inicialmente oferecidos (o que significa que alguém está sempre lucrando mais do que precisa quando o preço está “normal”). às vezes eu as arrumo quando estou saindo do supermercado e vejo aquela mulher revirando a lata do lixo à procura de alimento, a mesma que você olha mas não enxerga? essa. ali estão as boas sugestões para escrever. ou para escrever a respeito de qualquer outra coisa. também arrumo argumentos quando jogo basquete, quando tusso e espirro e sobretudo nos momentos em que observo a grama crescer com todo o cuidado necessário. agora uma coisa é certa —- e nessa hora ele ficou sério —-, nunca arrumei ideias enquanto respondo a indagações cretinas que me fazem. é como se perguntas imbecis espantassem os pensamentos num raio de cinquenta quilômetros em volta. quando não tinha jeito, ser mordaz era estratégia importante para manter a boa forma. se o escritor treinasse boxe, seria o momento para convidar o oponente para uma sessão na qual o jornalista seria moído de pancadas e aprenderia a nunca mais fazer interrogação desse tipo para qualquer pessoa. todo escritor que foi submetido a essa questão devia fazer matrícula numa academia de boxe na mesma hora. uma norma que as associações de escritores nunca cogitaram em implementar, mas pensando bem não seria má ideia.

 

perguntaram ao escritor por que ele escreve

ilustração | oliver jeffers
ilustração | oliver jeffers

 

 

escrevo para matar a sede da mente, ele disse. como quem bebe água. para diminuir a dívida que tenho com o mundo, esse cobrador desleixado e leviano. escrevo para pacificar os demônios internos, caso contrário eles tomam conta e é o inferno. também porque não sei fazer direito outra coisa, talvez uma xícara de café. ou até sei, mas essa coisa, escrever, parece que faço melhor e por esse motivo me parece a escolha natural, a mais lógica e também a apropriada, embora eu diga isso e sinta instantaneamente um ódio pela palavra apropriada e por mim mesmo, por tê-la dito. escrevo para mostrar que estou em desavença com o mundo, afinal não se apreciam os escritores a não ser daquele jeito superficial e supérfluo, dizendo que eles são sujeitos inofensivos que adoram noites de autógrafos, mesas de discussão literária e inútil a não ser para madames entediadas passarem o tempo entre uma nova aquisição e outra (hoje comprei um escritor, disse uma; qual livro?, quis saber a amiga; não, não o livro, adquiri o autor para mim, vou levar para casa e enfeitar a mesa do jantar com conversas inteligentes para variar) e concessão interminável de entrevistas para jornais e revistas em que invariavelmente terão de formular resposta à pergunta a respeito dos motivos pelos quais escrevem. num mundo que pergunta a um escritor os motivos pelos quais ele escreve alguma coisa está muito errada e sinto vontade de pedir ao condutor que interrompa o movimento para que eu possa descer. escrevo porque não sei operar costumava ser uma de minhas respostas. depois mudei para outra pergunta: e você, por que respira? e por um tempo usei a variação: você pergunta a um filósofo por que ele decidiu pensar? isso seria uma pergunta rude, não seria? do mesmo modo e extensivamente, uma pessoa inteligente perceberia aonde eu estava pretendendo chegar. a resposta, meu caro, a única resposta para sempre e para evitar a redundância insuportável da pergunta, é: não tenho alternativa. falando nisso, você aceita um café?

 

díptico (parte 2)

imagem | michal mozolewski
imagem | michal mozolewski

 

 

havia um escritor e diante dele uma história iniciada, da qual ele não fazia parte, nem como personagem, nem como narrador. apenas a mão agia, na continuidade do cérebro, deslizando a caneta sobre papel, um bloquinho pautado cinza. a história, parece, envolve um cão vadio e a indecidibilidade de continuar. ele apoia o cotovelo na mesa, a cabeça na mão, dá um suspiro e parece sem vontade de suspirar, um suspiro cansado, boçal. a história não avançará sozinha, é notório. precisa da mão, das façanhas do cérebro, esse melindroso. ora a mão desliza a toda, ora hesita, a caneta parada no ar seco da tarde, como se fungasse em redor para dali extrair a essência. não sei para aonde esta história vai, o escritor redige, a caneta aflita a desenhar palavras ditadas pelo cérebro. e pouco tempo depois, começa outra, em que registra: havia um escritor e diante dele uma história iniciada. os ciclos e espirais de giambattista vico, ele pensa e talvez, no fim da outra história, registre por escrito. então se pergunta para aonde vão as ideias não aproveitadas nas narrativas, mas não sabe a resposta.

 

vida e morte

arte | judith eisler
arte | judith eisler

 

 

incapazes de definir o que é vida — tarefa espinhosa para a qual as tentativas são tão numerosas quanto os fracassos — os escritores concentraram-se em definir o que é morte — e a verdade é que o número de fracassos não foi menor, mas pelo menos havia charme e beleza naquelas palavras, que afinal serviam de consolo para muitos leitores mundo afora, tão condenados à vida quanto a morrer, quando chegasse a hora.