Para o buraco

Imagem | Giorgio Ortona
Imagem | Giorgio Ortona

 

 

O país está indo para as cucuias, mas quando é que não não esteve?, ele pensou. Não se afunda um país, é impossível, as pessoas sempre dão um jeito de se reinventar, de juntar os cacos, de colar os fragmentos. Mas sempre que abre o jornal e se põe a ler, tem a impressão de que a coisa está feia, está piorando, fica mais decadente e acintosa. Mas então decide ser honesto e olha bem o rosto no espelho. O que está indo para as cucuias é você, meu caro, ele diz para a imagem no espelho, que lhe dá um sorriso melancólico de volta.

 

Um último recado

Imagem | Nathan Ford
Imagem | Nathan Ford

 

 

Antes que vocês se dispersem, eu gostaria de dizer, eu disse. E olhei a cada um deles nos olhos. Eu gostaria de dizer, repeti, depois da pausa dramática, que o problema da literatura brasileira são vocês, os leitores. Como assim, nós?, uma moça de cabelo comprido e pintado artificialmente disse, tornando-se porta-voz automática do grupo. Não fizemos nada, ela acrescentou, desafiadora, eu diria até que irritada. Pois justamente, rebati, não fizeram nada, e é bem por isso que as coisas estão como estão. Eu tinha engasgado uma vontade de dizer que a falta de leitores era o grande desestímulo do escritor brasileiro. Mas achei que ficava bem deixar as coisas no pé em que estavam e por isso me abstive de acrescentar qualquer coisa. A culpa da literatura brasileira estar como está é de vocês não lerem, aí ela não pode crescer, dizer coisas importantes e profundas, fica assim rasa, superficial, boba. Havendo leitores e cobranças, a literatura se veria forçada a melhorar para agradá-los. A culpa é inteiramente de vocês, bradei, dessa vez me dirigindo a eles, e agora me deixem em paz que quero pensar.

 

Ruínas da literatura

xícara-de-café

 

 

Ele escolheu ser escritor na época errada, quando a literatura enquanto novidade tinha se tornado obsoleta e as pessoas continuariam a ler apenas até perder completamente o impulso. Inércia, explicaria o físico, numa única palavra. Mesmo assim, ele acreditava que conseguia captar a grandeza do projeto, a literatura era como aqueles bustos de membros decepados que os gregos construíram por inteiro há milhares de anos e cujas ruínas eram admiradas hoje, sobretudo pelo poder de evocação que uma peça deteriorada pela ação do tempo provoca: o passado tem importância e um recado que merece ser ouvido. Mesmo assim, ele não iria desistir, simplesmente porque aquela atividade é que o ajudava a definir a pessoa que ele era no mundo, em ruína ou não.

 

Uns mergulhos

 

garotinha

 

 

Comecei a ler às quatro da tarde. Embora a frase não seja minha nem corresponda à hora exata em que comecei a leitura, nem por isso é menos verdadeira. Às oito ainda estava lendo. Era um livro grosso, os capítulos aparentemente intermináveis — eu passava as páginas não lidas para verificar. Entretanto, ao começar, esqueci-me completamente do tamanho e me vi envolvido nessa outra dimensão, na qual o tempo não conta mais, porque não importa: estava mergulhado no assunto, profundamente absorto pelos temas do sujeito, a família, os amigos, as crises que lhe abalavam a consciência, as ponderações feitas, as conclusões a que chegou. Sabia, por experiência própria, que nada era mais difícil do que escrever daquele jeito aparentemente fácil, com aquela fluência que me envolvia como um cobertor quando sinto frio. Lembrei-me de um sujeito que falava em ambiência, em atmosfera, para descrever esse clima (interior) que existe em volta de certas obras literárias cheias de determinada qualidade, de uma qualquer coisa que convence a muitos e muitos leitores que estão diante de um livro que consegue ser ao mesmo tempo aconchegante, conhecido, e estimulante e estranho. Quando ergui a cabeça e vi que teria de enfrentar novamente a realidade e suas demandas e apelos tão pedestres, quis abaixá-la em seguida, mas era tarde, algo havia se perdido e a porta se encontrava fechada.

 

Engrenagens

cafeteira

 

 

Um homem lê um livro, sentado à mesa da cafeteria, que tem ao lado um parque infantil cujo objetivo é atrair a clientela que tem filhos. O livro é Matteo perdeu o emprego, esse estranho relato de Gonçalo M. Tavares. Pela janela, o homem percebe que num jardim localizado dentro da cafeteria, na área externa onde fica o parque, um outro homem trabalha. Agachado, sua tarefa é recolher pequenas pedras brancas e encher uma espécie de balde quadro, amarelo e com rodinhas. Branco sobre amarelo. O homem tem um boné que também é amarelo, a camisa em preto e branco de um time de futebol, jeans e bota de cano curto e sola emborrachada. Ele já recolheu metade da área, um desenho em diagonal. Junta um punhado de pedras na mão, seixos, e as joga no balde, fazendo com isso um barulho de pedra contra plástico, seco e curto. Não se sabe o que estará no lugar, quando todas as pedras forem recolhidas. Não se sabe para aonde serão levadas, se enfeitarão outro jardim e qual. A brancura das pequenas pedras é algo muito peculiar. Enquanto lê o livro, o homem às vezes se interrompe e observa o outro a trabalhar. Inquieta-lhe que esteja ali, a fazer uma atividade prazerosa e agradável enquanto do outro lado do vidro aquele sujeito trabalha, mas o mundo é desigual e injusto e se fosse levar essa preocupação a extremos, é possível que o homem jamais se dedicaria a ler, e no entanto é justamente isso o que ele faz. Então pensa que o homem que recolhe os seixos na verdade pretende usá-los para entrar em algum tipo de labirinto. Usará os seixos para deixar o caminho atrás de si e, ao contrário do que acontece na fábula em que as crianças usam migalhas de pão, não terá o material subtraído. É a esperança do homem, não se perder. Mas a questão se torna outra: onde encontrar um labirinto no qual possa usar as pedras brancas.

 

quantos olhos

foto | frank kanters
foto | frank kanters

 

 

tenho dois pares de olhos. dois olhos que uso para ler, dois para escrever. o problema é quando uso os olhos para ler na hora de escrever. o problema também se dá quando uso os olhos de escrever para ler. os olhos para escrever são um tanto míopes, os de leitura alcançam lá na frente. depois que escrevo, tento usar os olhos de leitura para enxergar os erros, que se multiplicam e me revelam toda a miopia. deveria procurar um oculista que me ajustasse os quatro olhos ou quem sabe um cirurgião que me removesse dois.

 

cartografia do latido

espaços

 

 

a voz de alguém que fala mais alto do que devia sobe pela varanda, pula a grade e me entra pelo ouvido como um ladrão. não distingo o que é dito, apenas a voz, a entonação alterada. um cão também puxa um discurso incompreensível, cheio de réplicas dos cães vizinhos. o que comunicam uns aos outros tão excitadamente não se sabe ainda, talvez apenas postulados de manutenção territorial. esse é meu carnaval de semi silêncios, mezzo barulhos. tento avançar na leitura do romance, enquanto a consciência dá pulos meio bestas e insiste numa velha marchinha, lança confete, sorri cheia de sedução, saracoteia. minha consciência, concluo, não vale um níquel, por sorte ainda estou no controle e meus pés e a barriga continuam a se recusar qualquer movimento.

 

fábulas rabelaisianas

foto | sverrir thorolfsson
foto | sverrir thorolfsson

 

 

ler gargântua e pantagruel é submeter-se a provocações mentais sem fim. um brinde eterno à françois rabelais. de modo que a sequência de narrativas que se seguem são inspirações desse protorromance fundamental.

 

1.

era preciso lhe lançar uma escada ou corda, para que saísse do buraco em que havia se metido. pode ser, disse, mas também me contento se for um livro bom e uma lanterna.

 

2.

melhor ser cornudo do que ser solteiro, comentou o diabo, cheio de maledicência.

 

3.

mudo de inveja, sagaz feito lince, plantou duas piruetas e suplantou o oponente, que nem era dado a invejas nem tinha sagacidades.

 

4.

para o diabo que te carregue, vociferou. mas, feitiço que vira, foi a ele que o diabo veio buscar.

 

5.

ele tinha frio, um palito de fósforo e um pergaminho que jamais traduziria e que o aqueceu muito bem, impedindo que qualquer outro pudesse tentar a tradução.

 

6.

sou míope de um olho só, ele comentou. e o outro?, ela quis saber. é tão bom quanto meu coração, ele disse. depois do enfarte fulminante, ela soube que ele estivera mentindo.

 

7.

bela, essa vitória dedico a ti, ele disse, pondo-se de joelhos diante dela. depois lhe invadiu a cidade, matou-lhe os parentes, amigos e conhecidos e reclamou para si direito sobre a mão dela —- embora não tivesse mais a quem pedir.

 

8.

biltres, com voz rouca ele disse a todos, que eram conhecidos. o olhar fulminante. sobre o palco, os amigos perdoam esses xingamentos de araque, eles que também estão no elenco.

 

9.

em março tudo acaba, ela suspirou. aquele seria um abril como previsto no poema de t. s. eliot, o mais cruel dos meses.

 

10.

ergam seus copos, ele proclamou, pois perdemos a batalha e parte da honra, mas mantivemos a vida e precisamos beber hoje e descansar e amanhã teremos forças para novas batalhas, pois na vida há que ter esperança sempre, mesmo com a certeza de que o último inimigo já venceu.

 

11.

não declino meu nome, mas a vontade: quero seus lábios junto aos meus, nossas pernas duplicatas, o tempo pode suspender a contagem e a felicidade se lance sobre nós para nos cobrir.

 

12.

na dúvida se o sexo era divino ou invento da oposição, acenderam uma vela a deus e outra ao diabo. depois, aliviados e sem culpa, entregaram-se com volúpia aos prazeres do corpo.

 

13.

bebeu e desatou a língua. bebeu de novo e de novo e ela ficou tão bamba que não se podia mais entender o que era articulado em câmara lenta.

 

(p.s.: ali na 11 eu quis dizer duplicata, mesmo. faço o registro só para não restar dúvidas)

 

ler = voar

o fotógrafo steve mccurry publicou uma série de fotos de pessoas lendo, de várias partes do mundo. leitura é o que há. o resto é firula. reproduzo algumas das imagens aqui, em homenagem aos múltiplos leitores das boas obras no mundo inteiro…

 

burma

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

alemanha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

índia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

tailândia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

burma

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

frança

 

 

 

 

 

 

 

 

 

iêmen

 

 

 

 

 

 

 

 

 

desformulado

 

 

texto e foto: paulo renato souza cunha

não me lembro quando exatamente comecei a levar a literatura a sério — largar os gibis, os volumes ilustrados com frases rimadas, essas coisas —, mas deve ter acontecido depois que passei a ler as obras dos irmãos grimm. invadia a biblioteca do meu avô e ficava horas lendo (e relendo) as fábulas de jacob e wilhelm. era tudo muito fantástico: os textos, a penumbra da sala, o cheiro de papel, a adrenalina de fuxicar os livros do vovô sem a permissão do mesmo.

depois, já com os portões da minha jornada romanesca escancarados, escutava de gente importante que ler é uma tarefa árdua, difícil, meticulosa, que o leitor precisa seguir uma espécie de roteiro complexo para consumir livros. difícil recordar como li os contos dos grimm, mas, posso garantir que não tive nenhuma aula preparatória com passo a passo ou algo parecido. minha leitura despretensiosa foi um combustível para sair em busca de outros autores. felizmente, iniciei essa viagem sem nenhum método exótico na mochila — isso teria me assustado, na verdade.

no século 18, o filósofo iluminista voltaire costumava reclamar: lê-se muito pouco e muito mal. quase duzentos anos depois, a frase parece não ter envelhecido. mas a culpa é menos dos leitores do que das fórmulas miraculosas que tentam impor aos iniciantes em literatura. não existe o jeito certo-universal-de-ler, mas várias maneiras particulares e adaptáveis: que a busca seja prazerosa, sem terrorismo.

 

parem as máquinas?

foto | ángel franco


texto: paulo renato souza cunha

peço para que o leitor dê uma boa olhada na fotografia acima, pois os belos espécimes registrados nessa imagem tornaram-se objetos de museu (ou de bibliotecas, que, no fim das contas, dá praticamente no mesmo): depois de 244 anos, a encyclopaedia britannica não será mais impressa em larga escala. agora, os volumes que ajudaram meus antepassados nos trabalhos escolares terão apenas versões online e brochuras sob demanda para fins acadêmicos. isso tudo virou notícia nos principais periódicos do planeta e reabriu uma discussão bastante válida: novas mídias significam novos leitores?

antes de mais nada, meu nome é paulo renato souza cunha, editor do blog fora da baleia e ser humano nascido nos anos 1980: época em que os computadores eram peças enormes, difíceis de lidar e utensílios tipicamente relacionados aos rapazes astutos com óculos de garrafa. assim como meus colegas de turma, gostava de me preparar para os exames da escola revisando matérias (principalmente história e geografia) com a ajuda das páginas de uma britannica. contudo, nas décadas seguintes, conhecemos os sistemas de buscas, o google, o youtube, a wikipédia e um mundo de informações disponível na internet. desde então, não foram apenas as enciclopédias tradicionais que começaram a ser abandonadas, mas qualquer coisa feita de papel: jornal, livro, manual de instruções, cartas… e contando.

(…)

no ensaio a literatura em perigo (difel, 2010), o escritor búlgaro tzvetan todorov se enfeza porque os professores contemporâneos, de um modo geral, parecem levar em alta conta apenas as funções gramaticais do texto — os chamados elementos internos das narrativas — e acabam se esquecendo daquilo que, neste caso, deveria ser o mais importante: a tentativa de compreender o outro através das palavras. todorov defende que “a literatura, assim como as ciências exatas e a filosofia, ajuda no processo de decifrar a realidade e a lidar melhor com o nosso egocentrismo”. portanto, a escolha entre este ou aquele embasamento passa a ser crucial para o futuro do gênero literário (se uma atividade prazerosa ou meramente estruturalista). os livros de todorov são cativantes, recomendo todos. no entanto, antes de estudar como ler, acho que precisaríamos refletir sobre quem de fato lê.

(…)

acompanho atenciosamente as transições dos materiais impressos para os meios eletrônicos — o fim da encyclopaedia britannica encadernada, evidentemente, faz parte desse processo. fala-se muito sobre a facilidade dos computadores, do bem-estar da leitura, do livro num simples toque de dedos. todavia, tenho minhas dúvidas se tanta facilidade operacional mudará o vigente panorama de êxodo literário. meu ponto é este: se a pessoa não lia livros de papel, não acredito que passará a ler por causa de ipads, laptops, tablets, telefones modernos e relacionados. temos aqui um problema educacional: aprender a gostar de ler. a tecnologia é apenas um detalhe ou, no pior dos casos, uma cortina de fumaça.

leitura

 

 

joshua cohen, trecho de  minha ponte aérea para berlim, publicado no the new york times e livremente traduzido por mim:

 

“tomando trens e bondes em berlim, percebi: pessoas lendo. livros, quero dizer, não aparelhos tamanho de bolso que apitam como se fosse uma censura, nos quais mesmo shakespeare se parece com planilha eletrônica. os norte-americanos compram mais da metade de todos os livros eletrônicos vendidos internacionalmente — a não ser que os europeus estejam voando regularmente para os estados unidos com o único propósito de baixar o material dos endereços de i.p. norte-americanos. […] comecei a perguntar para os artistas de diferentes origens a minha volta o porquê daquilo. era duas da madrugada, na soho house, um clube privado que eu frequentava. um artista de instalações disse, ‘norte-americanos gostam de livros eletrônicos porque são mais fáceis de comprar’. um artista de performances disse, ‘também são mais fáceis de não se ler’. bom o bastante: sua presença não te lembra o que você está perdendo; eles não ocupam espaço em prateleiras.”

 

comentário em p.s. meu: enquanto isso, no brasil, não vejo pessoas lendo a não ser em bibliotecas (e mesmo aí…), o que também é sintoma.

 

homem de papel

imagem de pablo emílio

essa imagem foi feita especialmente pelo meu grande amigo pablo emílio, para ser usada durante a leitura do capítulo do romance. mas não deu para projetar, a tela ficava no meio do palco.

eis para leitores virtuais. ele bolou um belo conceito, que pode ser usado numa eventual capa (já me comprometi em público que, sim, uma vez pronto o romance será submetido à impressão, caso eu encontre editor, bem entendido). aliás, os neps (membros do núcleo de estudos do perfil) arrasaram, comparecendo maciçamente, com honrosa exceção de sarita, que estava em fechamento de jornal, enfim, coisa de gente responsável.

para completar o cenário, foi uma noite formidável, que me deixou contente e cheio de ideias. agradeço a todos que foram, aos amigos que colaboraram para o sucesso do evento.

desse lado do ringue

atividade solitária, a do escritor (por favor, sem analogias indébitas).

fica ali, à margem, no escritório, diante de si mesmo, ideias, planos, projetos, textos incompletos ou que só muito lentamente ganham algum fôlego. um pobre-coitado, mas só quem sente pena de si é ele.

o texto, por sinal, fica inconcluso até que, por exaustão, o escritor decide que é chegada a hora de entregá-lo ao mundo.

ao chegar ao leitor se fecha o circuito, finalmente o texto ganha vida.

mas o escritor, desolado e sozinho no escritório, nem sabe disso, preocupado com o próximo livro… é um boxe a distância, perdido desde sempre pelo autor, desafiante eterno e incompleto.

criações

ler não me deixou mais inteligente ou mais bem preparado para a vida. no entanto leio e a leitura me provoca grande quantidade de prazer. transfiro minha mente para essa dicção alheia que articulou a trama e percebo semelhanças e diferenças na conclusão da história, entre o que está escrito e o que eu mesmo poderia fazer se fosse eu o autor. surpreendo-me com as ideias discutidas, reviravoltas na trama, mas sobretudo penso nesse modo estranho com que as ideias do autor dialogam com as minhas, esse modo silencioso e breve, praticamente irreprodutível. a raiva explosiva dos romances de philip roth ou a longa ladainha (mas envolvente ainda assim) que surge das páginas de um josé saramago, as reflexões narrativas que são a base dos livros de enrique vila-matas ou mesmo o tom entre irônico e melancólico de um machado de assis apresentam para mim aspectos variados e interessantes a respeito de como enxergar e estar neste mundo, com os quais encontro afinidades ou discrepâncias. nos momentos em que os leio sinto-me em muito maior sintonia com esse ambiente onde eles articulam essas histórias — esse mundo eminentemente literário, constituído de palavras sobre papel — do que com o mundo concreto e real que tenho a volta de mim.

poderia escrever um livro a respeito de alguém que, de tanto gostar de ler, por preferir essa vida ficcional à real, um dia se transforma em personagem de ficção e passa a interagir com outros personagens de ficção, como se pudesse morar nos livros. essa interação se faz, a princípio, de modo que ninguém perceba. afinal, quem lê pela primeira vez um madame bovary ou um moby dick não sabe o que vai encontrar ou, se sabe, sabe apenas em linhas gerais, sem necessariamente conhecer os pormenores. por exemplo, o número e o nome de personagens secundários.

assim, esse personagem pode aparecer como secundário aqui e ali e não ser percebido durante muito tempo. até que um dia um especialista volte a fazer a leitura de um livro clássico (porque sim, esse meu personagem escolheu começar o passeio pelos clássicos) para um estudo que pretende realizar e se dê conta de que a história está diferente do que lembrava. há um personagem novo que não se recorda que existia antes.

adendo: este livro pode se chamar o leitor, ou paixão pelos livros, quem sabe realidade abdicada ou o homem de papel. o livro poderia ser uma espécie de retratos de fidelman, o romance em contos de bernard malamud, ou lembrar em alguns aspectos a sequência do sujeito que mora em pinturas clássicas no filme sonhos, de akira kurosawa. no mínimo, deve mencionar essas hipóteses, bem como as várias situações em filmes de woody allen em que essa interface entre mundo ficcional e real se estabelece.

adendo 2: isso que acabei de escrever aqui mistura ensaio com ficção e pode ser um novo gênero que acabo de criar, o ensaio narrativo.

vivo

teresa d’ávila lamentou quando foram proibidos nos conventos femininos a leitura de livros de edificação em vulgar, “porque a leitura de alguns me causava deleite”, mas aí, segundo o relato dela, o senhor apareceu para lhe dizer “eu lhe darei um livro vivo”. não sei o que isso quer dizer, mas é bonito.

sobre ler 1

nem tudo o que leio permanece comigo. a memória é extremamente seletiva e me permite reter apenas o quadro geral. no entanto, acumulo leituras e consigo estabelecer conexões — entre personagens, tramas, temas, enredos, abordagens. quando morrer, porém, tudo se perderá. também por esse motivo, cada novo leitor é o leitor original, o leitor primeiro, que deve iniciar o processo todo

sobre ler 2

a leitura é uma pausa. é como se eu pudesse interromper o fluxo da vida — que é repelente à reflexão — e conseguisse me dedicar ao pensamento. curiosamente, seria um pensamento duplo, porque o do autor e o meu, que leio e penso enquanto leio. às vezes penso no que leio, às vezes na vida, nas atribulações. de qualquer forma, ler é pausa e alívio. por isso, leitura é das maiores riquezas de que disponho.

sobre ler 3

também tenho meus dias de fastio, a sensação malarmaica de que “li todos os livros”. mas isso passa rápido. por esses dias, doei duas caixas de livros à biblioteca. ofereci mais, mas parece que não houve interesse. tenho dois lados em conflito nessa questão. um diz: “você precisa de espaço em casa”, “acumular não é bom”; outro, mais sutil, sugere: “livros devem circular e biblioteca é o local certo para isso”, “encare isso como investimento no futuro. você sempre quis ser trancado numa biblioteca. que felicidade se a biblioteca contiver exatamente os livros doados, que você nem leu ou, se leu, pode reler, porque sua memória insiste em te trair”.

sobre ler 4

aquele que lê cria um mundo fantasioso na imaginação tão real que passa a vivê-lo (D. Quixote é o protótipo, mas serve para mim, por exemplo). Aquele que não lê enxerga o mundo tal qual é, duro e seco (Sancho Pança, mas também qualquer não-leitor). A leitura pode levar à loucura, mas será loucura branda e simpática, loucura suave cuja fantasia é consertar o que há de errado no mundo, ou seja, quase tudo. fato é que a leitura abre um leque de possibilidades de interpretação, portanto gera indecidibilidade (hamlet responde a polônio, que lhe pergunta o que lê: “palavras, palavras, palavras”). ler liberta do caminho reto das certezas do real.