Lembrar a infância

Foto | Lorraine Healy
Foto | Lorraine Healy

 

 

Meu analista me recomendou que escrevesse a respeito de minha memória e da infância. Tudo o que você conseguir se lembrar, ele disse, sério. Pensei imediatamente no romance de Italo Svevo, A consciência de Zeno. Passei numa papelaria e, dessa vez obediente, investi algum dinheiro sério num bloco de anotações que me agradou, importado e caro como um fígado ou um rim. Era o primeiro passo rumo à cura para iniciar o tratamento. Ou rumo a mais deslavada invenção, porque decidi que iria me dar uma infância atribulada e aventuresca, bem diferente do que tinha sido na verdade, com orfanatos, fugas espetaculares, sequestros, abduções, reviravoltas. Se minha doença não tiver cura — verdade é que de fato não creio que exista, é crônico e insolúvel meu problema —, pelo menos posso angariar algum reconhecimento como escritor de falsas memórias e lançar uma carreira literária, quem sabe. Então, a elas.

Tudo começou em…

 

Treinos da infância

máquina-de-escrever

 

 

Houve um dia, ali pelo fim da infância, em que me mandaram para aulas de datilografia. Era uma sala de primeiro andar num velho edifício, a que se chegava por uma escada sombria que desembocava num corredor largo. Por fim, chegava-se à sala cheia de mesas com velhas Olivettis pesadonas. Enquanto olhava com o rabo de olho para o volume sob a blusa da orientadora, fazia somar trilhas de asdfg, depois trilhas de çlkjh, se amontoando na página branca como fileiras de exércitos. Começava ali o jornalista, começava o escritor. Durante anos, no entanto, considerados inclusive os seios desejados da orientadora, aquela sala do primeiro andar serviu de locação para várias passagens da minha vida. Até hoje, é lá minha Wall Street particular onde trabalha (ou prefere não trabalhar) o escrivão Bartleby. Nova York tem conexões com o interior de Goiás, o que comprova que os cenários da imaginação são bem mais interessantes do que os da realidade.

 

Algumas lembranças de outro tempo

Foto | Brian Bowen Smith
Foto | Brian Bowen Smith

 

 

Antes de perceber os fantasmas, eu tinha todas as dúvidas voltadas para mim mesmo. Era o que garantia, eu pensava, que os meus pensamentos fossem efetivamente meus e não implantados em mim e controlados a distância por aquele que os implantou, com tal sutileza que me fazia inclusive duvidar da autonomia dos meus pensamentos. Ou, por outra, o que garantia em mim a autenticidade humana? O sangue que escorria pelos meus dedos ou pela minha testa quando eu me machucava em alguma brincadeira parecia ser apenas mais um elemento do dispositivo implantado em mim para me enganar melhor. E se descobrisse um dia que eu era um robô tão sofisticado que tinha um implante de mecanismos de pensamento que conseguiam inclusive formular essas questões e, tal como ocorre com os demais humanos, não ter a mais remota ideia de como ia começar a respondê-las. Talvez essa grande quantidade de questões que me assolavam estavam vindo do fato de que eu era deixado muito tempo sozinho na infância, com muitas horas vagas para especular e especular novamente, formulando e reformulando questões e narrativas pessoais nas quais eu poderia abolir a previsibilidade do mundo convencional e me comportar de modo semelhante ou melhor do que aquele que testemunhava nas histórias em quadrinhos que me eram dadas para ler, ou nos filmes que podia assistir uma vez por semana no cinema perto de casa ou em bases mais frequentes na televisão, que tinha afinal horários muito restritos — e eu, outras obrigações e afazeres, de modo que o acesso também era limitado e controlado. Mas em tudo isso que estou contando o importante, me parece, é perceber — o que consigo agora, mas não sei bem se tinha essa consciência à época — que um garoto deixado sozinho por muito tempo vai desenvolver um lado muito introspectivo, ruminante e cheio de indagações, mas que não sabe para quem deveria formular, de modo que as ruminações sofrem quase sempre uma segunda rodada de reflexões e novas elaborações mentais. Na vida real eu poderia estar indo a pé para a escola todos os dias, mas na imaginação eu voava, o que em geral causava uma sucessão de espanto e admiração entre as pessoas que podiam testemunhar, muitas deles meus conhecidos ou amigos, todos se transformando muito rapidamente em admiradores instantâneos. Na imaginação os voos se davam sem qualquer dificuldade, enquanto na vida real o máximo que eu conseguia sair do solo eram as corridas até em casa, tão intensas que me deixavam o peito dolorido de calor e a pele do rosto avermelhada por muito tempo, enquanto o cabelo grudava na testa, cheio de suor. O mundo se oferecia para ser desbravado e a verdade é que o meu repertório limitado não me sugeria caminhos melhores para desfrutar dele do que aquelas corridas desenfreadas ou senão uma brincadeira na rua com amigos que se estendia até escurecer e que parecia ter a extensão do infinito, mas que na verdade estava apenas na casa dos minutos.

 

Âncoras da vida

Foto | Dave Jordano
Foto | Dave Jordano

 

 

Por não saber lidar com toda a intensidade de ser livre, apenas as plantas dos pés fixas no solo e todo o resto ao ar livre (livre!), o homem inventou contenções: roupas, cadeiras, paredes. Ele se restringe, apequena-se, para e reflete, cogita, anota, inútil e sedentário, alheio ao vento que esbarra na vidraça e é desviado. Você se lembra da tarde em que o sol se punha e você mergulhado num jogo de bola de vida ou morte (o coração aos pulos como se daquilo dependesse o destino do universo) no meio da rua — sua vontade era que o sol jamais se pusesse, o jogo jamais terminasse, prolongado por toda a eternidade e além — até que se tornou impossível ver a bola e a noite afinal demarcava o limite do horário para voltar para casa, tomar banho e jantar. O ciclo das estações, o intercâmbio das amizades, as flutuações das vontades, a intensidade concentrada que a vida possuía e que ganhou contornos mais dilatados com o passar dos anos, apaziguando angústias para ceder lugar a outras. A vida é besta, você é uma besta que fica relembrando o passado, ciente de que ele não volta e de que rememorá-lo não colabora, e lamenta as amarras, a quantidade de âncoras que o seu barco foi angariando pela vida afora.

 

pequenos desajustes no tempo

foto | elena alhimovich
foto | elena alhimovich

 

 

achou que seria livre, quando crescesse. faria o que e quando lhe desse na telha sem adultos a lhe toldar as vontades. ansiou por crescer e cresceu. hoje lamenta a falta de tempo para fazer o que quer, porque está preso a compromissos, horários e responsabilidades que os adultos são obrigados a assumir, sob pena de não conseguirem sobreviver. acha que era livre quando pequeno e corria pela rua em brincadeiras com os amigos.

 

passado e hoje

foto | david chance fragale
foto | david chance fragale

 

 

nondinhas colocou as mãos pequenas sobre a mesa e logo em seguida apareceram aqueles olhos pidões para os quais a avó tinha problemas de mostrar resistência. sem esconder o semissorriso ela perguntou, fingindo estar zangada: “o que é, menino?”. nondinhas disse, com aquela voz de criança irresistível: “queria comer um daqueles biscoitos de amor que você faz, vó”. os biscoitos são de nata, o adjetivo do espertinho é a malícia que ele sabe que tem chance de sucesso com a avó derretida. “se você contar para sua mãe que eu te dei biscoito antes do almoço”, a avó diz, enquanto abre a vasilha e entrega em seguida a rodela para o menino, “eu deixo de ser sua vó.”

no asilo onde a avó hoje passa os últimas dias, o senhor epaminondas, orelhas tão grandes quanto as do avô, observa as rugas nos cantos dos olhos dela, imaginando como será com ele, quando a hora chegar. “vó, a senhora se lembra de me dar biscoitos de amor antes do almoço?”, ele dá um sorriso triste. o alzheimer subtraiu a memória dela, deixou grandes buracos negros no cérebro, portanto ele sabe que a pergunta é retórica. “está na hora do seu remédio, vó”, ele diz, e lhe estende diretamente à boca um conjunto de pílulas, uma de cada vez, junto com goles de água de um copo americano. entre os remédios, desta vez, está a ricina que deve fazer efeito nas próximas vinte e quatro ou quarenta e oito horas. um fim misericordioso, ele acredita, para uma velha tão gentil que acrescentava à receita do biscoito um ingrediente secreto, o amor que a infância enxergava com olhos tão gulosos.