Mudança e volta

Foto | Gianni Berengo Gardin
Foto | Gianni Berengo Gardin

 

 

Mestre absoluto no quesito procrastinação, ele achou que passara da hora de mudar de hábitos e tornar-se ativo, antes que a preguiça lhe criasse de vez raízes profundas demais para serem arrancadas. Tentou dança de salão, ciclismo, esgrima, golfe e meditação, atletismo, saltos ornamentais (desistiu porque achava os ornamentos inapropriados para um mundo em combustão). Tentou o mais difícil dos combates ao ostracismo: o cultivo das amizades, noites de debate ou saídas ao bar, discussões terapêuticas a respeito de política e economia, os desrrumos da nação, o impalpável do pensamento. Tudo aquilo, no entanto, parecia-se demais com um agitar-se desesperado que lhe impedia de ver o vazio no centro de sua vida, o grande e impactante vazio a ser preenchido talvez com memória, como fazem os escritores? Ou com lamentos, como fazem os nostálgicos excessivos. Procrastinar é exercício suficiente, proferiu e preferiu, estimula a pensar, a ter ideias, a imaginar mundos. E o que o mundo precisa é de alguém que o imagine com bastante intensidade. Nisso acho que todos estão de acordo.

 

mudar ou não

foto | j scriba
foto | j scriba

 

 

eu tinha parado de fumar e começado a correr —- provoquei uma grande reviravolta na vida, essa que é a verdade. quando tudo parecia estar indo muito bem, tive um ataque cardíaco e morri. as pessoas culpam o acúmulo de efeitos colaterais angariados na parte dissoluta, quando fumava e bebia e me acabava em esbórnias, mas o fato é que teria vivido mais se tivesse continuado a fumar e sedentário. exercícios são um acinte para o corpo. certas mudanças não são benéficas.

 

súbito, muda

tv

 

 

quando atingem certa idade, os humanos começam a gostar mais de caminhadas. talvez porque estejam ficando velhos e mais próximos da morte, talvez porque as extremidades estejam ficando frias e o exercício os ajude a melhorar a circulação, talvez por conta da crise de meia idade, não fizeram nada de especialmente grandioso na vida e caminhar parece uma forma de redenção, pelo menos parcial, não se sabe exatamente de quê, mas enfim, caminhar parece uma boa alternativa. então é possível ver essa horda de senhores e senhoras de cabelos grisalhos (eles) ou tingidos (elas), atrás de jovens guias, entrando no parque de preservação nacional para uma caminhada de umas três ou quatro horas de duração, ida e volta. ou exibindo, solitários, suas panças provectas no parque público próximo de casa, em tênis recém-adquiridos e ainda brilhantes. no entanto, esta história aqui é a respeito de haroldo, que gosta de natação.