Lembrar a infância

Foto | Lorraine Healy
Foto | Lorraine Healy

 

 

Meu analista me recomendou que escrevesse a respeito de minha memória e da infância. Tudo o que você conseguir se lembrar, ele disse, sério. Pensei imediatamente no romance de Italo Svevo, A consciência de Zeno. Passei numa papelaria e, dessa vez obediente, investi algum dinheiro sério num bloco de anotações que me agradou, importado e caro como um fígado ou um rim. Era o primeiro passo rumo à cura para iniciar o tratamento. Ou rumo a mais deslavada invenção, porque decidi que iria me dar uma infância atribulada e aventuresca, bem diferente do que tinha sido na verdade, com orfanatos, fugas espetaculares, sequestros, abduções, reviravoltas. Se minha doença não tiver cura — verdade é que de fato não creio que exista, é crônico e insolúvel meu problema —, pelo menos posso angariar algum reconhecimento como escritor de falsas memórias e lançar uma carreira literária, quem sabe. Então, a elas.

Tudo começou em…

 

Razões da ficção

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Por que você tem essa necessidade de ficção, de criar problemas alheios, depois escarafunchar neles como um dedo que remexe a casca que se formou sobre o machucado? Qual é, sinceramente, o prazer mórbido que você sente em projetar nos outros os problemas que afinal são seus? E, se me permite acrescentar, qual é a vantagem que as pessoas poderiam esperar obter com a leitura de todas essas narrativas que você insiste em criar, como se já não houvesse problemas demais por conta própria no mundo real para resolver? Você acredita que ler os problemas pessoais projetados num personagem inventado de algum modo ajuda as pessoas a perceberem a verdadeira dimensão do que estão atravessando? É por isso? Eu sorri para ela, procurando adivinhar o quanto havia de angústias pessoais envolvidas naquelas perguntas lançadas de uma só vez como se fossem balas de metralhadora e o quanto ela estava apenas sendo gentil e levantando as bolas que eu passaria a cortar como se fosse o melhor jogador de vôlei que já existiu. Então perguntei de volta: você tem quanto tempo?