para onde vai

tubarão-e-mergulhador

 

 

ele sentia que a história é uma espécie de capotagem —- você é responsável por ela na qualidade de condutor do veículo, alguém que está no controle do volante e do acelerador, mas a partir de determinado ponto deixa de ser responsável, quando a máquina adquire autonomia e começa a seguir leis da física, e passa a ser vítima.

 

coragem é um cavalo desembestado

cavalo

 

 

para ele, escrever era ganhar e perder uma vocação —- e reaprendê-la toda vez que ia começar um novo livro. quando terminava, meses ou anos depois, geralmente adoecia, tal tinha sido o empenho para concluir o texto. era sua vida que suava, transbordava e sobretudo reinventava quando passava tanto tempo escrevendo e reescrevendo alguma história. a última tinha sido a respeito de um cavalo que precisou transportar com o avô, quando era criança e tinha doze anos, da fazenda até o local determinado pelo veterinário, onde seria sacrificado. o avô reconhecia a necessidade do ato —- o cavalo tinha uma doença incurável e dolorida —- mas também sua incapacidade pessoal de praticá-lo. “você recebeu tantos anos de sacrifício deste cavalo, vovô”, ele fez o jovem personagem dizer, “que seria agora justo que o senhor também se sacrificasse um pouco para ter a coragem de matar o cavalo”. o avô olhou para ele com um jeito que não conseguiu traduzir. podia estar sério ou triste —- não apenas pelo cavalo e pela própria incapacidade de sacrificá-lo, mas sobretudo por escutar seu neto lhe apontando aquela falha de caráter. os abismos de comunicação entre gerações encontravam novas formas de se manifestar entre aqueles dois. não pretendia voltar a escrever tão cedo —- talvez não voltasse nunca.

 

perguntaram ao escritor onde ele arruma ideias

ilustração | oliver jeffers
ilustração | oliver jeffers

 

 

no supermercado, foi a primeira resposta. seguida de um sorriso maroto. estavam em promoção, ele insistiu, como se fossem um produto  que pode ser vendido a preços mais baixos do que os inicialmente oferecidos (o que significa que alguém está sempre lucrando mais do que precisa quando o preço está “normal”). às vezes eu as arrumo quando estou saindo do supermercado e vejo aquela mulher revirando a lata do lixo à procura de alimento, a mesma que você olha mas não enxerga? essa. ali estão as boas sugestões para escrever. ou para escrever a respeito de qualquer outra coisa. também arrumo argumentos quando jogo basquete, quando tusso e espirro e sobretudo nos momentos em que observo a grama crescer com todo o cuidado necessário. agora uma coisa é certa —- e nessa hora ele ficou sério —-, nunca arrumei ideias enquanto respondo a indagações cretinas que me fazem. é como se perguntas imbecis espantassem os pensamentos num raio de cinquenta quilômetros em volta. quando não tinha jeito, ser mordaz era estratégia importante para manter a boa forma. se o escritor treinasse boxe, seria o momento para convidar o oponente para uma sessão na qual o jornalista seria moído de pancadas e aprenderia a nunca mais fazer interrogação desse tipo para qualquer pessoa. todo escritor que foi submetido a essa questão devia fazer matrícula numa academia de boxe na mesma hora. uma norma que as associações de escritores nunca cogitaram em implementar, mas pensando bem não seria má ideia.

 

perguntaram ao escritor por que ele escreve

ilustração | oliver jeffers
ilustração | oliver jeffers

 

 

escrevo para matar a sede da mente, ele disse. como quem bebe água. para diminuir a dívida que tenho com o mundo, esse cobrador desleixado e leviano. escrevo para pacificar os demônios internos, caso contrário eles tomam conta e é o inferno. também porque não sei fazer direito outra coisa, talvez uma xícara de café. ou até sei, mas essa coisa, escrever, parece que faço melhor e por esse motivo me parece a escolha natural, a mais lógica e também a apropriada, embora eu diga isso e sinta instantaneamente um ódio pela palavra apropriada e por mim mesmo, por tê-la dito. escrevo para mostrar que estou em desavença com o mundo, afinal não se apreciam os escritores a não ser daquele jeito superficial e supérfluo, dizendo que eles são sujeitos inofensivos que adoram noites de autógrafos, mesas de discussão literária e inútil a não ser para madames entediadas passarem o tempo entre uma nova aquisição e outra (hoje comprei um escritor, disse uma; qual livro?, quis saber a amiga; não, não o livro, adquiri o autor para mim, vou levar para casa e enfeitar a mesa do jantar com conversas inteligentes para variar) e concessão interminável de entrevistas para jornais e revistas em que invariavelmente terão de formular resposta à pergunta a respeito dos motivos pelos quais escrevem. num mundo que pergunta a um escritor os motivos pelos quais ele escreve alguma coisa está muito errada e sinto vontade de pedir ao condutor que interrompa o movimento para que eu possa descer. escrevo porque não sei operar costumava ser uma de minhas respostas. depois mudei para outra pergunta: e você, por que respira? e por um tempo usei a variação: você pergunta a um filósofo por que ele decidiu pensar? isso seria uma pergunta rude, não seria? do mesmo modo e extensivamente, uma pessoa inteligente perceberia aonde eu estava pretendendo chegar. a resposta, meu caro, a única resposta para sempre e para evitar a redundância insuportável da pergunta, é: não tenho alternativa. falando nisso, você aceita um café?

 

díptico (parte 2)

imagem | michal mozolewski
imagem | michal mozolewski

 

 

havia um escritor e diante dele uma história iniciada, da qual ele não fazia parte, nem como personagem, nem como narrador. apenas a mão agia, na continuidade do cérebro, deslizando a caneta sobre papel, um bloquinho pautado cinza. a história, parece, envolve um cão vadio e a indecidibilidade de continuar. ele apoia o cotovelo na mesa, a cabeça na mão, dá um suspiro e parece sem vontade de suspirar, um suspiro cansado, boçal. a história não avançará sozinha, é notório. precisa da mão, das façanhas do cérebro, esse melindroso. ora a mão desliza a toda, ora hesita, a caneta parada no ar seco da tarde, como se fungasse em redor para dali extrair a essência. não sei para aonde esta história vai, o escritor redige, a caneta aflita a desenhar palavras ditadas pelo cérebro. e pouco tempo depois, começa outra, em que registra: havia um escritor e diante dele uma história iniciada. os ciclos e espirais de giambattista vico, ele pensa e talvez, no fim da outra história, registre por escrito. então se pergunta para aonde vão as ideias não aproveitadas nas narrativas, mas não sabe a resposta.

 

vida e morte

arte | judith eisler
arte | judith eisler

 

 

incapazes de definir o que é vida — tarefa espinhosa para a qual as tentativas são tão numerosas quanto os fracassos — os escritores concentraram-se em definir o que é morte — e a verdade é que o número de fracassos não foi menor, mas pelo menos havia charme e beleza naquelas palavras, que afinal serviam de consolo para muitos leitores mundo afora, tão condenados à vida quanto a morrer, quando chegasse a hora.