As coisas não se ajeitam

Arte | Marc Folly
Arte | Marc Folly

 

 

Abri a porta do escritório e Lauro estava com a miniatura de rastelo na mão, fazia desenhos na areia do jardinzinho japonês. Ele levantou os olhos. Você é um cretino, eu disse. Ele não se abalou, claro. Nesse nosso ramo ser chamado de cretino é o mínimo que acontece. Lauro levantou a sobrancelha. O que foi?, indagou. Elisa me contou o que aconteceu, falei. Ele voltou a chafurdar a areia, como se fosse revelar o segredo escondido ali. O que foi que ela te disse que aconteceu?, ele quis saber, como se fosse simplesmente mais uma conversa protocolar ou eu fosse apenas mais um cliente chatonildo a quem se deve explicar o básico da linguagem publicitária. O que ela me disse?, fiquei indignado, ou o que realmente aconteceu? Ou você não passou uma cantada nela, seu filho da puta? Ele voltou a erguer os olhos de peixe morto. Ia adiantar se eu contasse a verdade?, ele disse. Que ela me cantou e quando eu disse não ela ficou puta e disse que ia se vingar e inventar uma história a meu respeito para você, só para me sacanear? Bem, foi isso, ele acrescentou. É uma boa historinha essa sua aí, eu disse. Pena que não cola comigo. Pois é, ele disse, pena mesmo, porque você no máximo ia ficar pensando no que foi, no que não foi, e a tendência vai ser acreditar nela e me tratar como o cretino que sou. Mas não nesse caso. Para minha sorte, ou porque sou inteligente e prevenido, gravei a conversa. Ele puxou do bolso o gravador, colocou-o sobre a mesa e ergueu de novo a sobrancelha: quer que eu ligue? O resto foi como se pode imaginar, a prova de que a cretinice não é prerrogativa exclusiva de publicitários no exercício da profissão.