Talento para deboche

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A última que soube dele foi que tinha organizado pesquisa que constatou o talento brasileiro para o deboche, aparentemente maior do que o de outros povos. Podia ser visto como o quarto pilar da identidade nacional, ao lado do Carnaval, samba e futebol. Ele chegou a argumentar que o Carnaval era a coroação do deboche; o samba, primo malicioso; o futebol, deboche do ritmo. Convidaram-no para escrever colunas em jornais e revistas, travou polêmicas com várias pessoas, uma arte que parece ser exercício do acinte, mas com camadas de sutileza difíceis de dominar. Aconteceu-lhe algo parecido com o que tinha se passado com Byron, acordou um dia e se descobriu famoso, como se reconhecimento fosse uma gripe que se contrai de maneira inesperada. Abriu depois um curso de sucesso e muito frequentado, A Arte do Deboche, em que ensinava alguns truques avançados para o perfeito domínio das técnicas e variações. Fazia a necessária distinção entre deboche, escárnio, bazófia, chiste, sátira, ironia, zombaria, troça, toda a gama de emoções do riso com vítima. Sabia das tentativas de fazê-lo feitiço que se vira contra o feiticeiro — que provasse do próprio veneno —, mas tinha ginga o suficiente para sair-se de todas. A pouca tolerância brasileira com a excelência, no entanto, devia ter sido alcançada pelo seu radar antes que fizesse qualquer besteira, mas percebi que ele estava com os dias contados quando anunciou num programa de televisão em cadeia nacional que era o rei do deboche. Destronado e esquecido com a mesma rapidez com que se troca de canal, ele anda sumido e para ser sincero não tenho mais visto.