Cadê Teresa

Foto | Jenny Gage e Tom Betterton
Foto | Jenny Gage e Tom Betterton

 

 

Também podemos chamar outro nome, ou em outro lugar.

Italo Calvino — Um general na biblioteca

 

As mãos em concha, o prédio em Brasília, gritei para o último andar:

— Teresa!

Apareceu alguém para me ajudar e depois mais um. A solidariedade do grito, achei bacana. Contava um, dois e três, depois juntos escandíamos:

— Te-reeee-saaa!

Alguém teve a presença de espírito de perguntar se o interfone estava quebrado. Acenei com a cabeça e disse: é capaz.

Até que alguém se deu conta.

— Você não mora aqui, nem ninguém chamada Teresa. Você só está imitando o que leu num conto do Italo Calvino. Eu conheço o livro, me lembro disso.

Como eu confirmasse, com a cara mais lavada do mundo, eles se foram, me chamando de cretino e farsante, entre outras coisas. Parecia que ela estava só esperando que todo mundo se dispersasse, como se fosse a pessoa mais tímida deste mundo. Teresa apareceu na janela, sorriu para mim e se inclinou para que eu a ouvisse melhor:

— Sobe, vou abrir.

 

Circuito em curto

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É verdade que Italo Calvino andou dizendo da minha primeira obra umas palavras gentis, chamou-me de inclassificável e fez soar como elogio. Depois os argentinos me procuraram, queriam lançar numa edição da Eterna Cadencia uma coleção de contos que viria junto de uma novela, sob o título geral de Manter distância. As negociações não avançaram, previ que se publicasse em Buenos Aires daí a pouco me procurariam os chilenos, os uruguaios e minha vida iria virar de ponta cabeça, sem sossego. Gosto do anonimato, dos contos que reproduzo em cópia barata e distribuo a esmo por aí, sem critério. Franco-atirador literário, nada de compromisso. Outro dia menti que tinha traduzido um livro do László Krasznahorkai, mas era um romance meu mesmo, a verdade é que nem falo húngaro. Teria sido mais fácil apresentar um livro meu como sendo a tradução do argentino César Aira, mas nesse caso teria sido mais rápida a descoberta da empulhação. Importante é divulgação, meus livros sob auspícios da fama alheia. O problema dos escritores é que são cambada de certinhos, cheios de pruridos e preocupados com fronteiras éticas. Por isso nem atendo quando dizem que é um escritor que me procura. Não estou, mando dizer. Não tenho paciência com esses tipinhos, todos melífluos, cheios de conversinha com rendas nas pontas. Que se fodam, eu digo, não atendo. Todas as éticas caíram junto com o muro de Berlim, seus idiotas. Os tontos ainda perdidos. Não aguento. Vou me virando como posso, vivo de expedientes, pequenos golpes, fraudes precárias. Acho crime profissionalizar o crime, como fizeram os políticos brasileiros. Mantenho a cabeça abaixo do radar e vou. Literatura trato a pontapés e quanto mais mambembe, mais me interesso. Escritores de verdade são os que viraram fantasmas, óbvio que nem todos. Talvez escape entre os vivos aquele sujeito da Noruega, Karl Ove Knausgård, que não tem papas na língua para falar mal da própria família, esse é possível respeitar. Boçais, os escritores. Mendigam publicações, concorrem a todos os prêmios, amam noites de autógrafos, frequentam felizes festivais literários nos quais arrotam sapiência e sensatez, sempre jogando as melhores frases para a plateia (no subtexto: gostem de mim, comprem meus livros). Que triste. Entram para o circuito, se esquecem que literatura só funciona em curto. Respeito escritores que levam a sério o ofício, sobretudo quando se matam. Morrer de velho é a tragédia da literatura, sua longa e histórica agonia. Ainda bem que os leitores vão escasseando, isso me dá o alento de que preciso para continuar mais um pouco, até que chegue a minha hora. Entro para o sistema, se minha cretinice falar mais alto e alguma oferta generosa aparecer — o sistema comporta e precisa de alguém com meu modelo de perfil —, ou entro em curto e me mato de uma vez. São minhas opções.

 

a quinta proposta

Revellers play with fireworks in an enclosed area on the main street of the village of Paterna near Valencia during the annual "Corda" festivity

 

 

as coisas que você escreve são tão diferentes umas das outras, ela disse. contos, romances, ensaios, só falta poesia para completar o pacote. sorriu. além de editar esse tanto de coisa que você edita, disse ainda. ele estava mesmo orgulhoso da variedade e abrangência dos textos e do resultado que tinha conseguido atingir. escrever é uma forma de redenção, embora não católica. redenção da vida, talvez. então declarou, lembrando do tema da multiplicidade decorrente de uma série de palestras pronunciadas por aquele escritor italiano, a convite de harvard: eu sou a quinta proposta do calvino. e porque estavam felizes, riram juntos.