Chances do acaso

Foto | Luis Sanchis
Foto | Luis Sanchis

 

 

Ele estava interessado em escrever uma história na qual a noção de destino e coincidência é posta em xeque — na qual os cálculos de probabilidade revelam-se tão ciência quanto as cartas do tarô ou a disposição das estrelas nos mapas astrológicos. E, na verdade, a história que decide escrever parte de um desenho estruturado e fornecido por Vladimir Nabokov em A verdadeira vida de Sebastian Knight. O narrador deste livro conta resumidamente o conteúdo de um romance escrito por Knight, chamado Sucesso, que lida “principalmente com os métodos do destino humano”. As conclusões do romance de Knight diferem daquelas do nosso autor aqui, chamemo-lo R e poupemos com isso exposições desnecessárias e pormenorizadas. Acontece que R pode muito bem lançar mão de discutir narrativas em que o jogo do destino é posto em ação. Percival, o protagonista tanto do livro de R quanto do romance de Knight, discute no livro do primeiro as teorias oriundas do livro Ensaios de amor, de Alain de Botton, e do filme Os agentes do destino, de George Nolfi (com desvantagem para o filme, que parte de excelente premissa para depois escorregar nas pieguices cinematográficas de sempre quando o assunto é Hollywood), mas a narrativa começa a ganhar ainda mais densidade quando discute as teorias de sincronicidade de Carl Gustav Jung e alguns desdobramentos potenciais de certos contos de Jorge Luis Borges e algumas teorias do tempo adotadas por Paul Ricoeur em Tempo e narrativa. Tal como fica explícito na síntese de romance dentro do livro de Nabokov, a perseverança do destino jamais se desanima com o fracasso — todo escritor que se preze gosta de flertar com a ideia de um destino sob controle — e quando os personagens recompõem suas vidas e finalmente se encontram, “é por meio de maquinações tão delicadas que não se escuta nem o menor clique”. Claro que o amor é excelente pretexto para se falar dos dedos lambuzados do destino. Entretanto, todos se negam a reconhecer que o acaso é o melhor escritor, o mais criativo, embora isso seja tão verdadeiro.

 

Atendi o telefone

charuto

 

 

As pessoas querem saber do andamento do curso, elas estão atrasadas, a vida atrasou-se, tudo é tarde, não estamos mais interessados no seu interesse, eu tinha vontade de dizer, mas não podia, eu fazia barulhos ao telefone, fingindo que ria, que era divertido, que sim, estávamos interessados, mas a verdade é que não, nunca estivemos, e estamos além disso cagando para atrasos e atrasados, no dia, na vida, no que for. Por que diabos eu lia aqueles livros, pensava, clássicos e tudo, cheios de ideias a respeito do mundo, teorias megalomaníacas, ou mesmo geniais, sacadas, sugestões, ângulos bacanas, por que eu insistia em adorar Moby Dick e Bartleby, eu era especialista em Herman Melville, tinha estudado a vida do cara e a obra, conhecia de trás para frente e vice-versa, e no entanto estava ali, atendendo ligações, derretendo ao calor da tarde, a televisão ligada ao fundo, minha avó insistia, deixasse a televisão ligada, ela queria ver o jogo do Brasil, eu estava cagando para a seleção, mas eu era o único, eu e o outro idiota que naquele momento tinha me ligado e queria saber a respeito do curso e estava atrasado, as aulas tinham começado há uma semana. Por que diabos eu tinha resolvido dar um curso a respeito de literatura norte-americana do século dezenove, com ênfase em Melville, todos os livros, atenção especial à leitura de Billy Budd, essas coisas, zero de interesse e relevância social, queremos saber é quantos gols fará a seleção no próximo jogo. Na sala existiam seis alunos, cada um mais destrambelhado que o outro, aquele curso estava fadado ao naufrágio, era o Pequod da literatura, arpão e raiva contra a imensidão incontrolável da baleia e dos atrasos. Chupei os dentes, minha vó gritou gol, o bairro inteiro gritou gol, aquele gol longo, goooooool, secundando o locutor alucinado na televisão, duzentos milhões de gritos simultâneos. O que eu estava fazendo ali? Minha vó sentada na cadeira de ratã, o calor derretendo o fio do telefone, minha mão virando água, a literatura americana, o curso, o aluguel também atrasado, a vida. Sim, eu disse sim, venha, não tem importância você estar atrasado, você pode recuperar o tempo perdido, acrescentei uma piada sobre Proust, ele obviamente não entendeu, nem riu, tudo bem, vida que segue, não se pode ganhar todas. Houve uma pausa e então um cachorro uivou gooool ao longe. Eu ri, ele estava atrasado também, minha vó xingou o juiz. O calor ia nos matar a todos.

 

Legado das letras

girafa-neve

 

 

Era um escritor com muita coisa a dizer e poucos ouvintes, ao contrário dos que têm pouco a dizer e legiões por audiência. “Seu problema é ácido”, dizia um amigo, sem qualquer intenção de subtexto. “Suas palavras, farpas”, ajuntava outro. O que muita gente quer é que lhes derramem mel nos ouvidos, portanto não te prestam atenção. Agreste, destemperado, os textos lhe refletiam as ideias mais do que a existência, que passava entre livros e debates. “Se sua vida se desmoronasse”, sugeria um. “Alguém te recolhesse bêbado a cada noite numa sarjeta diferente”, indicava outro. “E depois você se recuperasse, como quem volta dos mortos, a aura de sofrimento redimido é sempre uma opção interessante”, avaliava o mais cínico dos amigos. “Ou as glórias editoriais te cobrissem de ouros e louros”, adicionava em rima um sexto. “Trezentas entrevistas, convites em chuva, sua opinião sobre a fúria dos ciclones e o futuro das nações”, as variantes eram sugeridas, os cenários desenhados no mapa, queriam ajudá-lo. “Sua cota de carisma é normal demais, nem te falta algum como tampouco te sobra o que seria bastante para que esses desenhos virassem realidade”, diagnosticou aquele outro. O escritor levantava as laterais do braço para baixá-los em seguida e escrever que deu de ombros, contrição e honradez como bússola. Gosto amargo na boca levado adiante pela conduta estoica, embora às vezes sinta comichões de afogar o dissabor em desmesuras alcoólicas. Fingia lhe bastarem o convívio com personagens e histórias saídas da invenção. A falta que sentia de leitores seria recompensada, se fosse, pela posteridade não desfrutada, quando na conta das ideias não faz mais diferença a equação do carisma. Enquanto isso conversa com Becketts, Roths, Bellows, Sternes, Machados, como se fossem convidados do chá. Algum conselho, senhores?, demanda, mas, macacos velhos, sorriem entristecidos e nada dizem. Sobre certos assuntos, alguém recorre a Wittgenstein, é melhor calar. A última recompensa dos persistentes é o futuro, aforisa um deles, difícil precisar quem. O anúncio do silêncio sempre deve ser feito com palavras, é o que se sabe, o escritor acha que foi de Fernando Pessoa este comentário, ou de uma de suas variantes. A solidão é a solidez do escritor, vaticina. Hora de oferecer mais chá, o escritor pensa, e também: nessas companhias o que não senti foi solidão. Faz um conto em que consegue ser lido por esses que julga seus pares e, mais do que empáfia profissional ou despeito, recebe ponderações e elogios. Literatura é feroz, ele sabe, mas se disfarça muito bem de elegância, esse que é um dos principais trajes. O escritor cria um personagem, francamente inspirado em si, que anota contos parecidos com os Robert Walser e os de Lydia Davis, mais na economia de palavras do que nos conteúdos. Termina todas as histórias com a única e mesma palavra, que ele julga ser uma das mais expressivas da literatura, pelo que tem de potencial explosivo e de silêncio, de aposta: continua…

 

legados

foto | elvis martínez smith
foto | elvis martínez smith

 

 

então, a morte é esse momento em que a pessoa desiste de viver — o excesso de vida a exaure — ou o momento em que a vida desiste da pessoa, por achá-la de alguma forma desinteressante e destituída de atrativos para a continuidade? a pergunta, para a qual ele não tinha a menor ideia de sequer por onde começar a responder, assolou-o certa tarde durante a leitura de o legado de humboldt, o romance de saul bellow a respeito da relação de charles citrine e do amigo von humboldt fleisher, ambos intelectuais. havia esse momento do romance em que citrine é convocado para fazer parte de um júri e aproveita para ler revistas ou cartas ou pensar temas e questões para o ensaio que deseja escrever a respeito do tédio. “desde o início, a humanidade experimentava fases de tédio, mas ninguém se aproximava do assunto de frente e pelo centro, como um tema em si mesmo”, citrine registrava no livro, ou bellow travestido de citrine, uma vez que a orelha do livro diz que o romance se baseia na relação de bellow com o poeta delmore schwartz. depois ele diz que o tédio é talvez um tipo de dor, provocada “por faculdades não utilizadas, a dor de talentos e possibilidades desperdiçadas”. nosso amigo ficou pensando como foi que da leitura de dois trechos dedicados a discorrer a respeito do tédio e suas motivações sua cabeça fez um salto para começar questionamentos a respeito da finitude humana, mas é sabido que o cérebro tem analogias próprias que muitas vezes escapam a uma organização racional. então nosso amigo deu um suspiro, produziu uma anotação e deixou a vida prosseguir o curso.

 

roth, 8

foto | alexey nikishin

 

 

a grande peça que a biologia prega nas pessoa é que a gente já é íntima antes mesmo de saber coisa alguma a respeito da outra pessoa.

*

é importante traçar uma distinção entre o morrer e a morte. o morrer não é um processo ininterrupto. se a gente tem saúde e se sente bem, é um processo invisível. o final que é uma certeza nem sempre se anuncia de maneira espalhafatosa.

*

a única obsessão que todo mundo quer ter: o “amor”. as pessoas pensam que quando se apaixonam elas se completam? a união platônica das almas? pois eu não concordo. eu acho que você está completo antes de se apaixonar. e o efeito do amor é fracionar você.

 

philip roth, o animal agonizante

 

roth, 1

foto | alexey nikishin

 

 

não sou eu. está longe de ser eu. é um jogo, uma brincadeira, uma fantasia a respeito de mim mesmo! sou eu servindo de ventríloquo para mim mesmo.

*

outros homens costumam ouvir com toda a paciência, como parte da sedução que acaba levando à trepada. é geralmente por isso que os homens conversam com as mulheres: para levá-las para a cama. já você leva as mulheres para a cama para poder conversar com elas.

 

philip roth, mentiras

 

emoções negativas

foto | katherine squier

 

 

da série inédita narrativas de empréstimo

 

por lydia davis*

 

um professor bem intencionado, inspirado por um texto que lia, certa vez enviou para todos os outros professores de sua escola uma mensagem a respeito de emoções negativas. a mensagem consistia inteiramente de um conselho de um monge budista vietnamita:

emoção, dizia o monge, é como uma tempestade: permanece por um tempo e então se vai. ao perceber a emoção (como a chegada de uma tempestade), a pessoa deve se colocar numa posição estável. deve se sentar ou se deitar. deve focar no abdome. deve focar, especificamente, na área logo abaixo do umbigo, e praticar respiração mental. se for possível identificar a emoção como emoção, será mais fácil lidar com ela.

os outros professores estavam confusos. não compreendiam por que o colega havia enviado a mensagem para eles a respeito de emoções negativas. ressentiram-se da mensagem, ressentiram-se do colega. pensaram que ele os estava acusando de terem emoções negativas e precisarem conselhos a respeito de como lidar com elas. alguns deles estavam, na verdade, com raiva.

os professores não escolheram encarar a raiva como uma tempestade que chega. não focaram em seus abdomes. não focaram na área logo abaixo de seus umbigos. em vez disso, escreveram de volta imediatamente, declararam que porque não compreendiam o motivo de ele ter enviado a mensagem, ela os encheu com emoções negativas. disseram a ele que seria preciso muita prática da parte deles para superar as emoções negativas provocadas pela mensagem. mas, prosseguiram, não pretendiam realizar a prática. longe de estarem preocupados com as emoções negativas, disseram, eles na verdade gostavam de ter emoções negativas, especialmente dirigidas a ele e a sua mensagem.

 

* tradução minha, pela qual me responsabilizo, na eventualidade de haver cometido equívocos. retirado do site the coffin factory.

 

leitura com prazer

 

 

robert alter, em os prazeres de ler numa era de ideologias:

“ler é um prazer privilegiado porque cada um de nós se agrada, de modo complexo, de maneiras que não são reproduzidas por mais ninguém. mas existe uma quantidade de base estrutural comum no próprio texto de modo que podemos conversar uns com os outros, e até mesmo de vez em quando persuadir uns aos outros, a respeito do que lemos: e aquela conversação de muitas vozes […] é uma das mais gratificantes respostas para a criação literária, atrás apenas da própria leitura.”

 

quem escreve

 

 

paul auster, escritor norte-americano:

“a coisa que procuro fazer em todos os meus livros é deixar espaço suficiente na prosa para o leitor habitá-la. porque eu acredito definitivamente que é o leitor que escreve o livro, não o autor. no meu próprio caso como leitor (e certamente que li mais livros do que escrevi!), descubro que quase invariavelmente me aproprio de cenas e situações de um livro e as enxerto em minhas próprias experiências — ou vice-versa. ao ler um livro como orgulho e preconceito, por exemplo, me dou conta a certa altura de que todos os eventos se passaram na casa onde cresci quando criança. não importa quão específica seja a descrição de um escritor acerca de um lugar, eu sempre dou um jeito de transformá-lo em alguma coisa familiar. perguntei a um bocado de amigos se isso acontece com eles também quando leem ficção. para alguns, sim, para outros, não. acho que isso provavelmente tem muito a ver com a relação de cada um com a linguagem, como alguém responde às palavras impressas no papel. se as palavras são apenas símbolos, ou se elas são passagens para nosso inconsciente.”

 

possível

foto | thorsten jankowski

 

 

david levithan, o reino da possibilidade:

“eis o que sei sobre o reino da possibilidade — está sempre em expansão, nunca é o que você acredita ser. tudo a nossa volta foi considerado impossível um dia. dos aviões sobre as cabeças aos telefones nos nossos bolsos, até mesmo a garota certinha com os braços em volta do metaleiro. por mais difícil que seja para ver, às vezes, todos existimos dentro do reino das possibilidades. a maioria dos limites são invenções de nosso próprio mundo. e mesmo assim, todos os dias cada um de nós faz tantas coisas que já foram impossíveis para nós.”

 

fitz e joyce

 

 

desconheço a fonte e não sei se é fato, mas é interessante o suficiente que pode bem ser. dizem que sylvia beach, a editora do james joyce, deu uma festa para que f. scott fitzgerald pudesse encontrar seu herói, o autor de ulisses. parece que o americano ficou com medo de se aproximar do irlandês e a certa altura, não se sabe se a custa de champanhe ou nervosismo, ajoelhou-se na frente dele e disparou: “como é se sentir um grande gênio, sir? estou tão feliz de vê-lo, sir, que poderia chorar”.

 

amigos para sempre

 

 

betty smith, autora de uma árvore cresce no brooklin, diz o seguinte:

“daquele momento em diante, o mundo era dela por causa da leitura. nunca estaria sozinha de novo, nunca perderia o laço com amigos íntimos. livros se tornaram amigos e havia um para cada humor. havia poesia para um companheirismo tranquilo. havia aventura para quando ela se cansasse das horas calmas. haveria histórias românticas quando ela se tornasse adolescente e quando quisesse sentir proximidade de alguém poderia ler uma biografia. naquele dia em que ela se deu conta pela primeira vez que podia ler, fez um voto de ler um livro por dia enquanto vivesse.”

 

philip roth: trecho

“não é o sexo que é corrupção — é o resto. sexo não é só atrito e diversão superficial. é também a maneira de nos vingarmos da morte. não se esqueça da morte. não se esqueça da morte jamais. é verdade, também o sexo tem um poder limitado. eu sei muito bem quais são os limites desse poder. mas me diga uma coisa: existe poder maior?”

de o animal agonizante (companhia das letras, 2006)

crises criativas

philip roth fotografado por nancy crampton

dois escritores comentam sobre dores e delícias de escrever.

paul auster, em leviatã.

“ninguém pode dizer com certeza de onde vem um livro, muito menos a pessoa que o escreveu. os livros nascem da ignorância e, se continuam a viver depois de terem sido escritos, isso acontece apenas na medida em que não podem ser compreendidos.”

philip roth, em a marca humana.

“tudo o que posso fazer, para o bem ou para o mal, é o que todos fazem achando que sabem. eu imagino. sou obrigado a imaginar. só que, no meu caso, isso é meu trabalho. minha profissão. é a única coisa que faço agora.”

philip roth, em zuckerman unbold.

“o que é a crise na vida de um escritor? que obstáculos ele deve superar na relação com o público?”

“primeiro, sua indiferença; então, quando ele tem sorte, sua atenção.”

criações

ler não me deixou mais inteligente ou mais bem preparado para a vida. no entanto leio e a leitura me provoca grande quantidade de prazer. transfiro minha mente para essa dicção alheia que articulou a trama e percebo semelhanças e diferenças na conclusão da história, entre o que está escrito e o que eu mesmo poderia fazer se fosse eu o autor. surpreendo-me com as ideias discutidas, reviravoltas na trama, mas sobretudo penso nesse modo estranho com que as ideias do autor dialogam com as minhas, esse modo silencioso e breve, praticamente irreprodutível. a raiva explosiva dos romances de philip roth ou a longa ladainha (mas envolvente ainda assim) que surge das páginas de um josé saramago, as reflexões narrativas que são a base dos livros de enrique vila-matas ou mesmo o tom entre irônico e melancólico de um machado de assis apresentam para mim aspectos variados e interessantes a respeito de como enxergar e estar neste mundo, com os quais encontro afinidades ou discrepâncias. nos momentos em que os leio sinto-me em muito maior sintonia com esse ambiente onde eles articulam essas histórias — esse mundo eminentemente literário, constituído de palavras sobre papel — do que com o mundo concreto e real que tenho a volta de mim.

poderia escrever um livro a respeito de alguém que, de tanto gostar de ler, por preferir essa vida ficcional à real, um dia se transforma em personagem de ficção e passa a interagir com outros personagens de ficção, como se pudesse morar nos livros. essa interação se faz, a princípio, de modo que ninguém perceba. afinal, quem lê pela primeira vez um madame bovary ou um moby dick não sabe o que vai encontrar ou, se sabe, sabe apenas em linhas gerais, sem necessariamente conhecer os pormenores. por exemplo, o número e o nome de personagens secundários.

assim, esse personagem pode aparecer como secundário aqui e ali e não ser percebido durante muito tempo. até que um dia um especialista volte a fazer a leitura de um livro clássico (porque sim, esse meu personagem escolheu começar o passeio pelos clássicos) para um estudo que pretende realizar e se dê conta de que a história está diferente do que lembrava. há um personagem novo que não se recorda que existia antes.

adendo: este livro pode se chamar o leitor, ou paixão pelos livros, quem sabe realidade abdicada ou o homem de papel. o livro poderia ser uma espécie de retratos de fidelman, o romance em contos de bernard malamud, ou lembrar em alguns aspectos a sequência do sujeito que mora em pinturas clássicas no filme sonhos, de akira kurosawa. no mínimo, deve mencionar essas hipóteses, bem como as várias situações em filmes de woody allen em que essa interface entre mundo ficcional e real se estabelece.

adendo 2: isso que acabei de escrever aqui mistura ensaio com ficção e pode ser um novo gênero que acabo de criar, o ensaio narrativo.

the ghost writer

o tema do duplo sempre interessou à literatura e, ainda mais, o tema do escritor fantasma, daquele que fica à sombra de alguém que assina o texto escrito pelo tal fantasma: a individualidade, o ego precisa ir ralo abaixo sem dó. o primeiro dos livros de philip roth a apresentar o alter ego nathan zuckerman chama-se exatamente the ghost writer. nove livros depois, quando zuckerman será usado pela última vez, o livro se intitula, em português, fantasma sai de cena. no caso, o alter ego é pretexto para falar a respeito de temas literários, próprios ou alheios. mas o tema do escritor fantasma também interessa ao cinema, como prova o filme mais recente de roman polanski, the ghost writer. com doses bem medidas de tensão e drama, polanski fala novamente a respeito da vítima sacrificial. ewan mcgregor desliza bem pelo papel entre tolo e determinado. chove muito, ou o tempo está sombrio (o clima externo para indicar o interno já foi utilizado pelo próprio polanski na versão cinematográfica de macbeth, de shakespeare). que isso se pareça com a situação do próprio polanski, em prisão domiciliar na suíça, não surpreende: ele sempre teve uma singularidade diferenciada pela relação intensa com tudo. existe um artista polanski em conflito com o mundo e existe o ser humano que está preso na suíça. difícil definir qual dos dois é o fantasma.

o nervo da vida 3

trecho do romance inédito intitulado o nervo da vida. ainda do capítulo seis. neste momento, o professor sérgio pedro termina uma das aulas a respeito de philip roth:

sérgio pedro ainda se estendeu bastante falando de mickey sabbath, para, antes de liberar os alunos ao final da aula, lhes dizer algo a respeito de philip roth que julgava importante ser dito.

⎯ a literatura dele é maior do que a vida. de onde esse cara tira tanta coisa? às vezes, eu acho que tem um buraco dentro dele onde ele vai buscar essas coisas a respeito das quais fala. tenho certeza de que vou chorar muito no dia em que ele morrer. mas, até lá e mesmo depois, vou ler e reler a obra dele tantas vezes quantas a vida, o tempo e as circunstâncias me permitirem. acho graça nos livros novos, porque toda vez que eu pego um livro dele eu me surpreendo. ele faz cada livro diferente do outro, embora os temas sejam comuns. por favor, tenham isso em mente quando forem estudar e produzir os ensaios e não se esqueçam, semana que vem…

foi ao final da primeira aula a respeito de sabbath, da falta de limites sociais que aquele cidadão tinha como rotina e mecanismo de viver a vida, da intensidade absurdamente sedutora que ele lançava sobre todos os leitores, que sérgio pedro viu raquel se aproximar dele, esperando que todos os outros alunos que tinham se aproximado também falassem o que queriam dizer e fossem embora. ela nunca havia feito aquilo antes, se aproximar da mesa do professor depois da aula, pelo menos não com ele, ao longo do semestre. pela primeira vez, ela estava ali. era tão baixa como ele, tinha cabelos negros e escorridos, um rosto oval que teria ficado bem numa pintura de modigliani, lábios carnudos. olhe para a pessoa, sérgio pedro, ele se dizia, olhe para o que ela quer com você, não olhe só para o corpo, essa cintura fina, esses peitos grandes e apetitosos por trás dessa camisa de, o que é isso, cetim? e branca, camisa branca como ela é branca, pare com isso, seu animal, contenha-se. o que te importa que os seios estejam dizendo venha me pegar, por favor? esqueça isso.

o nervo da vida 2

mais um trecho do romance inédito intitulado o nervo da vida. ainda do capítulo seis. neste momento, o professor sérgio pedro fala de outro livro de philip roth:

numa das passagens mais ferozes de a marca humana, o oitavo romance que tem zuckerman como protagonista, o vigésimo segundo na fila dos romances de roth, coleman silk discute asperamente com delphine roux, a professora de francês que havia contratado quando era decano e que se tornou chefe do departamento de letras, justo quando coleman voltou a dar aulas. ela o chama para uma conversa porque recebeu reclamação de uma aluna. segundo essa aluna, o curso de tragédia grega de silk é falocêntrico e não apresenta uma perspectiva feminista de hipólito e de alceste, as peças de eurípedes que são analisadas. ele fica impaciente com a reclamação. não tem tempo para aquelas besteiras. sabe que aqueles alunos são ignorantes e sairão do curso do mesmo jeito que entraram. o politicamente correto contaminando tudo o tira do sério. aquele verão em que clinton teve seu boquete no salão oval da casa branca exposto ao público foi o mesmo em que coleman silk, um professor aposentado de setenta e um anos de idade, contou a zuckerman que estava tendo um caso com uma faxineira de trinta e quatro. foi o verão da santimônia. uma palavra entendida fora de contexto podia representar o fim da sua carreira profissional.

sérgio pedro dizia:

— não são as passagens factuais que tornam os livros de roth interessantes, aquele factual que existe dentro da ficção e que precisa da vida real como referência para se estabelecer, aquele real que lembra também o real que é chamado pelo nome técnico de verossimilhança. são as outras coisas, é o mergulho radical nesse lado de dentro que é o ser humano e que roth consegue fazer muitíssimo bem, é a discussão incessante do que significa estar no mundo, a crise permanente que significa estar vivo no final do século vinte ou no início do vinte e um. nenhuma conversa que você vai ter na vida real será tão densa ou radical como aquela que está sugerida no texto de roth. a literatura, nesse ponto, ganha da vida, disparado. embora exista para fazer com que cada leitor entenda o que é isso mesmo, a vida. um paradoxo. precisamos da literatura, supostamente ficção, para entender a vida, supostamente real.

fim da incerteza

em the humbling, romance de philip roth ainda sem tradução, o personagem é um ator em crise, simon axler. ele se envolve com uma mulher vinte e cinco anos mais jovem, pegeen, que passou os últimos dezessete anos em relações lésbicas. a certa altura, ele imagina um diálogo com ela, no qual pegeen lhe pede três coisas que quer: engravidar; que ele procure um médico que lhe faça cirurgia para curar as costas; que simon retome a carreira de ator. quanto à profissão, diz que é o mais difícil. ela responde, na conversa imaginária: “é uma questão de adotar um plano para acabar com a incerteza. um plano ousado de longo prazo”. gosto disso: acabar com a incerteza. como se fosse parte de uma decisão racional e sóbria. colocar o quê no lugar? ela não precisa dizer o óbvio: certeza. simples, não?

o nervo da vida 1

trecho de romance inédito que escrevi entre junho de 2008 e agosto de 2009, intitulado o nervo da vida. trata-se do capítulo seis, o último, e nessa passagem o professor sérgio pedro, protagonista do livro, ministra aula a respeito da literatura de philip roth:

— mas é com mickey sabbath e seu teatro de rua que a literatura de roth atinge uma marca no meu entender inédita, a de mostrar o processo de enlouquecimento de alguém com um movimento simultâneo de entender e acompanhar, ao mesmo tempo em que descreve os dois lados, o de dentro, os processos internos, e o de fora, o dos acontecimentos tal como ocorreram. o realismo como ferramenta para enxergar tanto o exterior como o interior. repararam que o teatro de sabbath não é um livro a respeito de sexo, como nossa mentezinha tacanha tende a pensar? o teatro de sabbath é um livro a respeito da loucura, da loucura disfarçada de sexo. meus amigos, essa é grande vantagem da literatura, como já disse em outra ocasião para vocês e não canso de repetir. a literatura te mostra o lado de dentro de alguém tal como você nunca poderá conhecer na vida real. a ficção faz isso por você, com a vantagem de permitir que você fique sozinho, que escute a voz daquela narrativa ao mesmo tempo em que escuta a própria voz, lendo, e daí a pouco se destaca dessa sua voz para chegar a você mesmo, o seu lado mais íntimo, e começar a debater com a sua voz que lê e com a voz do escritor que enuncia. não é o escritor que está ali, mas suas representantes, aquelas palavras que ele escolheu e burilou e arrumou naquele buquê bonitinho que ele te oferece. também não é você que está ali, mas aquela sua voz silenciosa que lê, você é o outro por trás dessa voz, que critica o escritor e critica até mesmo aquela sua voz que lê, você é o titereiro de si mesmo. a literatura é uma das mais intensas experiências que um ser humano pode ter. a boa literatura, bem entendido. mais até do que sexo, porque sexo uma hora começa a te abandonar, enquanto a literatura permanece ali, cada vez melhor.

professor

em o professor de desejo, romance de philip roth, o personagem do professor david kepesh (isso mesmo, senhoras e senhores, ele que também aparece em o animal agonizante) escreve uma aula inaugural que imagina dar na abertura do semestre, e essa aula é inspirada no relatório a uma academia, de franz kafka. kepesh estimula os alunos a entenderem as motivações originais que fizeram com que se interessassem por literatura, esquecendo-se de “forma”, “estrutura”, “símbolos” e tudo aquilo que em outro livro (a marca humana) ele chamou de bobajada. em seguida ele explica por que um curso a respeito de literatura erótica, qual é o desejo do professor. “adoro lecionar literatura”, diz david kepesh. acho maravilhosa essa passagem do livro, em que o professor abdica do discurso racional para dizer aquilo de que efetivamente gosta. ele se declara feliz entre anotações, textos escolhidos e pessoas como aqueles alunos. “para mim, não existe nada na vida que se compare à sala de aula.”