Vida alheia

escada-e-sangue

 

 

Havia, houve uma faísca, um pedregulho que jurei que saiu do meu peito, uma alucinação desencontrada e sem destino certo, como os cigarros fumados e a nostalgia de vê-los num velho filme com músicos de jazz e copos e copos de bourbon que nunca me deram ressaca. A dor que sinto é falsa feito um poema que Pessoa não teve coragem de assinar e delegou a um outro. O hábito dos escritores deste tempo: transferir a crise. Rimbaud com o “eu é um outro”; Sartre com o “o inferno são os outros”; Pessoa com heterônimos; escritores de agora com vidas inventadas (o nome é autoficção). É um outro, não sei, a senhora deve estar enganada, pretendo dizer para a Morte quando ela vier me procurar. Toque aí no vizinho, vou sugerir. Que um outro possa ir no meu lugar, que viva minha vida delegada, as aventuras que não tenho coragem de enfrentar, os amores trepidantes que ferverão sangue alheio, os continentes que estou preguiçoso demais para começar a conhecer. A outra nostalgia que tinha era a de encarar os problemas e derrubá-los no soco. Mas contratei um assessor de imprensa, um agente literário, um consultor de imagem, um treinador personalizado, um técnico do viver que me ensine de novo a ter autonomia existencial. Os problemas planetários me atingem, mas só de raspão e desde que eu não precise mudar muitos canais. Houve um tempo em que me balançava num galho de árvore, mas agora tornei-me cinicamente pachorrento e desagradável. Só quem ainda tem fé na humanidade (um pobre coitado que nem me dá mais nos nervos porque parei de pensar a respeito dele e do assunto) crê que é possível reverter alguma coisa e se agita por isso. De onde eu vejo são apenas brumas e escuridão. Roubaram minha vida e nem reclamei, o traço, o resquício de saudade eu sufoquei. Achei que era uma faísca, um pedregulho a me escapar do peito. Mas era a brasa do cigarro de alguém que brilhou num sonho alheio.

 

Legado das letras

girafa-neve

 

 

Era um escritor com muita coisa a dizer e poucos ouvintes, ao contrário dos que têm pouco a dizer e legiões por audiência. “Seu problema é ácido”, dizia um amigo, sem qualquer intenção de subtexto. “Suas palavras, farpas”, ajuntava outro. O que muita gente quer é que lhes derramem mel nos ouvidos, portanto não te prestam atenção. Agreste, destemperado, os textos lhe refletiam as ideias mais do que a existência, que passava entre livros e debates. “Se sua vida se desmoronasse”, sugeria um. “Alguém te recolhesse bêbado a cada noite numa sarjeta diferente”, indicava outro. “E depois você se recuperasse, como quem volta dos mortos, a aura de sofrimento redimido é sempre uma opção interessante”, avaliava o mais cínico dos amigos. “Ou as glórias editoriais te cobrissem de ouros e louros”, adicionava em rima um sexto. “Trezentas entrevistas, convites em chuva, sua opinião sobre a fúria dos ciclones e o futuro das nações”, as variantes eram sugeridas, os cenários desenhados no mapa, queriam ajudá-lo. “Sua cota de carisma é normal demais, nem te falta algum como tampouco te sobra o que seria bastante para que esses desenhos virassem realidade”, diagnosticou aquele outro. O escritor levantava as laterais do braço para baixá-los em seguida e escrever que deu de ombros, contrição e honradez como bússola. Gosto amargo na boca levado adiante pela conduta estoica, embora às vezes sinta comichões de afogar o dissabor em desmesuras alcoólicas. Fingia lhe bastarem o convívio com personagens e histórias saídas da invenção. A falta que sentia de leitores seria recompensada, se fosse, pela posteridade não desfrutada, quando na conta das ideias não faz mais diferença a equação do carisma. Enquanto isso conversa com Becketts, Roths, Bellows, Sternes, Machados, como se fossem convidados do chá. Algum conselho, senhores?, demanda, mas, macacos velhos, sorriem entristecidos e nada dizem. Sobre certos assuntos, alguém recorre a Wittgenstein, é melhor calar. A última recompensa dos persistentes é o futuro, aforisa um deles, difícil precisar quem. O anúncio do silêncio sempre deve ser feito com palavras, é o que se sabe, o escritor acha que foi de Fernando Pessoa este comentário, ou de uma de suas variantes. A solidão é a solidez do escritor, vaticina. Hora de oferecer mais chá, o escritor pensa, e também: nessas companhias o que não senti foi solidão. Faz um conto em que consegue ser lido por esses que julga seus pares e, mais do que empáfia profissional ou despeito, recebe ponderações e elogios. Literatura é feroz, ele sabe, mas se disfarça muito bem de elegância, esse que é um dos principais trajes. O escritor cria um personagem, francamente inspirado em si, que anota contos parecidos com os Robert Walser e os de Lydia Davis, mais na economia de palavras do que nos conteúdos. Termina todas as histórias com a única e mesma palavra, que ele julga ser uma das mais expressivas da literatura, pelo que tem de potencial explosivo e de silêncio, de aposta: continua…