Esperança é vício

Foto | Gordon Spooner
Foto | Gordon Spooner

 

 

Regular o futuro e as esperanças pelas estações. Regular o passado pelas memórias, recompostas ou fidedignas. Mas o que alguém pode saber do meu passado, por mais que eu insista em relatos circunstanciados? Havia uma vaca com dificuldades de parir, por exemplo, e meu avô chamou um veterinário e me deixou assistir à intervenção no curral a céu aberto: ele enfiou o braço dentro do traseiro da vaca e puxou de lá o bezerro, que estava com as patas para fora mas não nascia. Um deles, talvez os dois, vaca e bezerro, se salvaram e se tivesse que fazer uma aposta diria que foi o bezerro. O veterinário ficou com o braço encharcado e a autoconfiança de quem realizou bem o próprio trabalho. Mas de que adianta esse relato, a mim, aos outros, a quem seja? A vaca e o bezerro já morreram há muito, meu avô também, logo será minha vez. Eu conto, no entanto, na esperança (essa centelha do futuro que ainda insiste comigo no poder das expectativas) de que algum neto me leia (meu avô só deixou livros-caixa; não sei nada a respeito do que pensava) e me entenda, ou pelo menos saiba o que me inquietava, quando eu era vivo. Meu avô deixou terras, que se converteram em dinheiro também para mim. Meus netos terão minhas palavras, que valem pouco do ponto de vista prático, mas talvez lhes sirvam para alguma coisa. Tenho esperanças, elas me alimentam de futuro.