Não é possível pensar e ser feliz

moça-e-chuva

 

 

Ainda bem que no meu caso a depressão é suave, ele pensou. Bem, se tem que ser doença e tem que ser depressão, pelo menos que seja suave. Era algo que não o impedia de ir até a loja de tinta ou buscar a filha na escola. Pobre menina, crescer com um pai depressivo, mas a gente não escolhe as doenças que vai angariar nem a família onde vai nascer. Ainda assim, pobre menina, pensava Oduvaldo, todo fim de tarde que conseguia ir buscá-la na saída da escola. Depressão, pelo lado bom, era efeito colateral de ter inteligência. Embora fosse obrigado a admitir que havia gente inteligente que não era especificamente deprimida. Mas tinha certeza que pessoas medianas não eram deprimidas, e portanto podiam almejar e conseguir felicidade ou qualquer coisa que leve esse nome embora sem ser. Ou, se não felicidade, pelo menos conseguiam o bastante para se declarar bem resolvidas, o que não deixa de ser um avanço. O que não era seu caso, nunca tinha sido e sem qualquer perspectiva de vir a ser. Talvez fosse por causa do nome que os pais lhe deram, pensou, mais uma vez. Quem dá um nome desses para um filho? Alguém que não quer a criança, que a teve muito cedo, bem antes da hora, num momento em que os hormônios falaram mais alto do que a lógica ou a perspectiva de ter um futuro. Lembrou-se de um episódio em que a filha cantava e, ao chegar ao refrão, pediu ao pai que cantasse junto, mas ele permaneceu em silêncio. Você não cantou, ela disse. Cantei na minha mente, ele respondeu, porque lá pelo menos eu sou afinado. Mas a verdade é que nem lá. E, no entanto, naquela tarde Oduvaldo não conseguiu buscar Matilde na saída da escola. Ligou para a loja de tinta e pediu para uma funcionária ir até a escola e levar a menina para a casa da tia. Quando o corpo de Oduvaldo foi encontrado, o bilhete pedia desculpas à filha e trazia uma orientação específica: que evitasse ser deprimida. Mas a gente não escolhe as doenças, nem a família onde vai nascer.

 

Ponderações à toa

Imagem | Yang Cao
Imagem | Yang Cao

 

 

1

Quer dizer que você é candidato a ser a pessoa mais infeliz do mundo? Pegue a senha e aguarde ser chamado, por favor.

 

2

Escritor é o sujeito que apresenta alternativa para a miséria do mundo. Ou seja, ficção é um tipo de anestesia existencial.

 

3

Ser infeliz é fácil e o mundo te propicia todas as oportunidades para isso. Ser feliz é uma arte, mas sem alguém que a domine. Felicidade é utopia, a cenoura que empurra para a frente.

 

certas desarmonias harmônicas

oceano

 

 

era um casal peculiar na oscilação de comportamentos. durante o dia, ele, que era funcionário da limpeza no shopping, cantava um repertório de boa seleção com voz afinada e timbre aveludado, enquanto empurrava a vassoura ou o rodo por entre as pernas dos passantes, que não raro se encantavam com a voz e a disposição contente daquele funcionário da limpeza. ela, que era garçonete de uma franquia de saladas e sanduíches saudáveis, atendia a todos com um mau humor brutal que fazia os clientes se perguntarem a razão e o motivo pelos quais ela conseguia manter o emprego. após o expediente, ela bebia e se engraçava com outros homens, o que modificava completamente o humor do funcionário cantante. ele a enchia de sopapos e gritava, destemperado, chamando-a de nomes baixos, enquanto ela ria diabolicamente e desprezava aquela postura dele entre o capacho e o autoritarismo. dia após dia, revezavam as funções e os papéis, com variações mínimas.

 

o futuro vai se lembrar da gente

ilustração | shih yung chun
ilustração | shih yung chun

 

 

era o momento em que a gente abria o sorriso para o futuro. sejamos felizes, papai nos dizia, tirava o olho de por trás da máquina e ria ele mesmo, como incentivo e estímulo. precisam se lembrar da gente como um povo feliz, dizia, um mentiroso compulsivo que fazia questão de manter bem longe do resto da família que receberia nossa foto enviada pelo correio que também tínhamos problemas, maus humores, crises emocionais financeiras intestinais, sobretudo estas, ou seja, em nada éramos diferentes dos outros membros do nosso clã, que não era nem um pouco pequeno. mas na cabeça maluca de papai, sim, tínhamos de posar de lordes, largos sorrisos nos rostos, nossas melhores roupas de domingo, todos abraçados e muito, mas muito contentes mesmo, e ele fazia os gestos com a mão para ficarmos mais perto uns dos outros e cabermos todos na moldura. de modo que hoje, ao olhar para essas fotos forjadas do nosso passado, não sei se éramos miseráveis sem saída ou se de fato, por trás daqueles sorrisos ensaiados, não estávamos cunhando um tipo especial e muito maluco de felicidade, feito bomba-relógio, prevista para disparar num tempo muito distante lá na frente. as mãos de papai nos juntou para nos fazer caber na foto e sem querer continuou nos unindo, vida afora.

 

todos sorriem

ilustração | raphaëlle martin
ilustração | raphaëlle martin

 

 

havia um misto de felicidade reprimida e expansiva, mas de qualquer ângulo que se olhasse ou percebesse ou mesmo analisasse o que se via era felicidade. não a falsa, de comercial, fingida, atuada, mas autêntica, aberta, ampla, alargando-se em ondas e se espalhando com um tipo de contaminação bem-vinda. não parecia insuflada por artifícios como drogas, lícitas ou não, nem por demandas programadas, mas pela própria natureza das dinâmicas humanas. a alegria, ele pensou, a onda de sorrisos e disposição para cima vem de não pensar muito a respeito. de modo que despiu-se ele também dos pensamentos, bem como das roupas, e entrou na confusão dos corpos que se movimentavam.

 

momento certo

crateras

 

 

dançou, bebeu, foi feliz naquela noite como não havia sido em qualquer outra. em sua companhia, estava aquela mulher maravilhosa dos sonhos, feliz, dançante, apaixonada por ele como ele mesmo estava, por ela. quando a noite estava chegando ao fim e depois de se deitar com ela — na terminologia romântica, fizeram amor —, voltou para casa a pé, caminhou pela areia da praia e depois pelas escarpas de um paredão de pedras que se erguia. quando encontraram o corpo, cinco dias mais tarde, falaram em acidente — teria pisado em falso, talvez. o que ninguém consegue admitir é a hipótese que traduz a verdade: escolheu o momento mais feliz, não o mais triste, não gostava do óbvio, para cometer suicídio.

 

lições musicais

piano

 

 

endomingado, roupa de ver deus, charuto entre os dedos, um duque imbuído da própria soberba em seus domínios, ostentada como se fosse motivo de orgulho, ele atravessou a manhã sentindo que estava bem, o dia era só promessas ou ele estava se iludindo que sim. nada de saia ou calça ou colete justos, tudo tendia à folga, inclusive o sol, sorriso do céu, cumpridor de horários. nem o fato de estar duro, nenhum centavo no bolso ou na conta, o demoveu. tocaria piano mais tarde e a promessa de receber em seguida. a vida é um acinte, pensou. bem que minha mãe dizia. mas no fim da tarde, quando apertou tudo, fome, depressão e um baseado que alguém havia esquecido e que antecipava que lhe agravaria a fome, sentiu que ia ter problemas para enfrentar a noite e o piano. é quando os fantasmas também se vestem e saem para trabalhar, não respeitando nem mesmo o som dos instrumentos.