Dar motivos para escrever

 

Entender por que os escritores escrevem é uma tarefa difícil, talvez impossível de ser realizada. Mas ela continua a ser tentada, de maneira incessante. Sobretudo por, obviamente, escritores. Eles escrevem, por que não escrever a respeito dos próprios processos e dos que são usados pelos colegas? Eles escrevem a respeito de si mesmos e dos demais.

Talvez agora, quando os escritores parecem o mais próximo da extinção, a tarefa se torne ainda mais urgente e necessária, ou pelo menos mais exigente. Eu mesmo, embora não seja escritor nem nada, pensei em escrever a respeito do assunto e comecei a tomar notas para um livro a que chamei, pelo menos em termos de título de trabalho, Escritores escrevem. Ele seria um dos títulos de uma série de não ficção a que chamei Infinitos Literários.

Cada título deve abordar um tema específico da literatura com um viés muito próprio que vou tentar imprimir. Escrevi apenas o primeiro dos títulos até o fim, Literatura é invenção. A respeito do poder inventivo, criativo, que deve ser uma das linhas de força da literatura. Os demais ficaram pelo caminho, em forma de anotações, inclusive o livro a respeito dos motivos pelos quais os escritores escrevem.

O que me faz falta para levar a bom termo um projeto como esse é a falta de capacidade para produzir sistematização cuidadosa. Nesse momento da minha vida, estou bem mais interessado em me dedicar à ficção do que a textos de não ficção, embora seja justamente nessa categoria que entraria este texto aqui que produzo de maneira lenta e gradual e que ainda deve me tomar muitos anos pela frente, se é que não vou abandonar a ideia antes disso.

 

— Paulo Paniago 

Psicanálise da rejeição

Arte | Kent Williams
Arte | Kent Williams

 

 

Escritores escrevem e sofrem recusas, várias, sucessivas vezes. Acumulam nãos, cartas negativas, como se fossem o avesso de prêmios que supõem merecer. Depois, no futuro, concedem entrevistas nas quais explicam o que julgam terem sido os motivos para tanta rejeição e, velada, discretamente, agradecem o fato de terem sido enfim reconhecidos em talento. Agora são parte do outro time, vitorioso, as cartas de recusa podem fazer parte do anedotário pessoal relegado ao passado. O estigma foi vencido. Mas não há quem estude e compreenda o efeito dessas tantas recusas na vida emocional dessas criaturas que vêm de fábrica já emocionalmente perturbadas, para início de conversa, a ponto de terem escolhido como atividade justamente escrever. Em alguma oportunidade, poderão talvez escrever uma carta de recusa a um editor e nesse dia começa a vingança.

 

Consolações da literatura

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Algumas feridas se curam, criam casca, depois as células fazem o trabalho de reposição e a pele fica como nova, num ou noutro caso resta uma cicatriz, a escrita do acidente sobre o corpo, um memorando para o futuro. Mas há certas feridas internas cujo sangramento não estanca, uma hemofilia de sentimentos insalubres. Nesses casos, as pessoas viram escritores. Como automedicação, fumam, bebem, se drogam e alguns colocam a cabeça no forno ou apertam o gatilho. Para os mau-sucedidos há um conforto: fazem sucesso e recebem prêmios, convites para palestras e mesas-redondas, têm leitores que os adoram, enfrentam fila na noite de autógrafos e tudo isso se parece também com um prêmio de consolação, porque a literatura de verdade está em outro lugar.

 

Malabarista de palavras

disco

 

 

Não fazer nada é fazer. Burilar cada palavra da frase, buscar um refinamento, até enxergar o momento em que as faíscas escapam em direção ao vazio, seguidas por aquele som agudo e desagradável que indica: trabalho. A observação do tempo em toda a sua majestade é o poder e a glória do escritor, sua perdição ao mesmo tempo, o lento afundar na areia movediça e lodosa do nada estendido ao infinito. O bom escritor é o hábil malabarista a jogar para cima um conjunto de cinco, depois sete, onze palavras, a frase se estendendo gigantescamente a dizer o nada, mas fingindo que diz tudo, aquele sorriso de autoconfiança que não se abala sob qualquer circunstância. Os pinos giram, voltam a se encaixar novamente nas mãos do escritor-malabarista antes de serem de novo arremessados para cima com um giro veloz das mãos. Um escritor passa a madrugada bêbado de palavras. Elas são suas? Pertencem-lhe? Ele sabe que não, ele sabe que sim. As palavras existiam antes mesmo de ele nascer, mas a disposição delas, as aproximações inesperadas que é capaz de fazer, isso é dele, sua contribuição à causa abstrata da literatura, na tentativa meio sem sentido de mobilizar as pessoas para aquela sucessão específica de argumentos. Esse sujeito aqui brigou contra moinhos, este outro contra si mesmo e a própria dúvida, antes de partir no encalço do tio e destruí-lo, para vingar a morte do pai. Esses sujeitos ensinam outros tantos a viver, muito embora sejam apenas pinos, tenham sido lançados para cima num encadeamento específico de palavras para formar frases. O aplauso ecoa através do tempo, mesmo que o público saiba da impossibilidade de que alcance os ouvidos e o coração do escritor distante. Mas o malabarista sabe que o efeito de sua arte se propaga e não há pressa para alcançar a repercussão. O tempo dirá quem merece atenção pelo modo como lançou pinos para cima e entreteve o respeitável público. Arte é solidão, o aplauso apenas distrai do verdadeiro sentido oculto da coisa toda.

 

Como vão os escritores

guarda-chuva-vermelho

 

 

1

Os escritores sempre se dão bem. Escrevem sobre crises, problemas, confusões e tudo isso é o que também os leitores têm em suas vidas e portanto procuram nos livros conforto ou solução ou, na hipótese mais modesta, pelo menos compreender que não estão sozinhos com os próprios dramas, mapeados de forma tão competente no texto.

 

2

Os escritores sempre se dão mal. Expõem em público as inquietações, problemas existenciais, as confusões em que se metem e o modo estranho e peculiar com que enxergam o mundo e depois, quando os leitores os ignoram ou buscam os concorrentes mais habilidosos, embriagam-se e se queixam aos amigos que ninguém nesse planeta perdido entre galáxias é capaz de compreendê-los.

 

auto meta para e as ficções

foto | alejandro guijarro
foto | alejandro guijarro

 

 

buscavam um escritor que fizesse autoficção e metaficção e, sobretudo, que não soubesse muito bem explicar os motivos pelos quais fazia o que fazia. queremos um escritor capaz de ser simultaneamente safo e ingênuo, explicaram aos dois ou três candidatos que se apresentaram. os três franziram a sobrancelha ao mesmo tempo quando ouviram a explicação, porque ela parecia completamente estapafúrdia, embora não tenham usado essa palavra. ou não tinham entendido direito? safo e ingênuo, insistiu o sujeito. aquilo mesmo, tinham escutado direito. um dos candidatos imediatamente se declarou desclassificado e abandonou a competição, não se sabe se por excesso de honestidade ou por ter compreendido bastante bem a barafunda que aquilo parecia ser. os outros dois, porque a vida não andava fácil para ninguém, permaneceram, porque havia certa quantia de dinheiro envolvida, em forma de bolsa literária, além da promessa meio vaga de promoção da pessoa e da obra, que afinal foi o primeiro estimulante para todos, ou pelo menos é como gostam de lembrar o episódio. os dois que restaram tinham metade das qualidades exigidas, infelizmente metades distintas. um era safo, o outro ingênuo e não parecia aos distintos senhores que colocar os escritores para trabalharem juntos fosse alternativa razoável, embora talvez, alguém aventou, pudesse ser uma solução. foi então e só então que se deram conta: o escritor que havia se retirado de cena primeiro, o que se abstivera alegando desculpas, ele era perfeito para a posição. dispensaram a dupla e foram atrás do escritor, que os recebeu com um sorriso amável, porque antecipou que era o que aconteceria. de quebra, ele tinha outra virtude não prevista, além de escrever autoficção e metaficção: também escrevia paraficção.

 

vantagens

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não dá para competir de igual para igual com esses caras que nasceram na europa, ele me disse. eles têm milhares de guerras no currículo, sem contar a segunda mundial, com sua sombra de terror elevada ao extremo, a primeira vez na história que a industrialização foi posta a serviço da matança de maneira explícita, sem qualquer disfarce. quando esses caras decidem fazer literatura, pode apostar que o tema vai ter outra pegada, não dá para evitar. eu assenti. mas não são só guerras que geram literatura, rebati. é também e sobretudo a vida. queria lhe dar um contraponto, um motivo para continuar, e estava pensando por exemplo no quixote. ele disse, mas a vida crivada de drama é sempre muito mais interessante.