Chances do acaso

Foto | Luis Sanchis
Foto | Luis Sanchis

 

 

Ele estava interessado em escrever uma história na qual a noção de destino e coincidência é posta em xeque — na qual os cálculos de probabilidade revelam-se tão ciência quanto as cartas do tarô ou a disposição das estrelas nos mapas astrológicos. E, na verdade, a história que decide escrever parte de um desenho estruturado e fornecido por Vladimir Nabokov em A verdadeira vida de Sebastian Knight. O narrador deste livro conta resumidamente o conteúdo de um romance escrito por Knight, chamado Sucesso, que lida “principalmente com os métodos do destino humano”. As conclusões do romance de Knight diferem daquelas do nosso autor aqui, chamemo-lo R e poupemos com isso exposições desnecessárias e pormenorizadas. Acontece que R pode muito bem lançar mão de discutir narrativas em que o jogo do destino é posto em ação. Percival, o protagonista tanto do livro de R quanto do romance de Knight, discute no livro do primeiro as teorias oriundas do livro Ensaios de amor, de Alain de Botton, e do filme Os agentes do destino, de George Nolfi (com desvantagem para o filme, que parte de excelente premissa para depois escorregar nas pieguices cinematográficas de sempre quando o assunto é Hollywood), mas a narrativa começa a ganhar ainda mais densidade quando discute as teorias de sincronicidade de Carl Gustav Jung e alguns desdobramentos potenciais de certos contos de Jorge Luis Borges e algumas teorias do tempo adotadas por Paul Ricoeur em Tempo e narrativa. Tal como fica explícito na síntese de romance dentro do livro de Nabokov, a perseverança do destino jamais se desanima com o fracasso — todo escritor que se preze gosta de flertar com a ideia de um destino sob controle — e quando os personagens recompõem suas vidas e finalmente se encontram, “é por meio de maquinações tão delicadas que não se escuta nem o menor clique”. Claro que o amor é excelente pretexto para se falar dos dedos lambuzados do destino. Entretanto, todos se negam a reconhecer que o acaso é o melhor escritor, o mais criativo, embora isso seja tão verdadeiro.

 

Atendi o telefone

charuto

 

 

As pessoas querem saber do andamento do curso, elas estão atrasadas, a vida atrasou-se, tudo é tarde, não estamos mais interessados no seu interesse, eu tinha vontade de dizer, mas não podia, eu fazia barulhos ao telefone, fingindo que ria, que era divertido, que sim, estávamos interessados, mas a verdade é que não, nunca estivemos, e estamos além disso cagando para atrasos e atrasados, no dia, na vida, no que for. Por que diabos eu lia aqueles livros, pensava, clássicos e tudo, cheios de ideias a respeito do mundo, teorias megalomaníacas, ou mesmo geniais, sacadas, sugestões, ângulos bacanas, por que eu insistia em adorar Moby Dick e Bartleby, eu era especialista em Herman Melville, tinha estudado a vida do cara e a obra, conhecia de trás para frente e vice-versa, e no entanto estava ali, atendendo ligações, derretendo ao calor da tarde, a televisão ligada ao fundo, minha avó insistia, deixasse a televisão ligada, ela queria ver o jogo do Brasil, eu estava cagando para a seleção, mas eu era o único, eu e o outro idiota que naquele momento tinha me ligado e queria saber a respeito do curso e estava atrasado, as aulas tinham começado há uma semana. Por que diabos eu tinha resolvido dar um curso a respeito de literatura norte-americana do século dezenove, com ênfase em Melville, todos os livros, atenção especial à leitura de Billy Budd, essas coisas, zero de interesse e relevância social, queremos saber é quantos gols fará a seleção no próximo jogo. Na sala existiam seis alunos, cada um mais destrambelhado que o outro, aquele curso estava fadado ao naufrágio, era o Pequod da literatura, arpão e raiva contra a imensidão incontrolável da baleia e dos atrasos. Chupei os dentes, minha vó gritou gol, o bairro inteiro gritou gol, aquele gol longo, goooooool, secundando o locutor alucinado na televisão, duzentos milhões de gritos simultâneos. O que eu estava fazendo ali? Minha vó sentada na cadeira de ratã, o calor derretendo o fio do telefone, minha mão virando água, a literatura americana, o curso, o aluguel também atrasado, a vida. Sim, eu disse sim, venha, não tem importância você estar atrasado, você pode recuperar o tempo perdido, acrescentei uma piada sobre Proust, ele obviamente não entendeu, nem riu, tudo bem, vida que segue, não se pode ganhar todas. Houve uma pausa e então um cachorro uivou gooool ao longe. Eu ri, ele estava atrasado também, minha vó xingou o juiz. O calor ia nos matar a todos.

 

Legado das letras

girafa-neve

 

 

Era um escritor com muita coisa a dizer e poucos ouvintes, ao contrário dos que têm pouco a dizer e legiões por audiência. “Seu problema é ácido”, dizia um amigo, sem qualquer intenção de subtexto. “Suas palavras, farpas”, ajuntava outro. O que muita gente quer é que lhes derramem mel nos ouvidos, portanto não te prestam atenção. Agreste, destemperado, os textos lhe refletiam as ideias mais do que a existência, que passava entre livros e debates. “Se sua vida se desmoronasse”, sugeria um. “Alguém te recolhesse bêbado a cada noite numa sarjeta diferente”, indicava outro. “E depois você se recuperasse, como quem volta dos mortos, a aura de sofrimento redimido é sempre uma opção interessante”, avaliava o mais cínico dos amigos. “Ou as glórias editoriais te cobrissem de ouros e louros”, adicionava em rima um sexto. “Trezentas entrevistas, convites em chuva, sua opinião sobre a fúria dos ciclones e o futuro das nações”, as variantes eram sugeridas, os cenários desenhados no mapa, queriam ajudá-lo. “Sua cota de carisma é normal demais, nem te falta algum como tampouco te sobra o que seria bastante para que esses desenhos virassem realidade”, diagnosticou aquele outro. O escritor levantava as laterais do braço para baixá-los em seguida e escrever que deu de ombros, contrição e honradez como bússola. Gosto amargo na boca levado adiante pela conduta estoica, embora às vezes sinta comichões de afogar o dissabor em desmesuras alcoólicas. Fingia lhe bastarem o convívio com personagens e histórias saídas da invenção. A falta que sentia de leitores seria recompensada, se fosse, pela posteridade não desfrutada, quando na conta das ideias não faz mais diferença a equação do carisma. Enquanto isso conversa com Becketts, Roths, Bellows, Sternes, Machados, como se fossem convidados do chá. Algum conselho, senhores?, demanda, mas, macacos velhos, sorriem entristecidos e nada dizem. Sobre certos assuntos, alguém recorre a Wittgenstein, é melhor calar. A última recompensa dos persistentes é o futuro, aforisa um deles, difícil precisar quem. O anúncio do silêncio sempre deve ser feito com palavras, é o que se sabe, o escritor acha que foi de Fernando Pessoa este comentário, ou de uma de suas variantes. A solidão é a solidez do escritor, vaticina. Hora de oferecer mais chá, o escritor pensa, e também: nessas companhias o que não senti foi solidão. Faz um conto em que consegue ser lido por esses que julga seus pares e, mais do que empáfia profissional ou despeito, recebe ponderações e elogios. Literatura é feroz, ele sabe, mas se disfarça muito bem de elegância, esse que é um dos principais trajes. O escritor cria um personagem, francamente inspirado em si, que anota contos parecidos com os Robert Walser e os de Lydia Davis, mais na economia de palavras do que nos conteúdos. Termina todas as histórias com a única e mesma palavra, que ele julga ser uma das mais expressivas da literatura, pelo que tem de potencial explosivo e de silêncio, de aposta: continua…

 

legados

foto | elvis martínez smith
foto | elvis martínez smith

 

 

então, a morte é esse momento em que a pessoa desiste de viver — o excesso de vida a exaure — ou o momento em que a vida desiste da pessoa, por achá-la de alguma forma desinteressante e destituída de atrativos para a continuidade? a pergunta, para a qual ele não tinha a menor ideia de sequer por onde começar a responder, assolou-o certa tarde durante a leitura de o legado de humboldt, o romance de saul bellow a respeito da relação de charles citrine e do amigo von humboldt fleisher, ambos intelectuais. havia esse momento do romance em que citrine é convocado para fazer parte de um júri e aproveita para ler revistas ou cartas ou pensar temas e questões para o ensaio que deseja escrever a respeito do tédio. “desde o início, a humanidade experimentava fases de tédio, mas ninguém se aproximava do assunto de frente e pelo centro, como um tema em si mesmo”, citrine registrava no livro, ou bellow travestido de citrine, uma vez que a orelha do livro diz que o romance se baseia na relação de bellow com o poeta delmore schwartz. depois ele diz que o tédio é talvez um tipo de dor, provocada “por faculdades não utilizadas, a dor de talentos e possibilidades desperdiçadas”. nosso amigo ficou pensando como foi que da leitura de dois trechos dedicados a discorrer a respeito do tédio e suas motivações sua cabeça fez um salto para começar questionamentos a respeito da finitude humana, mas é sabido que o cérebro tem analogias próprias que muitas vezes escapam a uma organização racional. então nosso amigo deu um suspiro, produziu uma anotação e deixou a vida prosseguir o curso.

 

roth, 8

foto | alexey nikishin

 

 

a grande peça que a biologia prega nas pessoa é que a gente já é íntima antes mesmo de saber coisa alguma a respeito da outra pessoa.

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é importante traçar uma distinção entre o morrer e a morte. o morrer não é um processo ininterrupto. se a gente tem saúde e se sente bem, é um processo invisível. o final que é uma certeza nem sempre se anuncia de maneira espalhafatosa.

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a única obsessão que todo mundo quer ter: o “amor”. as pessoas pensam que quando se apaixonam elas se completam? a união platônica das almas? pois eu não concordo. eu acho que você está completo antes de se apaixonar. e o efeito do amor é fracionar você.

 

philip roth, o animal agonizante