Pausa na guerra

Foto | Garry Winogrand
Foto | Garry Winogrand

 

 

Então decidiram fazer intervalo na guerra por um instante, pois é verdade que esse negócio de matar dá trabalho e tem alto custo emocional para os envolvidos. Na trégua, propuseram fazer um baile e aproximar as partes, aproveitando que havia a pausa e todos estavam de acordo com os termos. Então começaram a erguer brindes e a cantar canções e houve um momento em que o general estrategista de um dos lados comentou com o general estrategista do outro: “Ainda bem que as guerras continuam a ser iniciativa dos homens. Quando as mulheres aderirem, a coisa vai ficar realmente feia, porque elas são implacáveis”. O outro general, que nunca havia se debruçado sobre a questão, pensou a respeito do assunto: será que tinha ouvido aquilo como tentativa do inimigo de manipulá-lo, mas quando concluiu que não começou a convocar mulheres e seus exércitos derrotaram o adversário muito rapidamente.

 

Sono e guerra

paraquedistas

 

 

Pensar que passarei um terço da vida mergulhado em sono e sonho. Me faz pensar em escrever um Manual beligerante do ser humano, que explicaria o talento incontornável para a guerra (inclusive a de mentira que são as disputas esportivas: a guerra diplomática da civilização). Sono e guerra, duas faces da atividade inquieta que define o humano. E multiplicar-se pela fornicação, outra tarefa definidora, mesmo quando banhada de civilização e atenda pelo nome de amor. Na falta de perspectiva que a solidão oferece, escolhe-se superar uns aos outros, em disputa eterna. Acontece que o plano tem problemas de fundo, nunca devidamente resolvidos.

 

Guerra interna

Foto | Tim Ronca
Foto | Tim Ronca

 

 

Ele tinha sido um sujeito assustadiço no começo da vida. Mais tarde, tornou-se introspectivo e por último podia ser visto como alguém cheio de brusquidão e amargura. É difícil imaginar o que as pessoas atravessam e como são afetadas pelo concreto das relações humanas. É fato que esteve num pequeno barco que deslizou bem próximo de um jacaré, mas e daí?, se você pensar bem, isso talvez não signifique muito. Até mesmo essas definições são limitadas e não conseguem delinear a quantidade de emoções ou a variedade de pensamentos. Soube que ele havia estado numa zona de guerra, fui a um jantar em sua homenagem e conversamos de forma breve. Eu estava fumando na varanda, contemplava as luzes da cidade e pensava a respeito das pessoas e das vidas irrefletidas que levavam. Ele se aproximou e começamos a conversar.

— Deve ser difícil voltar da guerra e se engajar em atividades sociais, como jantares — comentei.

— Pois é — ele assentiu —, muito.

Então me filou um cigarro e fumamos um pouco em silêncio.

— Chegou a matar alguém? — perguntei, depois de um tempo, mesmo sabendo que era o que todo mundo devia perguntar.

— Não, eu estava encarregado de organizar a distribuição de alimentos. Sou da área de logística.

— Entendo — eu disse, mas não entendia coisa alguma, a não ser o fato de que ele não havia matado alguém. Qual o sentido de ir para a guerra, nesses termos, eu me abstive de perguntar, mas fiquei com vontade. — Quer dizer que a guerra foi algo distante.

Ele deu uma tragada. Olhou para a cidade, depois para mim, como se eu fosse estúpido. Talvez estivesse certo.

— É possível ver muita merda, eu vi muita merda. A guerra externa pode ser bem feia, mas as guerras mais terríveis acontecem dentro das pessoas.

Sério que ele tinha dito um absurdo daqueles? Para quê, santo Deus, alguém diria uma bobagem daquelas? Acontece que tempos depois eu ainda estava pensando a respeito do assunto e me lembrava da voz rouca dele pronunciando aquelas palavras, as guerras terríveis dentro das pessoas. Parecia bom, depois de um tempo. Parecia realmente impactante.

 

A guerra eterna

Foto | Ed Ross
Foto | Ed Ross

 

 

Os homens parecem nunca se cansar de suas guerras. A sensação de poder esquenta as veias, a noção de que é possível apropriar-se daquilo que se quer, mas sobretudo a sensação de poder aniquilar os outros, os estranhos, sem dar satisfação a ninguém. A guerra estimula o homem dentro do homem, o monstro da destruição a lhe esquentar o peito, o sem sentido de tudo em expansão geométrica. Os homens não se cansam de enfiar seus aríetes nas portas do inimigo, eles não podem se cansar. Até sorriem, de vez em quando, em prol da manutenção do moral, mas não é isso que os mobiliza, é antecipar o gosto do ferro por entre a umidade viscosa do sangue do oponente a se esparramar pela boca. O sabor da vitória, o som agradável do pescoço adversário a se quebrar sob o poder da própria bota. Infligir humilhação, deixar que o inimigo sinta o amargo implacável da derrota. E depois ouvir as velhas histórias de sofrimento dos companheiros, os relatos das atrocidades impostas (o que leva ao orgulho) ou sofridas (o que produz lamento). É preciso sempre se sujar em busca de dignidade. A guerra é a brincadeira do adulto, seu parque de diversões para compensar os pesadelos que é obrigado a atravessar. Além disso, é ótimo ter assunto para as conversas durante e depois do jantar.