Manter coerência

Imagem | Elena Arcangeli
Imagem | Elena Arcangeli

 

 

A ele sucedeu de escrever várias histórias — dois romances, cinco novelas, vinte e nove contos — cujo tema era o suicídio. No começo, os amigos se preocupavam. Não vá você imitar os personagens, advertiam. Ele ria, não se preocupem, replicava, não pretendo. Mas enquanto os amigos seguiram a recomendação e pararam de pensar no assunto, a crítica por sua vez não lhe poupou a redundância temática, a reiteração obsessiva, o excesso de “leitura focada”, que foi como traduziram a expressão para indicar uma vertente teórica de abordagem literária. Há limites para as obsessões, escreveu um deles, numa revista muito conhecida. No bilhete de despedida, que os jornais publicaram com grande estardalhaço, ele menciona a questão de manter a coerência, mas muita gente achou que ele queria somente atrair a atenção para a obra, que andava caindo em esquecimento.

 

Circuito em curto

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É verdade que Italo Calvino andou dizendo da minha primeira obra umas palavras gentis, chamou-me de inclassificável e fez soar como elogio. Depois os argentinos me procuraram, queriam lançar numa edição da Eterna Cadencia uma coleção de contos que viria junto de uma novela, sob o título geral de Manter distância. As negociações não avançaram, previ que se publicasse em Buenos Aires daí a pouco me procurariam os chilenos, os uruguaios e minha vida iria virar de ponta cabeça, sem sossego. Gosto do anonimato, dos contos que reproduzo em cópia barata e distribuo a esmo por aí, sem critério. Franco-atirador literário, nada de compromisso. Outro dia menti que tinha traduzido um livro do László Krasznahorkai, mas era um romance meu mesmo, a verdade é que nem falo húngaro. Teria sido mais fácil apresentar um livro meu como sendo a tradução do argentino César Aira, mas nesse caso teria sido mais rápida a descoberta da empulhação. Importante é divulgação, meus livros sob auspícios da fama alheia. O problema dos escritores é que são cambada de certinhos, cheios de pruridos e preocupados com fronteiras éticas. Por isso nem atendo quando dizem que é um escritor que me procura. Não estou, mando dizer. Não tenho paciência com esses tipinhos, todos melífluos, cheios de conversinha com rendas nas pontas. Que se fodam, eu digo, não atendo. Todas as éticas caíram junto com o muro de Berlim, seus idiotas. Os tontos ainda perdidos. Não aguento. Vou me virando como posso, vivo de expedientes, pequenos golpes, fraudes precárias. Acho crime profissionalizar o crime, como fizeram os políticos brasileiros. Mantenho a cabeça abaixo do radar e vou. Literatura trato a pontapés e quanto mais mambembe, mais me interesso. Escritores de verdade são os que viraram fantasmas, óbvio que nem todos. Talvez escape entre os vivos aquele sujeito da Noruega, Karl Ove Knausgård, que não tem papas na língua para falar mal da própria família, esse é possível respeitar. Boçais, os escritores. Mendigam publicações, concorrem a todos os prêmios, amam noites de autógrafos, frequentam felizes festivais literários nos quais arrotam sapiência e sensatez, sempre jogando as melhores frases para a plateia (no subtexto: gostem de mim, comprem meus livros). Que triste. Entram para o circuito, se esquecem que literatura só funciona em curto. Respeito escritores que levam a sério o ofício, sobretudo quando se matam. Morrer de velho é a tragédia da literatura, sua longa e histórica agonia. Ainda bem que os leitores vão escasseando, isso me dá o alento de que preciso para continuar mais um pouco, até que chegue a minha hora. Entro para o sistema, se minha cretinice falar mais alto e alguma oferta generosa aparecer — o sistema comporta e precisa de alguém com meu modelo de perfil —, ou entro em curto e me mato de uma vez. São minhas opções.

 

Alguns pormenores literários

Imagem | Sunga Park
Imagem | Sunga Park

 

 

Para escrever é preciso sobretudo caráter, e o que tenho sobrando é personalidade, às vezes nem isso. Para um escritor, personalidade é um truque funcional que ajuda a distrair a plateia durante um truque ou dois, mas o que o público realmente quer é encontrar a manifestação do caráter com o qual possa se identificar, seja porque é um ponto a ser almejado, no sentido de melhorar a vida, seja porque já se é detentor de caráter numa dose razoável e causa prazer vê-lo manifesto sobre o palco da arte. A personalidade é como o bobo da corte, diverte e mostra o quão interessante é ter diversidade de visão para que se possa questionar o como e porquê algumas decisões são tomadas, mas no fim do dia quem responde pelo bom ou mal estar da nação é o rei, não o bobo. Do rei se pede caráter, do bobo basta a personalidade.

 

Ruínas da literatura

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Ele escolheu ser escritor na época errada, quando a literatura enquanto novidade tinha se tornado obsoleta e as pessoas continuariam a ler apenas até perder completamente o impulso. Inércia, explicaria o físico, numa única palavra. Mesmo assim, ele acreditava que conseguia captar a grandeza do projeto, a literatura era como aqueles bustos de membros decepados que os gregos construíram por inteiro há milhares de anos e cujas ruínas eram admiradas hoje, sobretudo pelo poder de evocação que uma peça deteriorada pela ação do tempo provoca: o passado tem importância e um recado que merece ser ouvido. Mesmo assim, ele não iria desistir, simplesmente porque aquela atividade é que o ajudava a definir a pessoa que ele era no mundo, em ruína ou não.

 

Aviso de mostra de cinema literário

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Começou ontem (25) com José & Pilar e vai até sexta (28), depois de amanhã, a Mostra Internacional de Cinema Literário: José Saramago. No Museu Nacional, sempre às 19h, com exibição de filme e um comentarista que em seguida discute a relação entre cinema e literatura.

Hoje, o filme é Embargo, baseado num conto que está no livro Objeto quase. Amanhã, o filme é A jangada de pedra.

Na sexta, 28, quando o comentarista serei eu, o filme é Ensaio sobre a cegueira, de Fernando Meirelles.

A entrada é franca e todos sintam-se convidados.

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História lá das gringas

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— ?Sabeis qué? — ele perguntou, afetando sotaque hispânico.

— ?Qué? — ela imitou de volta.

— Alguém anda lendo esses textos do meu blog lá nos States. Todo dia verifico ali como quem não quer nada as estatísticas e sempre tem alguém dos Estados Unidos que entrou.

— Como quem não quer nada? Sei — ela disse. E depois: — Será que é o mesmo sujeito?

— Ou sujeita, vai saber.

— Será que é o mesmo ou a mesma? — ela insistiu.

— Não sei, mas alguém me lê em português bruto e mora nos Estados Unidos.

— Claro que deve ser um leitor brasileiro que se mudou para lá, ou aquela sua prima.

— Ou alguém de alguma universidade que começou a estudar português, encontrou meu blog, agora me segue e lê com fidelidade. Todo dia, as estatísticas confirmam.

— Você nunca vai saber — ela disse, e deu de ombros.

— Possivelmente não.

— E os leitores brasileiros? — insistiu. — Esses são mais fiéis, não?

— Estão mais próximos, me fazem um blogueiro contente, isso lá é verdade. Mas fico curioso com o gringo ou a gringa, sei lá. Algo tão distante.

— Os brasileiros, meu amigo, que te leem aqui no Brasil, comentam no seu blog, curtem com estrelinhas, te dão pelota, é com esses que você precisa se preocupar.

Ele pensou um pouco.

— ?Sabeis qué?

— ?Qué?

— Você tem toda razão.

 

Futuro da literatura

fósforo

 

 

O palestrante convidado para falar a respeito de como a literatura pode se relacionar com novas mídias, um tema que começava a dar sinais de exaustão mas prosseguia sendo agendado para todos os encontros, feiras, congressos, bienais, enfim, sempre que escritores eram chamados para propagandear ideias e textos para públicos cativos ou potenciais. A certa altura da exposição, o palestrante sugeriu que se escrevesse um texto na tampa de uma caixa de fósforos. Pensei em duas coisas. A primeira era que para alguém convidado a falar a respeito de novas tecnologias, a metáfora da caixa de fósforos parecia algo deslocada. A outra foi que não seria má ideia, no fim das contas. Usa-se a tampa da caixa de fósforos, escreve-se sobre o papel com as informações sobre marca, fabricação etc., depois acende-se um deles e coloca-se fogo da caixa, impedindo a posteridade de ler o tamanho da bobagem que custou afinal tão pouco espaço para ser perpetrada.

 

vantagens

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não dá para competir de igual para igual com esses caras que nasceram na europa, ele me disse. eles têm milhares de guerras no currículo, sem contar a segunda mundial, com sua sombra de terror elevada ao extremo, a primeira vez na história que a industrialização foi posta a serviço da matança de maneira explícita, sem qualquer disfarce. quando esses caras decidem fazer literatura, pode apostar que o tema vai ter outra pegada, não dá para evitar. eu assenti. mas não são só guerras que geram literatura, rebati. é também e sobretudo a vida. queria lhe dar um contraponto, um motivo para continuar, e estava pensando por exemplo no quixote. ele disse, mas a vida crivada de drama é sempre muito mais interessante.

 

perguntaram ao escritor por que ele escreve

ilustração | oliver jeffers
ilustração | oliver jeffers

 

 

escrevo para matar a sede da mente, ele disse. como quem bebe água. para diminuir a dívida que tenho com o mundo, esse cobrador desleixado e leviano. escrevo para pacificar os demônios internos, caso contrário eles tomam conta e é o inferno. também porque não sei fazer direito outra coisa, talvez uma xícara de café. ou até sei, mas essa coisa, escrever, parece que faço melhor e por esse motivo me parece a escolha natural, a mais lógica e também a apropriada, embora eu diga isso e sinta instantaneamente um ódio pela palavra apropriada e por mim mesmo, por tê-la dito. escrevo para mostrar que estou em desavença com o mundo, afinal não se apreciam os escritores a não ser daquele jeito superficial e supérfluo, dizendo que eles são sujeitos inofensivos que adoram noites de autógrafos, mesas de discussão literária e inútil a não ser para madames entediadas passarem o tempo entre uma nova aquisição e outra (hoje comprei um escritor, disse uma; qual livro?, quis saber a amiga; não, não o livro, adquiri o autor para mim, vou levar para casa e enfeitar a mesa do jantar com conversas inteligentes para variar) e concessão interminável de entrevistas para jornais e revistas em que invariavelmente terão de formular resposta à pergunta a respeito dos motivos pelos quais escrevem. num mundo que pergunta a um escritor os motivos pelos quais ele escreve alguma coisa está muito errada e sinto vontade de pedir ao condutor que interrompa o movimento para que eu possa descer. escrevo porque não sei operar costumava ser uma de minhas respostas. depois mudei para outra pergunta: e você, por que respira? e por um tempo usei a variação: você pergunta a um filósofo por que ele decidiu pensar? isso seria uma pergunta rude, não seria? do mesmo modo e extensivamente, uma pessoa inteligente perceberia aonde eu estava pretendendo chegar. a resposta, meu caro, a única resposta para sempre e para evitar a redundância insuportável da pergunta, é: não tenho alternativa. falando nisso, você aceita um café?

 

aviso de recebimento

megafone

 

 

 

 

 

 

é hoje que, na academia mineira de letras, recebo o prêmio cidade de belo horizonte, junto com meu amigo paulo renato souza cunha. o livro é quando termina, de contos, que permanece inédito, as editoras por enquanto nem piscaram. de qualquer modo, segue a cara dos malas, o dono deste blog à esquerda, o paulo renato à direita. aí na foto com cara de “vamos comemorar”, ainda sem saber que destino terá o livro daqui para a frente. será publicado? terá interesse das editoras? enfim, nenhuma novidade na saga da história dos escritores que querem ser publicados mas é mais difícil do que imaginavam.

foto | thaís figueiredo
foto | thaís figueiredo