Treinos da infância

máquina-de-escrever

 

 

Houve um dia, ali pelo fim da infância, em que me mandaram para aulas de datilografia. Era uma sala de primeiro andar num velho edifício, a que se chegava por uma escada sombria que desembocava num corredor largo. Por fim, chegava-se à sala cheia de mesas com velhas Olivettis pesadonas. Enquanto olhava com o rabo de olho para o volume sob a blusa da orientadora, fazia somar trilhas de asdfg, depois trilhas de çlkjh, se amontoando na página branca como fileiras de exércitos. Começava ali o jornalista, começava o escritor. Durante anos, no entanto, considerados inclusive os seios desejados da orientadora, aquela sala do primeiro andar serviu de locação para várias passagens da minha vida. Até hoje, é lá minha Wall Street particular onde trabalha (ou prefere não trabalhar) o escrivão Bartleby. Nova York tem conexões com o interior de Goiás, o que comprova que os cenários da imaginação são bem mais interessantes do que os da realidade.

 

O longo desvio

Foto | Logan White
Foto | Logan White

 

 

Levantou os olhos do papel e havia alguma coisa de antiga naquele semblante, algo de outro tempo, sabedoria, cicatrizes acumuladas, sofrimento curtido. As narrativas que lhe saíam das anotações revezavam minúcias e amplidões, chapadas inteiras de pensamento, ponderações microscópicas, seres imaginários se misturando com eventos reais que a memória intencionalmente produzia e misturava. Bebeu café, olhou a rua pela janela com a xícara na mão porque imaginou que era isso que esses caras faziam, consideravam o peso de alguma história medindo-a contra o mundo lá fora, o mundo com barulhos, cores, confusão intensa. Algo daquilo borbulhava também nas tramas e enredos, algo do caótico, mas de alguma maneira precisava estar ali com aparência de organização, certas elegâncias, um ajuste, mesmo no desgarramento mais audacioso. Este é o homem cujo fermento é interno, cuja expressão de calma suave se contrapunha com furacões, assassinatos, reviravoltas e revoltas, alucinações, com todo o destempero do mundo. Ele estava prestes a criar a trama mais contundente e provocadora do romance contemporâneo, estava à beira de descortinar para os semelhantes a verdadeira intensidade e vibração e loucura da vida no papel. Mas antes de voltar a toda essa confusão e atividade, precisava terminar o café.