Ponderações à toa

Imagem | Yang Cao
Imagem | Yang Cao

 

 

1

Quer dizer que você é candidato a ser a pessoa mais infeliz do mundo? Pegue a senha e aguarde ser chamado, por favor.

 

2

Escritor é o sujeito que apresenta alternativa para a miséria do mundo. Ou seja, ficção é um tipo de anestesia existencial.

 

3

Ser infeliz é fácil e o mundo te propicia todas as oportunidades para isso. Ser feliz é uma arte, mas sem alguém que a domine. Felicidade é utopia, a cenoura que empurra para a frente.

 

O longo desvio

Foto | Logan White
Foto | Logan White

 

 

Levantou os olhos do papel e havia alguma coisa de antiga naquele semblante, algo de outro tempo, sabedoria, cicatrizes acumuladas, sofrimento curtido. As narrativas que lhe saíam das anotações revezavam minúcias e amplidões, chapadas inteiras de pensamento, ponderações microscópicas, seres imaginários se misturando com eventos reais que a memória intencionalmente produzia e misturava. Bebeu café, olhou a rua pela janela com a xícara na mão porque imaginou que era isso que esses caras faziam, consideravam o peso de alguma história medindo-a contra o mundo lá fora, o mundo com barulhos, cores, confusão intensa. Algo daquilo borbulhava também nas tramas e enredos, algo do caótico, mas de alguma maneira precisava estar ali com aparência de organização, certas elegâncias, um ajuste, mesmo no desgarramento mais audacioso. Este é o homem cujo fermento é interno, cuja expressão de calma suave se contrapunha com furacões, assassinatos, reviravoltas e revoltas, alucinações, com todo o destempero do mundo. Ele estava prestes a criar a trama mais contundente e provocadora do romance contemporâneo, estava à beira de descortinar para os semelhantes a verdadeira intensidade e vibração e loucura da vida no papel. Mas antes de voltar a toda essa confusão e atividade, precisava terminar o café.

 

Razões da ficção

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Por que você tem essa necessidade de ficção, de criar problemas alheios, depois escarafunchar neles como um dedo que remexe a casca que se formou sobre o machucado? Qual é, sinceramente, o prazer mórbido que você sente em projetar nos outros os problemas que afinal são seus? E, se me permite acrescentar, qual é a vantagem que as pessoas poderiam esperar obter com a leitura de todas essas narrativas que você insiste em criar, como se já não houvesse problemas demais por conta própria no mundo real para resolver? Você acredita que ler os problemas pessoais projetados num personagem inventado de algum modo ajuda as pessoas a perceberem a verdadeira dimensão do que estão atravessando? É por isso? Eu sorri para ela, procurando adivinhar o quanto havia de angústias pessoais envolvidas naquelas perguntas lançadas de uma só vez como se fossem balas de metralhadora e o quanto ela estava apenas sendo gentil e levantando as bolas que eu passaria a cortar como se fosse o melhor jogador de vôlei que já existiu. Então perguntei de volta: você tem quanto tempo?

 

Circuito em curto

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É verdade que Italo Calvino andou dizendo da minha primeira obra umas palavras gentis, chamou-me de inclassificável e fez soar como elogio. Depois os argentinos me procuraram, queriam lançar numa edição da Eterna Cadencia uma coleção de contos que viria junto de uma novela, sob o título geral de Manter distância. As negociações não avançaram, previ que se publicasse em Buenos Aires daí a pouco me procurariam os chilenos, os uruguaios e minha vida iria virar de ponta cabeça, sem sossego. Gosto do anonimato, dos contos que reproduzo em cópia barata e distribuo a esmo por aí, sem critério. Franco-atirador literário, nada de compromisso. Outro dia menti que tinha traduzido um livro do László Krasznahorkai, mas era um romance meu mesmo, a verdade é que nem falo húngaro. Teria sido mais fácil apresentar um livro meu como sendo a tradução do argentino César Aira, mas nesse caso teria sido mais rápida a descoberta da empulhação. Importante é divulgação, meus livros sob auspícios da fama alheia. O problema dos escritores é que são cambada de certinhos, cheios de pruridos e preocupados com fronteiras éticas. Por isso nem atendo quando dizem que é um escritor que me procura. Não estou, mando dizer. Não tenho paciência com esses tipinhos, todos melífluos, cheios de conversinha com rendas nas pontas. Que se fodam, eu digo, não atendo. Todas as éticas caíram junto com o muro de Berlim, seus idiotas. Os tontos ainda perdidos. Não aguento. Vou me virando como posso, vivo de expedientes, pequenos golpes, fraudes precárias. Acho crime profissionalizar o crime, como fizeram os políticos brasileiros. Mantenho a cabeça abaixo do radar e vou. Literatura trato a pontapés e quanto mais mambembe, mais me interesso. Escritores de verdade são os que viraram fantasmas, óbvio que nem todos. Talvez escape entre os vivos aquele sujeito da Noruega, Karl Ove Knausgård, que não tem papas na língua para falar mal da própria família, esse é possível respeitar. Boçais, os escritores. Mendigam publicações, concorrem a todos os prêmios, amam noites de autógrafos, frequentam felizes festivais literários nos quais arrotam sapiência e sensatez, sempre jogando as melhores frases para a plateia (no subtexto: gostem de mim, comprem meus livros). Que triste. Entram para o circuito, se esquecem que literatura só funciona em curto. Respeito escritores que levam a sério o ofício, sobretudo quando se matam. Morrer de velho é a tragédia da literatura, sua longa e histórica agonia. Ainda bem que os leitores vão escasseando, isso me dá o alento de que preciso para continuar mais um pouco, até que chegue a minha hora. Entro para o sistema, se minha cretinice falar mais alto e alguma oferta generosa aparecer — o sistema comporta e precisa de alguém com meu modelo de perfil —, ou entro em curto e me mato de uma vez. São minhas opções.

 

encontros improváveis

xícara-de-café

 

 

e se a vida se parece com uma ficção, faz sentido que naquele determinado momento eu me encontrasse diante da biblioteca pública municipal, no bairro de boedo, em plena buenos aires, e diante de mim, para ser preciso a alguns poucos metros, atrás de uma porta antiga, estivesse o escritório de jorge luis borges, um dos que ele teve na cidade. mas como a ficção da vida é quase sempre mais cruel do que a outra, o dia era sábado e o escritório, tanto quanto a biblioteca, estava fechado, porque essas coisas não funcionam nos fins de semana, o que considerei lamentável. não pude deixar de pensar que havia algum significado oculto no fato de o escritório de borges estar fechado para mim (claro que estava fechado para qualquer outro que também fosse até lá). entrei numa pizzaria, duas casas ao lado, para perguntar qual era o rumo da estação de metrô. essa a ficção da vida: informações, demora, caminhada, metrô, o que se pensa em todo e cada um dos intervalos em que tudo transcorre, como se a vida fosse representada por estar mergulhado num rio lento e caudaloso, ou melhor, em ser esse rio que caminha lentamente. mas por dentro eu ia bolando uma história na qual borges ia me receber à porta do escritório e me convidava para entrar, me oferecia café e trocávamos uns bons dedos de prosa a respeito dos livros que estávamos escrevendo por aqueles dias e, sem comentar isso com ele porque seria deselegante, me parecia que o meu era um pouquinho melhor.

 

distrações

ilustração | carel visser
ilustração | carel visser

 

 

pensando em matemática, ou seja, pensando no mundo não apenas nas três dimensões em que ele se apresenta, mas em quatro, cinco ou mais, aquele geômetra distraído acabou por cair num buraco. não se preocupou tanto com o fato (fatos são a ficção da realidade, concluiu um ou dois raciocínios mais tarde) e continuou a fazer cálculos e contas, ponderar a respeito de conjecturas e desenvolver teses. quando se deu conta de que era preciso pedir socorro, era tarde e ele foi obrigado a passar duas noites sem comer, até que o acaso, que desdenha da matemática, colocou-lhe um rapaz no caminho e ele pôde sair do buraco. precisou ser reidratado antes de retomar o fio dos cálculos do ponto onde havia interrompido e lamentou por esse tempo perdido, mas depois pensou de novo e concluiu que tempo não se perde, gasta-se em aprimoramentos.

 

the ghost writer

o tema do duplo sempre interessou à literatura e, ainda mais, o tema do escritor fantasma, daquele que fica à sombra de alguém que assina o texto escrito pelo tal fantasma: a individualidade, o ego precisa ir ralo abaixo sem dó. o primeiro dos livros de philip roth a apresentar o alter ego nathan zuckerman chama-se exatamente the ghost writer. nove livros depois, quando zuckerman será usado pela última vez, o livro se intitula, em português, fantasma sai de cena. no caso, o alter ego é pretexto para falar a respeito de temas literários, próprios ou alheios. mas o tema do escritor fantasma também interessa ao cinema, como prova o filme mais recente de roman polanski, the ghost writer. com doses bem medidas de tensão e drama, polanski fala novamente a respeito da vítima sacrificial. ewan mcgregor desliza bem pelo papel entre tolo e determinado. chove muito, ou o tempo está sombrio (o clima externo para indicar o interno já foi utilizado pelo próprio polanski na versão cinematográfica de macbeth, de shakespeare). que isso se pareça com a situação do próprio polanski, em prisão domiciliar na suíça, não surpreende: ele sempre teve uma singularidade diferenciada pela relação intensa com tudo. existe um artista polanski em conflito com o mundo e existe o ser humano que está preso na suíça. difícil definir qual dos dois é o fantasma.

criação

“ninguém foi tantos homens como aquele homem”, diz jorge luis borges a respeito de william shakespeare (“everything and nothing”, em o fazedor, e vale lembrar que esse título remete ao do livro de macedonio fernández, tudo e nada, publicado em português, o que leva a pensar que talvez borges estivesse fazendo homenagem ao amigo e mestre). o corpo circulava por tabernas e bordéis, mas a alma era a de césar, julieta, macbeth. diante de deus, shakespeare pede para ser só um e ouve um lamento de deus que provavelmente deve fazê-lo compreender a limitação: “eu tampouco o sou”. curiosamente, harold bloom vai dizer que shakespeare inventou o ser humano tal como é conhecido hoje.

ledo engano

toda ficção é autobiograficamente disfarçada. quanto mais o autor finge ser outro, mais ele se entrega. paradoxalmente, quanto mais o leitor disser que reconhece o autor, mais estará errado. mas, seguindo essa linha, mais o autor negará sua presença na obra. ficção é das coisas mais sérias e honestas que existe, por isso é tão difícil cravar preto no branco. quando se diz algo, já não é.