Coisas erradas

Imagem | Oliver Flores
Imagem | Oliver Flores

 

 

A melhor professora que tive, costumava dizer aos amigos. A vida só me ensinou coisas erradas, truques bestas, a ambição de jogar para a plateia, suprema vaidade que alimentei com humildade suficiente para ninguém perceber. Mas todo dia ela pedagogicamente me encaminha para o grande aprendizado ao me retirar o sabor de estar vivo. Sobretudo, é preciso aprender a morrer. Quando for a hora, fingirei o mesmo despreparo que todo mundo que me antecedeu, mas estarei pronto. Que digam a meu respeito que descansei, porque se tratará justamente disso, de descansar, de me livrar do peso infatigável que é estar semi vivo, fingindo que levo a sério esta coisa, sendo que nunca de fato aprendi a viver, ou quis, ou me interessei a fundo pela matéria. Estuda-se muito, a vida inteira, para atingir o ponto de certo de passar no vestibular da vida e entrar na universidade da morte. Fingindo que me ensina as coisas erradas, a vida está me encaminhando direitinho e o fato é que sou bom aluno.

 

Legado das letras

girafa-neve

 

 

Era um escritor com muita coisa a dizer e poucos ouvintes, ao contrário dos que têm pouco a dizer e legiões por audiência. “Seu problema é ácido”, dizia um amigo, sem qualquer intenção de subtexto. “Suas palavras, farpas”, ajuntava outro. O que muita gente quer é que lhes derramem mel nos ouvidos, portanto não te prestam atenção. Agreste, destemperado, os textos lhe refletiam as ideias mais do que a existência, que passava entre livros e debates. “Se sua vida se desmoronasse”, sugeria um. “Alguém te recolhesse bêbado a cada noite numa sarjeta diferente”, indicava outro. “E depois você se recuperasse, como quem volta dos mortos, a aura de sofrimento redimido é sempre uma opção interessante”, avaliava o mais cínico dos amigos. “Ou as glórias editoriais te cobrissem de ouros e louros”, adicionava em rima um sexto. “Trezentas entrevistas, convites em chuva, sua opinião sobre a fúria dos ciclones e o futuro das nações”, as variantes eram sugeridas, os cenários desenhados no mapa, queriam ajudá-lo. “Sua cota de carisma é normal demais, nem te falta algum como tampouco te sobra o que seria bastante para que esses desenhos virassem realidade”, diagnosticou aquele outro. O escritor levantava as laterais do braço para baixá-los em seguida e escrever que deu de ombros, contrição e honradez como bússola. Gosto amargo na boca levado adiante pela conduta estoica, embora às vezes sinta comichões de afogar o dissabor em desmesuras alcoólicas. Fingia lhe bastarem o convívio com personagens e histórias saídas da invenção. A falta que sentia de leitores seria recompensada, se fosse, pela posteridade não desfrutada, quando na conta das ideias não faz mais diferença a equação do carisma. Enquanto isso conversa com Becketts, Roths, Bellows, Sternes, Machados, como se fossem convidados do chá. Algum conselho, senhores?, demanda, mas, macacos velhos, sorriem entristecidos e nada dizem. Sobre certos assuntos, alguém recorre a Wittgenstein, é melhor calar. A última recompensa dos persistentes é o futuro, aforisa um deles, difícil precisar quem. O anúncio do silêncio sempre deve ser feito com palavras, é o que se sabe, o escritor acha que foi de Fernando Pessoa este comentário, ou de uma de suas variantes. A solidão é a solidez do escritor, vaticina. Hora de oferecer mais chá, o escritor pensa, e também: nessas companhias o que não senti foi solidão. Faz um conto em que consegue ser lido por esses que julga seus pares e, mais do que empáfia profissional ou despeito, recebe ponderações e elogios. Literatura é feroz, ele sabe, mas se disfarça muito bem de elegância, esse que é um dos principais trajes. O escritor cria um personagem, francamente inspirado em si, que anota contos parecidos com os Robert Walser e os de Lydia Davis, mais na economia de palavras do que nos conteúdos. Termina todas as histórias com a única e mesma palavra, que ele julga ser uma das mais expressivas da literatura, pelo que tem de potencial explosivo e de silêncio, de aposta: continua…

 

certos estudos importantes

farol

 

 

não se sabe até que ponto havia sido deliberado, mas o fato é que o sujeito fornecera uma bela explicação quando lhe perguntaram por que tinha decidido estudar filosofia. quero aprender a morrer, ele disse. havia lido algum filósofo clássico e retirara de lá a citação, deduziram os mais velhos. ou da leitura de michel de montaigne, que também menciona isso. mas quando ele cometeu suicídio, dois anos depois de ter iniciado os estudos do pensamento, verificaram que afinal ele tinha outras ideias bem diferentes em mente.

 

sem saída

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1

se as pedras conversassem, suponho que uma diria a outra: sou capaz de suportar tudo, sol esturricante, chuva de tempestade, vento, tudo, mas lesma que me deixa gosma, ah, não, isso me desanima. mas como ela não sabe rolar sozinha para evitar limo e lesma, se fode, a coitada.

 

2

maria confiou nas palavras e promessas e sorrisos de josé, que não poupava esforços para comer maria, e daí dá-lhe, palavras bonitas, histórias divertidas, promessas de eternidade. e maria cede. agora espera há uma semana que ele venha, que dê sinal de vida, que ligue pelo menos e daqui mais um pouco, quando fizer o teste e ver que está grávida, vai saber que é assim que ela se fode, a coitada.

 

3

o sujeito era taciturno e macambúzio, alguma coisa parecia definitivamente quebrada lá dentro. nos apresentamos e oferecemos para pagar o seu almoço em troca de ele conversar conosco, porque havia sido um filósofo importante que um dia largou tudo para virar vendedor num sebo vagabundo. não tivemos coragem de perguntar razões e motivos para a troca que parecia tão absurda, mas saímos do almoço com a impressão de que ele está ao mesmo tempo arrependido e conformado, ou seja, que no fundo ele se fode, o coitado.

 

amor e poesia

ilustração | alexander jansson
ilustração | alexander jansson

 

 

não se sabia quem era mais infeliz. se ela, por haver se casado com um poeta. se ele, por ser poeta e nunca conseguir se livrar dos delírios de grandeza ou da profunda melancolia que costumam frequentar essas pobres criaturas. mas entre sacrifícios recíprocos e alguns momentos de iluminação, resolviam-se mutuamente. “ele precisa de mim”, ela mentia para as amigas, que fingiam acreditar. “não a suporto mais”, ele mentia aos amigos, que não se interessavam. e um para o outro, mentiam-se a respeito de outros assuntos. quem os via de certa distância, caminhando lado a lado com a sacola de compras da feira, julgava-os felizes. ou remediados, conforme convinha a cada um. os livros de poesia escassearam com o tempo — secava a inspiração, engolida pela potência da realidade. um poeta é menos poeta se publica menos?, perguntava-se. menos poesia, mais álcool, enunciava a lei das compensações. não adiantava parar de beber para a escrita voltar — ele testou, para ver se funcionava. os poemas se parecem com a filosofia no quesito consolação. a diferença é que a filosofia pretende salvar também os outros, a poesia afunda poeta e leitores ainda mais no pântano existencial (motivo pelo qual editores estão redimidos de reticências quanto a publicar poesia…). “me casei com um poeta, não com um bêbado”, ela lastima para ele, ambos remediados, mas muito infelizes. “talvez você sirva de exemplo para as gerações futuras, que saberão o que evitar”, ele a consola. sem muita eficácia, no entanto.