Esperança é vício

Foto | Gordon Spooner
Foto | Gordon Spooner

 

 

Regular o futuro e as esperanças pelas estações. Regular o passado pelas memórias, recompostas ou fidedignas. Mas o que alguém pode saber do meu passado, por mais que eu insista em relatos circunstanciados? Havia uma vaca com dificuldades de parir, por exemplo, e meu avô chamou um veterinário e me deixou assistir à intervenção no curral a céu aberto: ele enfiou o braço dentro do traseiro da vaca e puxou de lá o bezerro, que estava com as patas para fora mas não nascia. Um deles, talvez os dois, vaca e bezerro, se salvaram e se tivesse que fazer uma aposta diria que foi o bezerro. O veterinário ficou com o braço encharcado e a autoconfiança de quem realizou bem o próprio trabalho. Mas de que adianta esse relato, a mim, aos outros, a quem seja? A vaca e o bezerro já morreram há muito, meu avô também, logo será minha vez. Eu conto, no entanto, na esperança (essa centelha do futuro que ainda insiste comigo no poder das expectativas) de que algum neto me leia (meu avô só deixou livros-caixa; não sei nada a respeito do que pensava) e me entenda, ou pelo menos saiba o que me inquietava, quando eu era vivo. Meu avô deixou terras, que se converteram em dinheiro também para mim. Meus netos terão minhas palavras, que valem pouco do ponto de vista prático, mas talvez lhes sirvam para alguma coisa. Tenho esperanças, elas me alimentam de futuro.

 

Futuro é angústia

Foto | Flor Garduño
Foto | Flor Garduño

 

 

A expectativa de que algo vai acontecer gera uma angústia da espera: acontecerá? Terá o efeito que se imaginava quando acontecer? Será melhor ou pior do que a cena antecipada na imaginação? A quebra dessa expectativa, por exemplo adiar o horário para outro, bem mais tarde, pode ter duplo efeito: amplia ainda mais a agonia que incomodava ou então se abdica dela de uma vez por todas e entra-se numa espécie de relaxamento. Arnaldo na frente do espelho, a ensaiar as palavras que dirá para a mulher que deseja ter a seu lado e a quem pretende conquistar. Não será fácil, a vida desses dois, equilibrando mal e mal as projeções alheias de um sobre o outro, os defeitos não apenas revelados, mas ampliados, até que não mais se suportem ou, ainda pior, não mais se respeitem. Mas isso é depois, amanhã. Hoje a vida é desejo e esperanças luminosas e expectativas felizes. Como Arnaldo, diante do espelho, ensaiando sua fala.

 

Contrastes de geração

Imagem | Regina Nieke
Imagem | Regina Nieke

 

 

A velha andava com dificuldade e tinha uma meia marrom, grossa, que insistia em escorregar pela perna abaixo. Me ajuda aqui, pedia ao neto, menino de cinco anos e um poder incomensurável de se deslumbrar com a grande quantidade de desconhecido que ainda tinha como futuro. Ele se aproximou para erguer a meia, reparando sem de fato entender na dificuldade da avó de movimentar-se e ao ver as manchas escuras na perna que a meia ia tampando caminho acima, percebeu que a morte vem em parcelas, manda recados nem todos sutis. Cinco anos e um impacto daqueles, uma revelação do poder avassalador do espetáculo que é a afirmação e o negar de todas as coisas, a vida um sonho ainda em andamento, sem roteiro prévio. Mas naquela mesma noite iria começar uma série de pesadelos relacionados com aquela imagem tão simples e corriqueira, tão cheia de camadas ocultas e dilemas a serem explorados.