Sobre tempestades

geleira

 

 

Erguer o olhar para tempestade que se arma no horizonte. Encará-la a sério, como se fosse possível, apenas com o poder do olhar, dissolver o avanço da tempestade. Não é possível, mas isto já se sabia, mesmo que se tenha concentrado com seriedade na manutenção do olhar furioso direcionado a ela. Se fosse um relato de Kafka, algo muito estranho, inquietante e inesperado já teria acontecido: sentir-se molhado antes mesmo que a tempestade desabasse, por exemplo. Ou sentir-se molhado sem que haja qualquer nuvem no céu ou qualquer tempestade à vista. O mundo não é um lugar reconfortante. Há muitos recessos e campos abertos para a entrada do medo ou mesmo do desconforto. Ainda assim, dei uma resposta que achei interessante quando me perguntaram se não tinha medo de sair à noite. Não, eu disse, eu sou a razão pela qual as pessoas têm medo de sair à noite. Assim parecia melhor. Queria sentir que posso desmanchar a tempestade simplesmente olhando para ela.

 

delírio de carnaval

arte | jacob van loon
arte | jacob van loon

 

 

então chegou a época das grandes mutações. seres humanos convertidos em pássaros emplumados, bípedes alados não-voadores, carnes tremulantes que rebolam ao samba-enredo nhen-nhen-nhem. barbas que vestem baby-dolls transparentes, pelos suados que colam o tecido transparente, a alegria artificial do alvará emitido uma vez por ano para transformações em geral. imagina se kafka visse essa folia e depois se sentasse sozinho, na casa de papai em praga, para escrever a respeito do assunto.

 

demora

destinado a grandes pensamentos, mas com biografia trôpega como bem cabe aos personagens trágicos, ele recusou-se a assumir o destino o quanto pôde, vagueando entre histórias pessoais pequenas e incongruentes.

os deuses se impacientaram com a demora e desviaram a atenção para outra pessoa, deixando franz kafka num limbo da memória. renitente, saiu-se de lá com ótimas histórias, todas manchadas de escuridão profunda.

transformou o negror em forja e ferro para construir armas — elas parecem invencíveis.

êxtase

num livro de ensaios chamado os testamentos traídos, o escritor tcheco milan kundera menciona que êxtase quer dizer estar fora de si. a etimologia da palavra, explica, aponta para ação de sair de sua posição (stasis). portanto, deslocar-se. ele diz: “estar ‘fora de si’ não significa que se está fora do momento presente à maneira de um sonhador que se evade em direção ao passado ou em direção ao futuro. exatamente o contrário: o êxtase é identificação absoluta com o instante presente, o esquecimento total de passado e futuro”. ele não está propondo que se faça literatura a partir de êxtase, mas se o leitor for levado a isso por conta da leitura, ora, que seja. o exemplo que ele dá em seguida é bastante prosaico. o de um amante que, durante o ato sexual, não consegue se conter, ou retirar-se (deslocar-se, eu diria) a tempo do corpo da amante. a cena é imaginada por kundera se passando antes de existir a pílula anticoncepcional. o amante pode engravidá-la, mesmo que tivesse o propósito, momentos antes, de se conter. “o segundo do êxtase tinha feito com que esquecesse sua decisão (seu passado imediato) e seus interesses (seu futuro)”.

kafkianas

na obra de franz kafka, a altivez é confrontada com a culpa sem que qualquer acusação formal seja feita. os personagens não se martirizam logo — pelo menos não abertamente —, mas são levados a concluir pela própria culpa e daí a quererem castigo é um passo — castigo que não redime, bem entendido, porque não existe espaço para redenção na obra de kafka (o que, pelo contrário, gera opressão, mas também a torna mais consistente). o que há de terrível na obra é que toda essa tormenta se produz na ordem da intimidade, do familiar, aquilo que o leitor estaria esperando que ocorresse tão-somente na ordem pública. ou seja, o absurdo (tribunal, processo, burocracia sem sentido, culpa e expiação) está entremeado em todas as instâncias da vida.

chamas

literatura deve abrir um buraco no mar gelado do leitor, como se fosse um machado, escreveu kafka, não exatamente com essas palavras. discute-se agora que a obra que foi salva do fogo pelo amigo max brod não faria falta para a envergadura de kafka no cânone. pode até ser, mas que haveria muito lamento por essa ausência, disso não resta dúvida. e sempre achei que se quisesse colocar fogo mesmo nos papéis, kafka deveria ter agido sozinho, não delegado, e eu não aceito a tuberculose como pretexto para a esquiva.

quando adolescente e prestes a me mudar para brasília, queimei todos os poemas que havia escrito. foi ótimo, porque ao lançar aqueles papéis ao fogo me livrei de continuar a tentar escrever poesia (que é difícil demais e só pra gente grande) e livrei o mundo de mais uma tentativa de inchar o fluxo de palavras. embora não sirva para outros gêneros, porque continuo escrevendo romances.

que pelo menos, não publico.

interrupções

fui alertado por ricardo piglia que kafka não conclui os textos, mas os interrompe, fratura-os. curioso que me lembrei de um trecho de enganos e desenganos (lost in translation), em que o personagem de bill murray, no final do filme, antes de embarcar de volta para os estados unidos e à vida regulamentar, caminha até o personagem de scarlett johansson e murmura ao ouvido dela alguma coisa que o espectador não pode ouvir. gosto da cena. é um recado do autor: você, pobre animal, não precisa saber tudo o que acontece na narrativa.