Alguns tipos especiais de crime

Foto | Kanoa Ziemmerman
Foto | Kanoa Ziemmerman

 

 

Crimes planejados com antecedência têm maior propensão a adquirir algum tipo de valor estético. Fernando Paramundo, a quem os amigos chamavam Fernanmundo, planejou com o que julgava ser requintes de arte um ou dois crimes que contemplou durante um bom tempo, indeciso quanto a qual ocuparia lugar de destaque em suas prioridades. O primeiro era um assalto a banco, essa instituição que é a igreja do capital. Mas a questão era: em que ele mesmo se diferenciaria do dono do banco? Apenas no fato de colocar o aparato da polícia em seu encalço? Isso não parecia vantajoso. Fernanmundo optou pelo segundo plano, conquistar o coração de uma garota, em seguida infernizá-la tão completamente que ela acabaria louca ou cometeria suicídio. Desviar completamente uma vida dos trilhos, essa se tornou a opção. Hoje, quando recebe visitas dominicais de Rebeca no hospício onde é um hóspede como outro qualquer, ele sempre pergunta o que deu errado em seu plano. Toda vez, como um relógio, a mesma questão e nem sombra de resposta. Ninguém sabe muito bem por que motivo Rebeca continua a visitá-lo, há quem imagine se tratar de vingança, porque ela teria descoberto o plano de Fernanmundo. Mas isso talvez sejam maledicências que as pessoas sentem especial prazer em espalhar por aí.

 

efeito macedonio

foto | ana k
foto | ana k

 

 

estávamos indo ao aeroporto buscar uns amigos que chegavam de viagem, vindos de buenos aires, onde haviam passado um fim de semana prolongado que se iniciara na quinta-feira. eu, no entanto, é quem parecia que tinha estado no voo, porque estava acometido por aquelas ondas que parecem se manifestar quando se está num avião, algo entre o enjoo, o incômodo no ouvido e um mareamento que lembra o sono. sorrimos para nossos amigos e acenamos. eles puxavam malas com rodinhas atrás de si e não pude evitar de pensar em qual delas estaria o livro encomendado. mas cumprimos à risca os protocolos da civilidade e depois dos cumprimentos efusivos, abraços e trocas de risos, conversamos trivialidades durante todo o trajeto até a casa do amigos, quando então subimos ao andar onde ficava o apartamento deles para um café antes de deixarmos que descansassem. mas não resisti muito e dei um jeito de incluir na conversa uma pergunta a respeito do livro encomendado. “mas que livro?”, quis saber meu amigo. a mulher dele me olhou como se eu fosse um louco. “o livro que te encomendei, cara, do macedonio fernández.” meu amigo não se recordava da encomenda, nem sua mulher nem a minha haviam testemunhado a conversa na qual o pedido foi feito e o mal-estar que se instalou, pelo menos em mim, nunca foi devidamente superado —- não é à toa que tenho fama de ressentido. fato é que depois disso nós nos afastamos, mais por iniciativa minha, admito. muitos consideram um motivo pífio para fazer azedar uma amizade, mas um macedonio é um macedonio.

 

distribuição da loucura

girafa

 

 

ele bate bem da bola?, ela quis saber, um pouco irônica, antecipando a resposta. um ligeiro desviozinho, respondeu a outra, nada grave ou que afete o desempenho. as duas conversavam entre xícaras de chocolate e sacolas de compras depositadas nas cadeiras sobressalentes. do ponto de vista de ambas, loucura era apenas um atributo menor do namorado de uma delas, não algo que também pudesse ser colocado na conta pessoal de cada uma em particular ou de ambas, pelo conjunto da obra. entretanto.