Um último recado

Imagem | Nathan Ford
Imagem | Nathan Ford

 

 

Antes que vocês se dispersem, eu gostaria de dizer, eu disse. E olhei a cada um deles nos olhos. Eu gostaria de dizer, repeti, depois da pausa dramática, que o problema da literatura brasileira são vocês, os leitores. Como assim, nós?, uma moça de cabelo comprido e pintado artificialmente disse, tornando-se porta-voz automática do grupo. Não fizemos nada, ela acrescentou, desafiadora, eu diria até que irritada. Pois justamente, rebati, não fizeram nada, e é bem por isso que as coisas estão como estão. Eu tinha engasgado uma vontade de dizer que a falta de leitores era o grande desestímulo do escritor brasileiro. Mas achei que ficava bem deixar as coisas no pé em que estavam e por isso me abstive de acrescentar qualquer coisa. A culpa da literatura brasileira estar como está é de vocês não lerem, aí ela não pode crescer, dizer coisas importantes e profundas, fica assim rasa, superficial, boba. Havendo leitores e cobranças, a literatura se veria forçada a melhorar para agradá-los. A culpa é inteiramente de vocês, bradei, dessa vez me dirigindo a eles, e agora me deixem em paz que quero pensar.

 

Como vão os escritores

guarda-chuva-vermelho

 

 

1

Os escritores sempre se dão bem. Escrevem sobre crises, problemas, confusões e tudo isso é o que também os leitores têm em suas vidas e portanto procuram nos livros conforto ou solução ou, na hipótese mais modesta, pelo menos compreender que não estão sozinhos com os próprios dramas, mapeados de forma tão competente no texto.

 

2

Os escritores sempre se dão mal. Expõem em público as inquietações, problemas existenciais, as confusões em que se metem e o modo estranho e peculiar com que enxergam o mundo e depois, quando os leitores os ignoram ou buscam os concorrentes mais habilidosos, embriagam-se e se queixam aos amigos que ninguém nesse planeta perdido entre galáxias é capaz de compreendê-los.

 

parem as máquinas?

foto | ángel franco


texto: paulo renato souza cunha

peço para que o leitor dê uma boa olhada na fotografia acima, pois os belos espécimes registrados nessa imagem tornaram-se objetos de museu (ou de bibliotecas, que, no fim das contas, dá praticamente no mesmo): depois de 244 anos, a encyclopaedia britannica não será mais impressa em larga escala. agora, os volumes que ajudaram meus antepassados nos trabalhos escolares terão apenas versões online e brochuras sob demanda para fins acadêmicos. isso tudo virou notícia nos principais periódicos do planeta e reabriu uma discussão bastante válida: novas mídias significam novos leitores?

antes de mais nada, meu nome é paulo renato souza cunha, editor do blog fora da baleia e ser humano nascido nos anos 1980: época em que os computadores eram peças enormes, difíceis de lidar e utensílios tipicamente relacionados aos rapazes astutos com óculos de garrafa. assim como meus colegas de turma, gostava de me preparar para os exames da escola revisando matérias (principalmente história e geografia) com a ajuda das páginas de uma britannica. contudo, nas décadas seguintes, conhecemos os sistemas de buscas, o google, o youtube, a wikipédia e um mundo de informações disponível na internet. desde então, não foram apenas as enciclopédias tradicionais que começaram a ser abandonadas, mas qualquer coisa feita de papel: jornal, livro, manual de instruções, cartas… e contando.

(…)

no ensaio a literatura em perigo (difel, 2010), o escritor búlgaro tzvetan todorov se enfeza porque os professores contemporâneos, de um modo geral, parecem levar em alta conta apenas as funções gramaticais do texto — os chamados elementos internos das narrativas — e acabam se esquecendo daquilo que, neste caso, deveria ser o mais importante: a tentativa de compreender o outro através das palavras. todorov defende que “a literatura, assim como as ciências exatas e a filosofia, ajuda no processo de decifrar a realidade e a lidar melhor com o nosso egocentrismo”. portanto, a escolha entre este ou aquele embasamento passa a ser crucial para o futuro do gênero literário (se uma atividade prazerosa ou meramente estruturalista). os livros de todorov são cativantes, recomendo todos. no entanto, antes de estudar como ler, acho que precisaríamos refletir sobre quem de fato lê.

(…)

acompanho atenciosamente as transições dos materiais impressos para os meios eletrônicos — o fim da encyclopaedia britannica encadernada, evidentemente, faz parte desse processo. fala-se muito sobre a facilidade dos computadores, do bem-estar da leitura, do livro num simples toque de dedos. todavia, tenho minhas dúvidas se tanta facilidade operacional mudará o vigente panorama de êxodo literário. meu ponto é este: se a pessoa não lia livros de papel, não acredito que passará a ler por causa de ipads, laptops, tablets, telefones modernos e relacionados. temos aqui um problema educacional: aprender a gostar de ler. a tecnologia é apenas um detalhe ou, no pior dos casos, uma cortina de fumaça.