Cautela, cautela

Fotos | Jan Zimmerman
Fotos | Jan Zimmerman

 

 

Essa coisa da alegria ainda vai dar muito certo, ela disse, um sorriso tão lindo quanto manhã de primavera tropical. Estávamos nas nuvens, pequenas ilhas de expectativa cercadas de avião por todos os lados, de volta ao país natal depois de anos de exílio não forçado em que nos submetemos a coisas demais para no fim redundarmos em fracasso. Renovação de esperanças parece ser um dos esportes preferidos dos terráqueos, de modo que ali estávamos, nos embriagando da coisa na ambição tola de não termos ressaca. Foi nesse momento que Estela soltou a pérola, essa coisa da alegria, ela disse, embora soubesse que eu não tinha qualquer paciência para frases iniciadas com “essa coisa de”. Era decretar minha morte antecipada. Estela, no entanto. Esperançosa renitente — a despeito dos avisos da realidade, todos cumpridos à risca: de mim não há como escapar; nem de mim, nem de minha brutalidade —, Estela parecia agourar a nossa volta. Quando vi os guardas fardados conversando com os oficiais da alfândega e apontando o dedo em nossa direção, não tive mais dúvidas de que Estela estava muito, mas muito errada.

 

como encarar viagem

ilustração | andy denzler
ilustração | andy denzler

 

 

está tudo pronto para a viagem, pensei, quando tudo estava pronto, as malas feitas, as coisas nos devidos lugares. agora só me resta esperar a hora de ir para o aeroporto, pensei também. então comecei a raciocinar a respeito justamente das esperas. primeiro, pela hora certa; depois pelo ônibus que me levaria até o aeroporto, onde nova espera seria necessária, na fila do check-in, em seguida, na sala de embarque. quando entrasse no avião, esperaria pela liberação para o voo e, uma vez erguida a aeronave do solo, esperaria a conclusão da viagem; depois esperaria a hora do desembarque, a chegada da mala na esteira, o novo ônibus até o centro da cidade para a qual me dirigia. a viagem se transformou numa sucessão de esperas, mais do que qualquer outra coisa: aquilo que vejo, alguma coisa que aprendo, uma novidade qualquer que testemunho, cada vez mais escassa, o repertório do mundo tende a se repetir. então, me pergunto, qual a vantagem de viajar? mas isso é apenas a parte mais visível do mau humor, pondero. vou acabar gostando dessa viagem, haverá algo nela que… então me dou conta de que é hora de pegar as malas e me dirigir para a próxima espera.