20. Sobre anjos e fantasmas

Imagem | Nigel Van Wieck

 

Terno, barriga protuberante, careca a não ser nas laterais, onde o cabelo enrolado está também bastante grisalho, óculos praticamente enterrados num nariz largo, batatudo, com narinas que não acompanharam o desenho. Bigode, também grisalho. Nome maometano e sobrenome bíblico, ele é a própria confusão religiosa, Amir Salomão. Para confirmar, depois que acena a cabeça em minha direção dispara a pergunta: você acredita em anjo? Não, eu digo, sendo honesto, e tentando não sorrir de deboche. A vontade era perguntar, e o que um marmanjo como você faz ainda acreditando? Por acaso também crê em duendes e fadas? Vamos lá, estou tentando apenas averiguar até onde vai o seu grau de maluquice. Mas me contenho. Ele na verdade está interessado em me vender um anjo, ou melhor, um livro que determina qual anjo me protege e o que isso significa. Eu imagino que deva ser tão ruim quanto a imagem da capa me deixa adivinhar. Mas, claro, não estou interessado e digo isso a ele de maneira clara. Mesmo assim, dou corda, para ouvi-lo falar, entre outras coisas, de psicotelemetria, o que quer que seja isso, e de ectoplasmas, o que me é mais familiar em termos de conceito, embora eu também relegue à categoria das coisas inventadas, um pouco como meu passatempo nos percursos do metrô. A diferença é que minhas invenções mantenho para mim, por enquanto, e as dele estão sendo vendidas como cura suficiente para almas em sofrimento, ou qualquer coisa nessa linha. Ele diz que pode ver o futuro, previu quedas de avião e incêndios em prédios, tudo para dizer que se o mundo chegar a dois mil e dezenove sem uma terceira guerra mundial, dará um salto de qualidade incrível. Mas se ele ainda não foi capaz de perceber que a terceira guerra já começou, só me restou ter certeza de que aquela vidência toda não passa de uma balela maior do que a barriga que ele projeta para frente como se fosse sintoma de abundância. Em algum momento, desliguei-me da fala que parecia mais autocongratulatória do que qualquer outra coisa. Deixa falar, me ensinou a minha mãe. Eu deixo.

 

19. Os misteriosos projetos do Senhor

Imagem | Matthew Grabelsky

 

Rodrigo foi padre numa outra vida. Excomungado, desviou-se ainda mais e acabou cometendo crimes. Foi enviado para um presídio e lá, pela primeira vez, achou que havia escutado de verdade a voz divina lhe assoprando o que deveria fazer, as condutas que deveria adotar e a preparação para os desafios que o aguardavam no futuro. Era um projeto radical, mas havia propósito e se ele soubesse se manter no bom caminho, tudo iria terminar bem. Foi solto, depois de cumprir os prazos determinados por lei e mais um pouco, por conta dos trâmites burocráticos que sempre levam mais tempo do que o necessário. Agora contempla pela janela desse carro de metrô as cores e formas verdes que lhe faziam falta enquanto estava interno. Hoje à noite cumprirá um dos três passos importantes do projeto que lhe foi delegado. Matará o bispo. Na sequência, e antes que consigam lhe dar o flagrante, há dois padres que também precisam a mesma atenção. Nenhum dos três, garantiu-lhe a voz do Senhor, conhecerá a mesa farta de alimentos do Céu. Todos irão padecer os martírios do Inferno, onde o ex-padre e reincidente, no futuro, irá reencontrá-los mergulhados em sofrimentos de toda ordem. Ele também não conhecerá o Céu, pois que a encomenda do Senhor não se encerra com a morte, e também ao Inferno é preciso enviar emissários. Aí começa a verdadeira provação da tarefa que recebeu.

 

18. Ninguém é a roupa que veste

Imagem | Hillel Kagan

 

Ela é jovem, cabelos pretos, óculos de aros escuros, pele muito branca, camiseta cavada que mostra, sobre a magreza dos ombros, duas tatuagens de corações pulsantes e sangrentos, possivelmente porque sofrem além da conta, feitos com várias cores diferentes. Viviane, ou Vivi, está de short vermelho ferrugem, tênis pretos, sem meias. No braço direito há outra tatuagem, uma flor rebuscada com muitas pétalas e um caule com espinhos. Houve tempo em que essa estampa teria provocado olhares de reprovação, agora não mais, trata-se apenas de uma jovem em deslocamento no metrô, possivelmente a caminho de casa, onde é amada pelos pais, embora ela julgue talvez que eles não a compreendam inteiramente. Nem as freiras que se sentam próximas a ela lhe lançam olhares atravessados. É a nova ordem da tolerância. Na verdade, as freiras estão preocupadas com questões administrativas da diocese e discutem os pormenores em meio a muitos gestos, com a animação de duas comadres que trocam fofocas. Quando uma delas deixa cair um panfleto, é a jovem Vivi, sentada próxima, quem se dobra para recolhê-lo do chão e devolvê-lo, num gesto gentil, à freira, que dá um sorriso constrangido, de quem não esperava por essa. Tolerância pede reciprocidade.

 

17. Não é muito o que a vida oferece

Imagem | Daniel E. Greene

 

O sujeito, Josias, não faz bom uso das pernas. Elas são finas e dobradas, praticamente imprestáveis. Usa um skate e chinelos nas mãos para se locomover. É mais um pedinte. Uma ajuda, senhor? Uma ajuda, senhora? Ele se posiciona diante da pessoa, olha diretamente para ela, estende a mão, não precisa dizer mais nada. Pelo alto falante do carro, a condutora avisou aos passageiros para não incentivar a esmola, porque ela está proibida no metrô e todos são solicitados a não estimular a prática. Doem para alguma instituição de caridade, ela diz. Mas acaso essas pessoas aqui também não precisam? A voz no sistema de som parece falar diretamente para Josias, mas ele continua a função. A barba está grisalha, a roupa um pouco velha e suja. Consegue a simpatia de muita gente, várias fontes de trocados. Depois, no barraco, quando se embriagam ele e a mulher diminuta que o acompanha, com o dinheiro arrecadado durante o dia, se enfurece com ela, Sueli, por qualquer coisa e fica violento. Mas ela, que teve várias oportunidades de se afastar dele se quisesse, nunca o fez. Portanto, forçoso concluir, a situação é conveniente para ambos. Se não é essa a expressão, conveniente, pelo menos os mantém com certo conforto mútuo em meio as desgraças que assolam nessa vida mais a uns que a outros.

 

16. Modos de pedir

Imagem | Stephen Stoller

 

Os pedintes são uma categoria curiosa nos cenários dos metrôs. Tem sempre alguém para solicitar compaixão e uns trocados, muito poucos recitam Shakespeare enquanto isso. Uma vez, quando visitei os metrôs de Nova York, vi toda uma categoria diferente de pedintes, todos dispostos a oferecer um pouco de arte musical em troca da boa vontade dos passageiros. Ouvi cantores eruditos, violinistas, um trio de blues, um homem-banda com vários instrumentos acoplados ao corpo e tocados de maneira simultânea, enquanto ele caminhava pelo saguão de uma estação próxima a Broadway. Tanto talento musical, pensei, e não há espaço para ser aproveitado, de modo que é preciso contar com a simpatia e boa vontade de estranhos, num mundo que segue sendo também muito, muito estranho. A mulher de hoje, Jurema, tinha um gorro mal ajambrado na cabeça e nem fazia frio. Duas ou três saias justapostas, acho que são todas as que possui, talvez as reveze, não sei se lava alguma, a de cima me pareceu bem suja. Ela lançou a ladainha e é isso o que me desanima profundamente. Por que as pessoas não colocam mais o coração nessa arte de pedir dinheiro, por que fazem isso como se fosse uma profissão, uma obrigação chata de se cumprir? Imagino a pessoa terminando o expediente e indo bater o ponto, dizendo pronto, pedi bastante por hoje. E justo porque a pessoa não se empenha, nem mesmo nessa pequena performance de quinze ou vinte segundos para conquistar a simpatia alheia, não me sinto estimulado a colaborar. Gosto dos apaixonados, dos que fazem a coisa com gosto, dos que estão claramente mergulhados nos dramas humanos. Com esses me solidarizo. E com os artistas mambembes em geral, que se dispõem a trocar dinheiro por arte. É honesto, me parece.

15. Encontro sonoro

Imagem | Nigel Van Wieck

 

Hoje foi o dia dessa mulher me fazer um relato pessoal sem que eu tivesse pedido. Ela tinha o cabelo grosso ligeiramente desgrenhado, de modo que não pude deixar de pensar que ela se enquadra perfeitamente no estereótipo da louca. Sentou-se do meu lado e começou a puxar conversa comigo. Me contou que pode escutar as cores e como elas são muitas e estão em toda parte, há uma música intensa, uma sinfonia de desencontros permanentes tocando dentro de sua cabeça. Tudo bem, eu disse, levantando o indicador para pontuar minha fala, eu tenho um zumbido, uma cor só, eu diria cinza, que toca o tempo todo uma música muito chata e contínua. De modo que entendo o que a senhora quer dizer. Tratei-a formalmente chamando-a de senhora, é claro, não é porque é louca que merece ser desrespeitada, antes o contrário. Ela então me disse o nome, Diana, e o que estava fazendo ali no vagão. No metrô, ela falou, e abriu um sorriso bonito, é o único lugar onde a música deixa de tocar de maneira desencontrada, os sons se alinham, escuto uma coisa só e isso me tranquiliza. Sorri de volta para ela e fiz um comentário qualquer a respeito de como ficava contente de ouvi-la dizer aquilo, mas não sei o que foi que disse que pareceu soar ofensivo, sei que Diana de repente virou a cabeça para o outro lado e parou de falar comigo, como se tivesse simplesmente se desligado da minha existência. Passou a se comportar como se eu não estivesse ali, ou como se ela nunca tivesse conversado comigo. Algum habitante de sua cabeça teria lhe dito que eu não prestava, que eu não era digno de ouvir a sua história? Na estação seguinte ela se levantou, ainda me ignorando, e foi embora. Nunca mais a vi.

14. Vazio que se enche

Imagem | Matthew Grabelsky

 

Acho de uma felicidade incrível quando alguém no metrô se põe a ler, um hábito que também cultivo com entusiasmo. Minha angústia é só pelo seguinte: fico tentando ler o título do livro, me encho de curiosidade para saber o que as pessoas afinal estão lendo, quase sempre quando consigo identificar o título é uma decepção, leem para passar o tempo, qualquer coisa, sem muito critério. Mas depois me dou conta de que o mundo, ainda bem, não gira apenas guiado pelo meu critério. Pelos menos leem. Leitores em vagões me confirmam visualmente que pertenço a uma irmandade, com a vantagem absoluta de não pagarmos qualquer taxa nem promovermos quaisquer tipos de reunião. É perfeito. Mas nada me anima mais do que encontrar alguém que escreve no metrô. Hoje foi um sujeito, vinte e muitos ou trinta e poucos anos, jeans, camisa com as mangas dobradas até o cotovelo, tênis pretos. Cabelo repartido ao meio, barba protuberante, como tem sido a moda masculina por esses dias. Chama-se Clemente. Ele se sentou na diagonal de onde eu estava e, depois de percorrer com os olhos os outros ocupantes do vagão, puxou um bloquinho da mochila, que estava sobre o colo, pegou a caneta e se pôs a fazer anotações. Por um instante me ocorreu que ele era um concorrente, um alter-ego de carne e osso que se materializou no meu vagão para deixar patente que eu não tenho qualquer prerrogativa sobre a ideia dos subterrâneos. Certo, de acordo, mas precisa mesmo me fazer ameaças? Imediatamente retomei meu bom humor. Ele devia ser um cronista de jornal à procura de tema, ou um escritor que apenas se lembrou de um detalhe que precisava ser anotado. Ou ainda, um sujeito que mantém um diário e aproveita os momentos vazios do dia — para muita gente, andar de metrô é entrar num túnel de vazios — para produzir anotações. Minha ideia, creio, está preservada, por enquanto. Voltei a sorrir, contente de ver alguém que produz anotações no metrô, como eu mesmo faço. Ainda que Clemente tivesse tido a exata ideia que tive, as histórias dele jamais seriam as minhas.