Um último recado

Imagem | Nathan Ford
Imagem | Nathan Ford

 

 

Antes que vocês se dispersem, eu gostaria de dizer, eu disse. E olhei a cada um deles nos olhos. Eu gostaria de dizer, repeti, depois da pausa dramática, que o problema da literatura brasileira são vocês, os leitores. Como assim, nós?, uma moça de cabelo comprido e pintado artificialmente disse, tornando-se porta-voz automática do grupo. Não fizemos nada, ela acrescentou, desafiadora, eu diria até que irritada. Pois justamente, rebati, não fizeram nada, e é bem por isso que as coisas estão como estão. Eu tinha engasgado uma vontade de dizer que a falta de leitores era o grande desestímulo do escritor brasileiro. Mas achei que ficava bem deixar as coisas no pé em que estavam e por isso me abstive de acrescentar qualquer coisa. A culpa da literatura brasileira estar como está é de vocês não lerem, aí ela não pode crescer, dizer coisas importantes e profundas, fica assim rasa, superficial, boba. Havendo leitores e cobranças, a literatura se veria forçada a melhorar para agradá-los. A culpa é inteiramente de vocês, bradei, dessa vez me dirigindo a eles, e agora me deixem em paz que quero pensar.

 

Legado das letras

girafa-neve

 

 

Era um escritor com muita coisa a dizer e poucos ouvintes, ao contrário dos que têm pouco a dizer e legiões por audiência. “Seu problema é ácido”, dizia um amigo, sem qualquer intenção de subtexto. “Suas palavras, farpas”, ajuntava outro. O que muita gente quer é que lhes derramem mel nos ouvidos, portanto não te prestam atenção. Agreste, destemperado, os textos lhe refletiam as ideias mais do que a existência, que passava entre livros e debates. “Se sua vida se desmoronasse”, sugeria um. “Alguém te recolhesse bêbado a cada noite numa sarjeta diferente”, indicava outro. “E depois você se recuperasse, como quem volta dos mortos, a aura de sofrimento redimido é sempre uma opção interessante”, avaliava o mais cínico dos amigos. “Ou as glórias editoriais te cobrissem de ouros e louros”, adicionava em rima um sexto. “Trezentas entrevistas, convites em chuva, sua opinião sobre a fúria dos ciclones e o futuro das nações”, as variantes eram sugeridas, os cenários desenhados no mapa, queriam ajudá-lo. “Sua cota de carisma é normal demais, nem te falta algum como tampouco te sobra o que seria bastante para que esses desenhos virassem realidade”, diagnosticou aquele outro. O escritor levantava as laterais do braço para baixá-los em seguida e escrever que deu de ombros, contrição e honradez como bússola. Gosto amargo na boca levado adiante pela conduta estoica, embora às vezes sinta comichões de afogar o dissabor em desmesuras alcoólicas. Fingia lhe bastarem o convívio com personagens e histórias saídas da invenção. A falta que sentia de leitores seria recompensada, se fosse, pela posteridade não desfrutada, quando na conta das ideias não faz mais diferença a equação do carisma. Enquanto isso conversa com Becketts, Roths, Bellows, Sternes, Machados, como se fossem convidados do chá. Algum conselho, senhores?, demanda, mas, macacos velhos, sorriem entristecidos e nada dizem. Sobre certos assuntos, alguém recorre a Wittgenstein, é melhor calar. A última recompensa dos persistentes é o futuro, aforisa um deles, difícil precisar quem. O anúncio do silêncio sempre deve ser feito com palavras, é o que se sabe, o escritor acha que foi de Fernando Pessoa este comentário, ou de uma de suas variantes. A solidão é a solidez do escritor, vaticina. Hora de oferecer mais chá, o escritor pensa, e também: nessas companhias o que não senti foi solidão. Faz um conto em que consegue ser lido por esses que julga seus pares e, mais do que empáfia profissional ou despeito, recebe ponderações e elogios. Literatura é feroz, ele sabe, mas se disfarça muito bem de elegância, esse que é um dos principais trajes. O escritor cria um personagem, francamente inspirado em si, que anota contos parecidos com os Robert Walser e os de Lydia Davis, mais na economia de palavras do que nos conteúdos. Termina todas as histórias com a única e mesma palavra, que ele julga ser uma das mais expressivas da literatura, pelo que tem de potencial explosivo e de silêncio, de aposta: continua…

 

pluriversos e abismos

livros-flutuantes

 

 

no livro comprado por gostar do autor, lúcio leu conto que fala a respeito desse sujeito que se recupera de cirurgia e adquire audacidade na mesma proporção, então vai para a suécia e, no aeroporto, compra livro que apresenta uma “teoria inflacionária do cosmo”, na qual, em vez de universo, haveria “pluriverso”. lúcio imaginou que o personagem do livro poderia ter consciência de ser ficção, tal como ele mesmo tem. algo parecido poderia ocorrer ao escritor espanhol, um certo senhor vila-matas, também ele ficção, embora lúcio o tenha visto apresentar-se num encontro de literatura, no qual o escritor falou a respeito das vantagens de se fracassar, mesmo e sobretudo quando se faz sucesso — a forma aparentemente invertida de fracassar. naquela ocasião, o escritor pareceu bem real, sobre o palco, sentado próximo a um microfone, lendo o que havia escrito. talvez num pluriverso pudessem ser vizinhos, amigos e ter longas conversações a respeito de pluriversos e literatura, armações e distopias ou, quando nada, o destino comum de todos os fracassados de sucesso, o bar e a bebida. mas no universo em que se encontrava, lúcio não era conhecido de vila-matas, que conhece a bem pouca gente, portanto restava-lhe apenas sentar-se à mesa do escritório e escrever uma narrativa na qual ele, lúcio, não passa de personagem que escreve a respeito de escritor que o teria inventado, chamado paulo paniago, também desconhecido de vila-matas, embora paniago também o tenha visto apresentar-se num encontro de literatura. lúcio pensa: e quem está sentado à mesa para criar paulo paniago? talvez vila-matas. mas depois, quem seria o criador de vila-matas e assim sucessivamente no modo infinito. se literatura não serve para outra coisa, serve para enlouquecer as pessoas, alguém escreve, lúcio, paulo paniago, vila-matas ou quem os criou a todos. não sei. alguém.

 

extra

hoje o blog voltou a publicar apenas uma micronarrativa por dia. entretanto, como adulação extra aos leitores que visitaram o blog mais de uma vez essa semana que passou, vai aqui um pequeno trecho do meu romance inédito o nervo da vida.

só para fazer um agrado.

“olho para o insondável à procura de respostas. cavo um pouco mais, entre o receio e o desejo de encontrar os meus cadáveres. o insondável me olha de volta. vou levar muitas páginas para tentar provar que
decifrei uma parte, agarrei o insondável pelo pescoço e o expus à vista de todos.”

homem de papel 4

foi então que algo aconteceu e alberto se sentiu sendo dissolvido, para em seguida ser restituído ao livro que estava lendo. como explicar isso sem parecer estúpido é o problema. alberto leme, funcionário público, morador de brasília, salário razoável, vida pacata até demais, mas não a ponto de recusar ao chefe trabalho com o argumento de que “acho melhor não”, se dissolveu desse lado de cá da vida e foi reconstituído dentro do livro que estava lendo, bartleby e companhia, escrito pelo espanhol enrique vila-matas.

um livro afinal de contas estranho, porque não se conta nele a história de uma pessoa ou um grupo de pessoas em particular, mas de uma sucessão de cenas em que se descrevem escritores em situação conflituosa com a própria atividade. alberto tinha desaparecido da face visível do mundo e foi reconstituído exatamente à página 122 do livro do escritor espanhol. provavelmente arpoado pela ideia de julio ramón ribeyro, amigo e desafeto de mario vargas llosa. Essa era outra coisa que seria esclarecida na pesquisa de alberto, caso ele a tivesse feito. ribeyro e vargas llosa foram amigos e também trocaram farpas — mais por iniciativa de vargas Llosa, movido por despeito ou por não admitir ameaças a sua posição de melhor escritor peruano contemporâneo. no livro, inclusive, vila-matas brinca com isso, dizendo que ribeyro escrevia “como que na ponta dos pés para não tropeçar em seu próprio pudor ou não tropeçar, porque nunca se sabe, em vargas llosa”.

homem de papel 3

alberto sorriu ao ler a frase, porque estava se divertindo muito com todo aquele projeto do escritor espanhol de rastrear uma literatura composta por negativas, por recusas a escrever. vila-matas conta que ribeyro é autor de um livro chamado la tentación del fracaso e alberto não pôde deixar de sorrir novamente com a descoberta de que alguém um dia deu ao próprio livro o título de a tentação do fracasso. alberto poderia ter descoberto mais tarde, se tivesse feito uma pesquisa simples, que se trata de uma obra em três volumes dos diários do escritor, bastante prolixo por sinal, o que era um pouco contraditório com o conceito original do livro.

ribeyro estava lendo cervantes e dizia ter sentido um sopro de algo que lhe impulsionou a começar alguma coisa, mas tudo se dissolveu. “todos nós guardamos um livro”, dizia ribeyro no trecho transcrito no livro de vila-matas, na página 122, numa divisão que leva o número (52), assim, entre parênteses, “talvez um grande livro, mas que no tumulto de nossa vida interior raras vezes emerge, ou o faz tão rapidamente que não temos tempo de arpoá-lo”. ou talvez ainda, pensou alberto, um livro que dissolvemos junto com sonrisal. aliás, preciso de um, e levantou-se para pegar. o meu livro, pensou, enquanto se dirigia à cozinha, ou não foi escrito ainda ou já foi rasgado. que bela imagem, arpoar um livro com a mesma violência com que ahab tentou arpoar moby dick. o livro de alberto estava a caminho da dissolvição, palavra que evidentemente não existe mas que precisou ser criada para explicar que não se trata de dissolução simplesmente, mas também de ser absolvido da necessidade de escrever um livro. de onde, dissolvição, como se fosse a dissolvição dos pecados, agora em sabor sonrisal.

homem de papel 2

agora a ressaca lhe dava a sensação de que lhe havia secado o cérebro. possivelmente era isso mesmo o que tinha acontecido. lembrou-se de uma matéria na televisão a respeito da desidratação sofrida pelo organismo, o cérebro inclusive, quando se consumia bebida alcoólica. levantou-se, tomou uma aspirina, ingerida com bastante mais água do que o realmente necessário, desidratou-se um pouco mais diante do vaso e voltou para a cama com o firme propósito de voltar a dormir. revirou na cama para um lado e outro, não conseguiu.

tomou a decisão de parar de brigar contra o inevitável e estendeu a mão para o livro que estava no chão ao lado da cama. a dor de cabeça nunca foi impedimento para que alberto lesse. o livro era bartleby e companhia, do escritor espanhol enrique vila-matas. a edição caprichada, com retângulos de várias cores na capa. um deles, no canto esquerdo, esconde o rosto de um homem numa fotografia tirada provavelmente dentro de uma galeria de arte.

vila-matas resolveu passar em revista toda a literatura dos escritores do “não”, que se retiraram da tarefa difícil e quase sempre pouco recompensadora que é escrever um livro. para isso, baseou seu livro no conto de herman melville bartleby, o escrivão, em que o personagem se recusa a trabalhar, sempre dizendo “acho melhor não” a tudo que lhe demandam. o principal desses escritores do “não” é robert walser, mas há outros, o livro é uma longa lista de pequenas narrativas a respeito desses escritores da recusa. julio ramón ribeyro, por exemplo, esse escritor peruano, discreto, como é descrito por vila-matas, “sempre abrigou a suspeita, que se foi tornando convicção, de que há uma série de livros que fazem parte da história do não, embora não existam”.

homem de papel 1

este livro é um oferecimento da editora letras estranhas

possível começo para um livro possível:

na manhã do dia em que desapareceu da face visível do mundo, alberto acordou tarde porque não havia posto despertador e era sábado, dia de acordar só ao fim do sono. na véspera tinha ido para a cama ao final de uma noite particularmente agitada e desconfortável, que começara à saída do trabalho, quando os colegas haviam combinado de comemorar o aniversário de renata num bar da moda, recém-inaugurado na asa sul. em condições normais, alberto teria se recusado, muito simplesmente, e ido para casa, encontrar-se com uma de suas melhores companhias, um livro. porque é preciso dizer isso a respeito de alberto: ele prefere um romance ao convívio com semelhantes e não é de hoje que pensa assim, nem foi resultado de algum trauma, é bom que se esclareça.

a comemoração ocorreu dentro das expectativas, barulhenta, animada, cara. a paciência de alberto estava sendo testada e ele fez o melhor que pôde para manter o semissorriso no rosto e algumas conversas entrecortadas em curso. só aceitou porque o aniversário era de renata e renata havia frequentado a cama de alberto recentemente. seria deselegante e impróprio faltar. ninguém no trabalho sabia que haviam se pegado, a nenhum dos dois interessava que soubessem, mas ainda que fosse segredo para todos, a falta de alberto seria sentida por renata e dificultaria muito a chance de voltar a tê-la sobre o colchão e debaixo dos lençóis, de modo que se viu obrigado a aceitar.

criações

ler não me deixou mais inteligente ou mais bem preparado para a vida. no entanto leio e a leitura me provoca grande quantidade de prazer. transfiro minha mente para essa dicção alheia que articulou a trama e percebo semelhanças e diferenças na conclusão da história, entre o que está escrito e o que eu mesmo poderia fazer se fosse eu o autor. surpreendo-me com as ideias discutidas, reviravoltas na trama, mas sobretudo penso nesse modo estranho com que as ideias do autor dialogam com as minhas, esse modo silencioso e breve, praticamente irreprodutível. a raiva explosiva dos romances de philip roth ou a longa ladainha (mas envolvente ainda assim) que surge das páginas de um josé saramago, as reflexões narrativas que são a base dos livros de enrique vila-matas ou mesmo o tom entre irônico e melancólico de um machado de assis apresentam para mim aspectos variados e interessantes a respeito de como enxergar e estar neste mundo, com os quais encontro afinidades ou discrepâncias. nos momentos em que os leio sinto-me em muito maior sintonia com esse ambiente onde eles articulam essas histórias — esse mundo eminentemente literário, constituído de palavras sobre papel — do que com o mundo concreto e real que tenho a volta de mim.

poderia escrever um livro a respeito de alguém que, de tanto gostar de ler, por preferir essa vida ficcional à real, um dia se transforma em personagem de ficção e passa a interagir com outros personagens de ficção, como se pudesse morar nos livros. essa interação se faz, a princípio, de modo que ninguém perceba. afinal, quem lê pela primeira vez um madame bovary ou um moby dick não sabe o que vai encontrar ou, se sabe, sabe apenas em linhas gerais, sem necessariamente conhecer os pormenores. por exemplo, o número e o nome de personagens secundários.

assim, esse personagem pode aparecer como secundário aqui e ali e não ser percebido durante muito tempo. até que um dia um especialista volte a fazer a leitura de um livro clássico (porque sim, esse meu personagem escolheu começar o passeio pelos clássicos) para um estudo que pretende realizar e se dê conta de que a história está diferente do que lembrava. há um personagem novo que não se recorda que existia antes.

adendo: este livro pode se chamar o leitor, ou paixão pelos livros, quem sabe realidade abdicada ou o homem de papel. o livro poderia ser uma espécie de retratos de fidelman, o romance em contos de bernard malamud, ou lembrar em alguns aspectos a sequência do sujeito que mora em pinturas clássicas no filme sonhos, de akira kurosawa. no mínimo, deve mencionar essas hipóteses, bem como as várias situações em filmes de woody allen em que essa interface entre mundo ficcional e real se estabelece.

adendo 2: isso que acabei de escrever aqui mistura ensaio com ficção e pode ser um novo gênero que acabo de criar, o ensaio narrativo.

das sínteses

certo, o mundo se encaminha para o encolhimento. na ciência, a nanotecnologia promete nos próximos anos invadir o corpo e realizar funções que poupem o organismo: processar ar de forma eficiente, processar comida etc. na rede, a linguagem econômica do twitter em centiquarenta crctrs. mas quando penso em machado de assis, que escrevia de maneira concisa no final do século 19, início do 20, vejo que a história é bem mais antiga. ele já previu que a gente iria encolher, reduzir, resumir, sintetizar. é mais um traço do gênio. depois vieram félix fénéon, dalton trevisan, chico alvim, para ficar numa lista simples e para nem mencionar a longa lista anterior de aforistas. quanto mais penso nisso, mais gosto do meu aforismo: “elegância é breve”.

quando a montanha é muito alta 2

mais dois parágrafos do romance deslocamentos, em processo de escrita. a esta altura, está no décimo quarto capítulo da primeira parte.

a arte de morrer era o quarto romance numa sucessão de outros tantos que ia além da conta simples de dizer que era o quarto depois de outros três. nessa nova fase da minha vida era o quarto, mas em fases anteriores tinha havido outros tantos. o editor que morava dentro de mim, ao lado do escritor, vinha me cobrando os originais, antes que minha maré virasse de vez, ele fazia questão de dizer, ou seja, antes que algo concreto me retirasse a possibilidade de continuar a escrever. a necessidade de trabalhar, por exemplo, que havia me levado a fazer jornalismo, em vez de letras (“os escritores que ganham dinheiro suficiente com seus livros no brasil têm um estilo bem diferente do meu”, eu me disse, silenciosa e racionalmente, na ocasião, a uns duzentos anos atrás).

os livros da outra fase da minha vida não contam mais. devo acrescentar: felizmente, da perspectiva atual. paralelo ao desenvolvimento de a arte de morrer tinha resolvido escrever dois blogs, um dedicado a aforismos desaforados, que juntei numa palavra-valise que me foi sugerida, desaforismos, e outro dedicado a ensaios a respeito de fotografia, no qual analisava fotos de grandes fotógrafos conhecidos ou nem tanto, desde que a foto me atraísse a atenção. ou seja, estava excessivamente inquieto e à beira da hipergrafia, uma doença grave que envolve produção excessiva de palavras. isso sim, claramente uma patologia. havia acabado de ler um ensaio a respeito do assunto, publicado na revista serrote, na verdade o primeiro capítulo de um livro de alice w. flaherty chamado o mal da meia-noite: o impulso de escrever, o bloqueio do escritor e a mente criativa, e estava impressionado. o livro tem duas epígrafes, uma delas das sátiras de juvenal, que reproduzo aqui: “muitos sofrem do incurável mal da escrita, e ele se torna crônico em suas mentes enfermas”.

quando a montanha é muito alta

dois parágrafos iniciais do romance deslocamentos, em processo de escrita. a esta altura, está no oitavo capítulo da primeira parte.

vida de escritor não é normalmente fácil como se imagina e admito que enfrentava certo trabalho para avançar através das montanhas de palavras que constituíam um romance chamado a arte de morrer, que não chegava a ser sátira herética ao ars moriendi medieval, do qual só emprestou o mesmo nome. em geral, as pessoas têm ideia equivocada a respeito do trabalho do escritor com as palavras, porque acham que ele leva vida tranquila, meio à toa, sem grandes preocupações a não ser decidir se na trama o personagem agora vai para o bar beber com os amigos ou se se afoga na piscina. a decisão não é assim prosaica, posso assegurar e, se for, é porque o autor não tem domínio de questões importantes para o avanço da narrativa, o que de certa forma a compromete.

sempre que olho para meu passado, percebo que a única decisão realmente sólida que tomei um dia foi a de que queria ser escritor. todas as outras decisões e atitudes se submeteram a essa. preparei-me a vida toda: li muito e tentei praticar quase na mesma proporção. embora concorde que ler é bem mais fácil que escrever. mas nesse ponto escolhi uma frase do escritor francês paul valéry para me orientar: “meu fácil me enfada, meu difícil me guia”. confesso, no entanto, que minha preguiça quase sempre me fez mais leitor do que autor.

quando morri

os dois parágrafos iniciais de um romance inédito e, a bem da verdade, não concluído, chamado a arte de morrer. o título remete a um tratado da idade média, ars moriendi, mas aqui aparece numa outra levada, bem diferente.

todas as decisões sérias que tomei influenciaram os mecanismos secretos que atuam no meu corpo. é por isso que tenho essa obstrução coronária que deve me matar a qualquer momento. tudo colaborou: ter virado fotógrafo, não ter brigado o suficiente com meus pais, não defender com a intensidade necessária o amor que sentia e sinto por minha irmã. tudo o que fiz ou deixei de fazer — e exatamente por ter deixado de fazer — colocou um pouco mais de gordura nas minhas artérias e me deixou nessa tensão que estou agora, sem resposta para várias perguntas: vou morrer ou vai dar tempo de ser operado; se for operado, vou morrer ou os médicos liderados por jorge souto saberão me recuperar completamente; se não morrer na mesa de operação, terei alguns dias, semanas, meses ou anos de vida até que uma outra coisa qualquer ou a volta dessa obstrução venham me matar irrevogavelmente.

não quero ter tempo para me preparar para a morte, essa é que é a verdade. quero que ela me surpreenda na cama, num avião que cai, num enfarte súbito e sem aviso prévio. pensando bem, morrer durante a cirurgia, quando estarei anestesiado e ausente de mim, não me parece má ideia e talvez seja exatamente isso o que vai acontecer, como se alguém tivesse escutado e resolvido atender meu desejo. bem, não vamos falar em desejo, vamos falar em opção assinalada: morte inadvertida, por favor. deve ter sido por isso que escolhi ser fotógrafo: um dia você está lá, fazendo fotos, recebe uma bala certeira e pronto, nem deu tempo de perceber que aquele era o dia de morrer. simplesmente aconteceu.

o nervo da vida 3

trecho do romance inédito intitulado o nervo da vida. ainda do capítulo seis. neste momento, o professor sérgio pedro termina uma das aulas a respeito de philip roth:

sérgio pedro ainda se estendeu bastante falando de mickey sabbath, para, antes de liberar os alunos ao final da aula, lhes dizer algo a respeito de philip roth que julgava importante ser dito.

⎯ a literatura dele é maior do que a vida. de onde esse cara tira tanta coisa? às vezes, eu acho que tem um buraco dentro dele onde ele vai buscar essas coisas a respeito das quais fala. tenho certeza de que vou chorar muito no dia em que ele morrer. mas, até lá e mesmo depois, vou ler e reler a obra dele tantas vezes quantas a vida, o tempo e as circunstâncias me permitirem. acho graça nos livros novos, porque toda vez que eu pego um livro dele eu me surpreendo. ele faz cada livro diferente do outro, embora os temas sejam comuns. por favor, tenham isso em mente quando forem estudar e produzir os ensaios e não se esqueçam, semana que vem…

foi ao final da primeira aula a respeito de sabbath, da falta de limites sociais que aquele cidadão tinha como rotina e mecanismo de viver a vida, da intensidade absurdamente sedutora que ele lançava sobre todos os leitores, que sérgio pedro viu raquel se aproximar dele, esperando que todos os outros alunos que tinham se aproximado também falassem o que queriam dizer e fossem embora. ela nunca havia feito aquilo antes, se aproximar da mesa do professor depois da aula, pelo menos não com ele, ao longo do semestre. pela primeira vez, ela estava ali. era tão baixa como ele, tinha cabelos negros e escorridos, um rosto oval que teria ficado bem numa pintura de modigliani, lábios carnudos. olhe para a pessoa, sérgio pedro, ele se dizia, olhe para o que ela quer com você, não olhe só para o corpo, essa cintura fina, esses peitos grandes e apetitosos por trás dessa camisa de, o que é isso, cetim? e branca, camisa branca como ela é branca, pare com isso, seu animal, contenha-se. o que te importa que os seios estejam dizendo venha me pegar, por favor? esqueça isso.

o nervo da vida 2

mais um trecho do romance inédito intitulado o nervo da vida. ainda do capítulo seis. neste momento, o professor sérgio pedro fala de outro livro de philip roth:

numa das passagens mais ferozes de a marca humana, o oitavo romance que tem zuckerman como protagonista, o vigésimo segundo na fila dos romances de roth, coleman silk discute asperamente com delphine roux, a professora de francês que havia contratado quando era decano e que se tornou chefe do departamento de letras, justo quando coleman voltou a dar aulas. ela o chama para uma conversa porque recebeu reclamação de uma aluna. segundo essa aluna, o curso de tragédia grega de silk é falocêntrico e não apresenta uma perspectiva feminista de hipólito e de alceste, as peças de eurípedes que são analisadas. ele fica impaciente com a reclamação. não tem tempo para aquelas besteiras. sabe que aqueles alunos são ignorantes e sairão do curso do mesmo jeito que entraram. o politicamente correto contaminando tudo o tira do sério. aquele verão em que clinton teve seu boquete no salão oval da casa branca exposto ao público foi o mesmo em que coleman silk, um professor aposentado de setenta e um anos de idade, contou a zuckerman que estava tendo um caso com uma faxineira de trinta e quatro. foi o verão da santimônia. uma palavra entendida fora de contexto podia representar o fim da sua carreira profissional.

sérgio pedro dizia:

— não são as passagens factuais que tornam os livros de roth interessantes, aquele factual que existe dentro da ficção e que precisa da vida real como referência para se estabelecer, aquele real que lembra também o real que é chamado pelo nome técnico de verossimilhança. são as outras coisas, é o mergulho radical nesse lado de dentro que é o ser humano e que roth consegue fazer muitíssimo bem, é a discussão incessante do que significa estar no mundo, a crise permanente que significa estar vivo no final do século vinte ou no início do vinte e um. nenhuma conversa que você vai ter na vida real será tão densa ou radical como aquela que está sugerida no texto de roth. a literatura, nesse ponto, ganha da vida, disparado. embora exista para fazer com que cada leitor entenda o que é isso mesmo, a vida. um paradoxo. precisamos da literatura, supostamente ficção, para entender a vida, supostamente real.

o nervo da vida 1

trecho de romance inédito que escrevi entre junho de 2008 e agosto de 2009, intitulado o nervo da vida. trata-se do capítulo seis, o último, e nessa passagem o professor sérgio pedro, protagonista do livro, ministra aula a respeito da literatura de philip roth:

— mas é com mickey sabbath e seu teatro de rua que a literatura de roth atinge uma marca no meu entender inédita, a de mostrar o processo de enlouquecimento de alguém com um movimento simultâneo de entender e acompanhar, ao mesmo tempo em que descreve os dois lados, o de dentro, os processos internos, e o de fora, o dos acontecimentos tal como ocorreram. o realismo como ferramenta para enxergar tanto o exterior como o interior. repararam que o teatro de sabbath não é um livro a respeito de sexo, como nossa mentezinha tacanha tende a pensar? o teatro de sabbath é um livro a respeito da loucura, da loucura disfarçada de sexo. meus amigos, essa é grande vantagem da literatura, como já disse em outra ocasião para vocês e não canso de repetir. a literatura te mostra o lado de dentro de alguém tal como você nunca poderá conhecer na vida real. a ficção faz isso por você, com a vantagem de permitir que você fique sozinho, que escute a voz daquela narrativa ao mesmo tempo em que escuta a própria voz, lendo, e daí a pouco se destaca dessa sua voz para chegar a você mesmo, o seu lado mais íntimo, e começar a debater com a sua voz que lê e com a voz do escritor que enuncia. não é o escritor que está ali, mas suas representantes, aquelas palavras que ele escolheu e burilou e arrumou naquele buquê bonitinho que ele te oferece. também não é você que está ali, mas aquela sua voz silenciosa que lê, você é o outro por trás dessa voz, que critica o escritor e critica até mesmo aquela sua voz que lê, você é o titereiro de si mesmo. a literatura é uma das mais intensas experiências que um ser humano pode ter. a boa literatura, bem entendido. mais até do que sexo, porque sexo uma hora começa a te abandonar, enquanto a literatura permanece ali, cada vez melhor.

digressões shandianas

1. se a narrativa é um mecanismo para adiar a morte (carlo levi comenta no prólogo à edição italida de a vida e as aventuras do cavalheiro tristram shandy, de laurence sterne, que o personagem “não quer nascer porque não quer morrer”), como então situar o narrador de memórias póstumas de brás cubas, que já está morto quando a narrativa começa? para bentinho, o tempo é eterno.

2. se a digressão força a ocupar a vida com ela praticamente o tempo todo, deveria ser fácil aceitar a digressão na literatura. mas hoje é difícil ler o tristram shandy. perdeu-se o espaço que a digressão tinha. tudo é eficiência, até a hora de lazer.

opiniões fortes

bruno barreto não fez, que eu saiba, sequer um filme bom. a adaptação de senhorita simpson, a ótima novela de sérgio sant’anna, ficou com resultado pífio no cinema, com título de bossa nova. pior: sant’anna continua pouco conhecido pelos escassos leitores brasileiros, o que é pena. por outro lado, a adaptação de outro de seus livros, um crime delicado (no cinema perdeu o artigo), não teve o público que um cineasta bom como beto brant merecia, talvez por ter deixado o registro realista dos filmes mais conhecidos (os matadores, ação entre amigos, o invasor).