Sobre tempestades

geleira

 

 

Erguer o olhar para tempestade que se arma no horizonte. Encará-la a sério, como se fosse possível, apenas com o poder do olhar, dissolver o avanço da tempestade. Não é possível, mas isto já se sabia, mesmo que se tenha concentrado com seriedade na manutenção do olhar furioso direcionado a ela. Se fosse um relato de Kafka, algo muito estranho, inquietante e inesperado já teria acontecido: sentir-se molhado antes mesmo que a tempestade desabasse, por exemplo. Ou sentir-se molhado sem que haja qualquer nuvem no céu ou qualquer tempestade à vista. O mundo não é um lugar reconfortante. Há muitos recessos e campos abertos para a entrada do medo ou mesmo do desconforto. Ainda assim, dei uma resposta que achei interessante quando me perguntaram se não tinha medo de sair à noite. Não, eu disse, eu sou a razão pela qual as pessoas têm medo de sair à noite. Assim parecia melhor. Queria sentir que posso desmanchar a tempestade simplesmente olhando para ela.

 

demora

destinado a grandes pensamentos, mas com biografia trôpega como bem cabe aos personagens trágicos, ele recusou-se a assumir o destino o quanto pôde, vagueando entre histórias pessoais pequenas e incongruentes.

os deuses se impacientaram com a demora e desviaram a atenção para outra pessoa, deixando franz kafka num limbo da memória. renitente, saiu-se de lá com ótimas histórias, todas manchadas de escuridão profunda.

transformou o negror em forja e ferro para construir armas — elas parecem invencíveis.