Sobre o otimismo

grãos-de-café

 

 

Adquiriu otimismo como se adquire uma doença: de maneira inadvertida e indesejável. Dizia não ter forças para evitar ver o lado bom e promissor das coisas. Eu olhava em volta e via tudo se desmoronando: guerras, conflitos, ambições desmesuradas, corrupção e não me restava alternativa a não ser achar que o meu amigo estava louco. Ouvi-lo falar do copo meio cheio tornou-se tormento e em mais de uma ocasião me vi forçado a conter meus punhos para não lhe dar um soco. Era irritante demais aquela posição que ele adotou: era improvável a não ter mais fim e no entanto estava lá. Então um dia eu e os que se irritavam junto comigo pudemos respirar aliviados, o que nosso amigo tinha era realmente um distúrbio cerebral que lhe provocava o otimismo exacerbado, ele foi diagnosticado. O que não foi surpresa: meu amigo recusou-se à cirurgia oferecida, que poderia lhe restabelecer a correta dimensão da realidade. Preferiu manter o filtro que a doença lhe proporcionava e não tive remédio menos amargo a não ser apoiá-lo na decisão e continuar me irritando com ele e com o otimismo inabalável. Faria de tudo para disfarçar minha inveja.