Lembrar a infância

Foto | Lorraine Healy
Foto | Lorraine Healy

 

 

Meu analista me recomendou que escrevesse a respeito de minha memória e da infância. Tudo o que você conseguir se lembrar, ele disse, sério. Pensei imediatamente no romance de Italo Svevo, A consciência de Zeno. Passei numa papelaria e, dessa vez obediente, investi algum dinheiro sério num bloco de anotações que me agradou, importado e caro como um fígado ou um rim. Era o primeiro passo rumo à cura para iniciar o tratamento. Ou rumo a mais deslavada invenção, porque decidi que iria me dar uma infância atribulada e aventuresca, bem diferente do que tinha sido na verdade, com orfanatos, fugas espetaculares, sequestros, abduções, reviravoltas. Se minha doença não tiver cura — verdade é que de fato não creio que exista, é crônico e insolúvel meu problema —, pelo menos posso angariar algum reconhecimento como escritor de falsas memórias e lançar uma carreira literária, quem sabe. Então, a elas.

Tudo começou em…

 

Memórias embaladas

Foto | José Diniz
Foto | José Diniz

 

 

Passou a noite acordado, cheirando carreira depois de carreira de cocaína e ingerindo uísque em quantidades que beiravam a overdose. Depois viria a rebatida, estava ciente, uma ressaca física e moral, a constipação das narinas, a mente encolhida ao essencial ou nem isso. Mas naquele momento, a cabeça a mil. Memórias, pensou. Conexões difusas se estabeleceram. Ter consciência da memória — usufruir dela — é ao mesmo tempo o que salva e a maldição: estar condenado às lembranças (o que fazer com elas? Emocionar-se toda que vez que acessá-las? Bá), saber, por memória, que do mesmo jeito que os antepassados morreram você também vai morrer um dia. Só não há, não pode haver, memória do amanhã. O acúmulo do passado é a ruína do presente, a lentidão cada vez mais intensa do rio que recusa a gravidade e se submete a ela com morosidade. Ele precisa dar jeito nesse monturo de ruínas, descartá-las, reciclá-las, sei lá o quê, mas dar jeito. Só não será com a aceleração do presente promovida pela combinação de cocaína e uísque. Mas talvez a essa conclusão ele não chegue, se a overdose vir antes e só — e apenas só — se for fatal.

 

Tardes de sábado

Arte | Sepe
Arte | Sepe

 

 

Em algumas cidades do interior, brilha o sol mas não a vida. Essa segue modorrenta, arrastando-se por entre uma decisão lenta e um adiamento inadiável. Num lugar desses cresceu Airton, considerado pelo pais e professores bom menino — opinião compartilhada, no que diz respeito ao qualificativo, por Janete, que disse sim ao pedido de casamento, quando chegou a hora. Airton não usou de pompa, em circunstância tão corriqueira quanto esquecível. Memória não é o melhor atributo das pequenas cidades interioranas, há quem culpe o calor do sol ou o absoluto desinteresse generalizado pelo que aconteceu no passado. É uma cultura — ou a falta dela, a depender de quem argumenta. Fato é que Airton e Janete partilharam o leito e tiveram uma penca de filhos tão cretinos quanto desinteressantes. O terceiro de uma leva de oito, Juvenal, cresceu bruto e frívolo, combinação que pode ser desastrosa em algumas situações. Tentou ser sapateiro e trabalhar numa oficina mecânica, mas o emprego que se revelou duradouro foi no frigorífico. Numa tarde especialmente azucrinante, Juvenal conversava com um amigo tão tosco e brutal como ele mesmo, Dioclécio. Os sujeitos se embriagavam durante o turno, porque não havia o que fazer e precisavam esperar a hora de bater o ponto. Um carregamento de carne que aconteceria sofreu atraso, que não lhes dizia respeito, em termos de responsabilidade, de modo que se sentiam autorizados a beber no ambiente de trabalho. Dioclécio desafiou Juvenal, matar uma pessoa não era a mesma coisa que matar vaca, mas Juvenal teimou que sim e, para provar, pegou a faca e foi para cima de um rapaz que apareceu ali com o intuito de fazer uma cobrança, chamado João Vitor. Começou pela barriga e subiu com a faca até quase o pescoço, expondo as vísceras do jovem no chão encardido por tantos sangues animais. Quando Airton e Janete receberam a notícia de que o filho estava preso por assassinato, ele pensou diversas vezes onde tinha errado. Janete ficou na dúvida se teria alguma coisa a ver com a depressão que sentiu pouco tempo depois de dar à luz a Juvenal — doença que não lhe acometeu em nenhum dos outros partos. Fato é que às vezes é preciso afastar para o lado com a mão firme a pachorra que se acumula feito gordura em certas tardes de sábado, no interior.

 

O longo desvio

Foto | Logan White
Foto | Logan White

 

 

Levantou os olhos do papel e havia alguma coisa de antiga naquele semblante, algo de outro tempo, sabedoria, cicatrizes acumuladas, sofrimento curtido. As narrativas que lhe saíam das anotações revezavam minúcias e amplidões, chapadas inteiras de pensamento, ponderações microscópicas, seres imaginários se misturando com eventos reais que a memória intencionalmente produzia e misturava. Bebeu café, olhou a rua pela janela com a xícara na mão porque imaginou que era isso que esses caras faziam, consideravam o peso de alguma história medindo-a contra o mundo lá fora, o mundo com barulhos, cores, confusão intensa. Algo daquilo borbulhava também nas tramas e enredos, algo do caótico, mas de alguma maneira precisava estar ali com aparência de organização, certas elegâncias, um ajuste, mesmo no desgarramento mais audacioso. Este é o homem cujo fermento é interno, cuja expressão de calma suave se contrapunha com furacões, assassinatos, reviravoltas e revoltas, alucinações, com todo o destempero do mundo. Ele estava prestes a criar a trama mais contundente e provocadora do romance contemporâneo, estava à beira de descortinar para os semelhantes a verdadeira intensidade e vibração e loucura da vida no papel. Mas antes de voltar a toda essa confusão e atividade, precisava terminar o café.

 

Tomba a carrocinha

Foto | Balaton Kikasz
Foto | Balaton Kikasz

 

 

A casa era simples e havia pouco espaço para bagunça, mesmo assim meu pai fazia questão que os cômodos permanecessem mergulhados nela. Era como se fosse o recado dele para todos: estão vendo?, eu não ligo. Não que ele se achasse melhor do que o mundo, mas no fundo era isso: arrogância do desespero. E eu, mesmo que ligasse, não tinha direito a emitir opinião, ninguém me perguntava coisa alguma ou dava importância ao que sentia. A casa era simples e a rua em frente era de chão batido, o que significa muita poeira entrando pelas frestas e se depositando sobre a bagunça, por exemplo na louça suja que se acumulava na pia. Eu fazia uma visita, mais a meu irmão, que naquele momento estava morando com nosso pai, do que propriamente a meu pai, embora também a ele: queria entender por que tinha se separado de minha mãe, queria saber por que tinha sumido no mundo e não dava a mínima para os filhos. Meu irmão tinha se imposto a tarefa de morar com ele, mas resistiu um ano e depois mudou de ideia, quando os desentendimentos, as discussões superaram qualquer possibilidade de manutenção do convívio. No primeiro fim de semana da minha visita, depois que havia escutado Maria Bethânia cantar uma música de Chico Buarque num gravador — era a primeira vez que eu via um gravador, o que me causou sensação (a música me levou às lágrimas, eu tinha enorme propensão a me emocionar fácil com praticamente qualquer coisa que me afetasse e tudo me afetava; a letra falava de sonhos impossíveis) —, a família se reuniu na pequena sala da casa para assistir um filme de tomba a carrocinha, o modo jocoso como meu pai se referia aos faroestes: em todos eles chegava o momento em que os colonos tombavam as carroças que os transportavam ao velho oeste e faziam um círculo de carroças, de dentro do qual atiravam contra os índios que cavalgavam num círculo maior, em torno daqueles sujeitos que eram afinal os verdadeiros invasores, embora isso eu só fosse perceber bem mais tarde. Nossa conversa se resumia a comentários pejorativos sobre os filmes em preto e branco num velho televisor chuviscado que às vezes interrompia a transmissão. Por dentro, eu tinha sentimentos em polvorosa e milhões de perguntas que não sabia fazer, então engolia em seco e me exercitava também na arte do riso debochado, como se agir de acordo fosse o meu passe para pertencer de alguma forma ao mundo adulto. Aquele tipo de escárnio final não me foi muito útil, uma vez que eu tinha talento natural para tragédias, mas era a única ponte de conexão que nos definia como família naquele momento, enquanto eu permanecia com a sensação de morar um pouco no faroeste, embora não houvesse mais índios a dar combate, apenas muita poeira e as moscas que faziam festa sobre a louça esquecida na pia, com zumbidos cortantes.

 

Se tiver de ser assim 2

Arte | Eric Lacombe
Arte | Eric Lacombe

 

 

Mesmo que eu quisesse dizer tudo — mas entenda: não quero — mesmo que soubesse como abrir o bico e dizer tudo o que me vai pelo lado de dentro as coisas sairiam atropeladas e sem sentido e seríamos obrigados a desistir eu de falar você de ouvir — forçados a concluir o óbvio: palavras não conseguem dizer não têm as nuances para esclarecer as emoções. Palavras são pragmáticas demais funcionais demais comunicação de superfície: a vida é o que está embaixo no subsolo das palavras. Seria preciso um dicionário das emoções estou convencido. Mas quá seria também ineficaz. Não sei como resolver simplesmente não sei. Nada mais para dizer a memória acaba de me levar para uma tarde na infância em que chovia e eu observava a água bater no vidro da janela a temperatura caía eu triste melancólico e feliz com a melancolia porque era minha e autêntica e emoção: pelo menos eu a tinha naquela época. A chuva no vidro mas agora do carro enquanto sou levado para casa escorregando rumo a um sono reconfortante o sono da melancolia reconfortante. Posso descansar a vida tem atrativos. Talvez eu não fosse feliz ainda mas sentia que estava ali ao alcance da mão. Precisa de coragem ou de medo? Ainda não sei dizer. Todas as coisas que devo esconder todas as emoções que não sei expressar todos os silêncios quando nem eu nem quem estivesse comigo tínhamos o que dizer aquele hiato difícil aquele vazio que poderia ser atravessado por uma galáxia escura. A vida é triste. Mas às vezes é engraçada. Um monte de coisas de uma só vez ou em sucessão. Um pensamento que vai e volta uma borboleta no jardim iluminada pelo sol brilhante de depois da chuva.

 

Algumas lembranças de outro tempo

Foto | Brian Bowen Smith
Foto | Brian Bowen Smith

 

 

Antes de perceber os fantasmas, eu tinha todas as dúvidas voltadas para mim mesmo. Era o que garantia, eu pensava, que os meus pensamentos fossem efetivamente meus e não implantados em mim e controlados a distância por aquele que os implantou, com tal sutileza que me fazia inclusive duvidar da autonomia dos meus pensamentos. Ou, por outra, o que garantia em mim a autenticidade humana? O sangue que escorria pelos meus dedos ou pela minha testa quando eu me machucava em alguma brincadeira parecia ser apenas mais um elemento do dispositivo implantado em mim para me enganar melhor. E se descobrisse um dia que eu era um robô tão sofisticado que tinha um implante de mecanismos de pensamento que conseguiam inclusive formular essas questões e, tal como ocorre com os demais humanos, não ter a mais remota ideia de como ia começar a respondê-las. Talvez essa grande quantidade de questões que me assolavam estavam vindo do fato de que eu era deixado muito tempo sozinho na infância, com muitas horas vagas para especular e especular novamente, formulando e reformulando questões e narrativas pessoais nas quais eu poderia abolir a previsibilidade do mundo convencional e me comportar de modo semelhante ou melhor do que aquele que testemunhava nas histórias em quadrinhos que me eram dadas para ler, ou nos filmes que podia assistir uma vez por semana no cinema perto de casa ou em bases mais frequentes na televisão, que tinha afinal horários muito restritos — e eu, outras obrigações e afazeres, de modo que o acesso também era limitado e controlado. Mas em tudo isso que estou contando o importante, me parece, é perceber — o que consigo agora, mas não sei bem se tinha essa consciência à época — que um garoto deixado sozinho por muito tempo vai desenvolver um lado muito introspectivo, ruminante e cheio de indagações, mas que não sabe para quem deveria formular, de modo que as ruminações sofrem quase sempre uma segunda rodada de reflexões e novas elaborações mentais. Na vida real eu poderia estar indo a pé para a escola todos os dias, mas na imaginação eu voava, o que em geral causava uma sucessão de espanto e admiração entre as pessoas que podiam testemunhar, muitas deles meus conhecidos ou amigos, todos se transformando muito rapidamente em admiradores instantâneos. Na imaginação os voos se davam sem qualquer dificuldade, enquanto na vida real o máximo que eu conseguia sair do solo eram as corridas até em casa, tão intensas que me deixavam o peito dolorido de calor e a pele do rosto avermelhada por muito tempo, enquanto o cabelo grudava na testa, cheio de suor. O mundo se oferecia para ser desbravado e a verdade é que o meu repertório limitado não me sugeria caminhos melhores para desfrutar dele do que aquelas corridas desenfreadas ou senão uma brincadeira na rua com amigos que se estendia até escurecer e que parecia ter a extensão do infinito, mas que na verdade estava apenas na casa dos minutos.

 

Padrão que persiste

Arte | Giorgio Ortona
Arte | Giorgio Ortona

 

 

Uma pessoa sem memória é alguém sem vida, porque o que sou neste momento é resultado do modo como sei elaborar e perceber os eventos do passado. Estava tentando explicar isso para Júlia, que parecia relutante, mas que também hesitava em manifestar opinião, talvez temesse o confronto comigo, talvez não estivesse segura da melhor forma de manifestar ideias, pelo menos naquele momento ou em relação ao tópico. A memória, Júlia, eu disse, é a grande responsável por me definir. Sem memória, ela finalmente rebateu, o mundo seria novo de novo e a cada momento. Sinto falta desse frescor, dessa possibilidade de ver o mundo como se fosse a primeira vez. Seria assustador, rebati, é como esses adultos despojados da própria memória, você já teve oportunidade de conhecer alguém assim? É lamentável, insisti, é como se o sujeito fosse despojado de si mesmo. Nós somos o resultado do que fazemos com nossa memória, é o que nos define. Pobre dos brasileiros, então, ela riu, parecendo concordar com meu argumento, pelo menos por um instante. Pois é, ri também, pobre de nós, que nos esquecemos de muita coisa, de quase tudo, do essencial, e perdemos a identidade o tempo todo. Aliás, é por isso que ficamos a discutir a identidade brasileira. Mas tive a impressão de que ela ainda pensava a respeito da possibilidade de ver o mundo com olhos renovados e sentia tristeza de não poder simplesmente apagar a memória, por um dia que fosse, para depois recuperá-la. Seria uma pena vê-la nessa condição, porque Júlia estaria com olhos desmemoriados e um entusiasmo estranho.

 

A restituição impossível

Arte | Lissa Bockrath
Arte | Lissa Bockrath

 

 

Eu não estou aqui, não estou em parte alguma, a impressão que tenho é que passei a vida toda distraído com alguma coisa que não estava ao meu alcance, em vez de ir seguindo concentrado o fluxo dos dias e fazer observações perspicazes — ou no mínimo atentas — aos eventos que se deram a minha volta. O que penso, ao olhar retrospectivamente, é que gastei tempo demais na primeira parte da minha vida observando com atenção os pormenores em volta de mim, os detalhes dos objetos, prestei atenção excessiva a cores e formas, encantei-me mais do que era razoável. Com isso, perdi a grande perspectiva que busca compreender períodos extensos e situações amplas. Quando me concentrei nessa outra parte, na segunda parte da minha vida, percebi que os desenhos de paisagem, os grandes planos não contemplam as minúcias, os detalhes das coisas, seres vivos, o recorte explicativo, o pormenor esclarecedor. Sempre havia algo a me escapar por entre os dedos, algo que parecia importante o suficiente para me fazer pensar a respeito daquilo que estava perdendo. Com isso, me distraí de compreender com exatidão o que sou e como funciona a vida por perto. Me distraí inclusive de mim mesmo, porque na segunda parte da minha vida comecei a me dar conta que a minha memória era composta sobretudo por aquela visão distorcida — minuciosa demais, cheia de detalhes demais — apreendida na primeira parte. E a decisão mais sábia, me pareceu, era limpar a memória dos excessos para manter as essências. Mas quem define o que deve ficar e o que escorrega para o abismo sem fim do esquecimento não é uma operação inteiramente lógica, de modo que me dei conta de algo preocupante: minha memória descartava eventos e situações que eram importantes e cruciais para serem assinalados numa biografia do homem comum que afinal sou, de modo que comecei a perceber que estava perdendo porções inteiras de lembranças importantes, que iam embora levando consigo as emoções a elas atreladas. Eu estava me perdendo de mim, de novo e de novo. Houve um período em que tentei me destacar dos outros exibindo publicamente personalidade: forte, controversa, exuberante, havia nuances atreladas a cada situação e eu era capaz de variar. A personalidade é uma espécie de espada social com a qual se esgrime contra seus pares ou adversários, com vistas a ampliar a memória a seu respeito, expandi-la para que não seja registrada tão-somente pelo seu próprio sistema interno de registro — como se sabe, ele é problemático e tem falhas incríveis de apuração. A personalidade, no entanto, é apenas um dos aspectos que te ajudam a se definir enquanto humano. E os outros elementos também precisam ser considerados. Sobretudo, o modo como não apenas você é o detentor de um sistema complexo de emoções, mas além disso o que é que você faz para registrá-las ou transmiti-las para os demais? Esse é o ponto difícil da questão. Você transmite as emoções de alguma forma, mas começa a perceber que os outros humanos jamais serão capazes de captar as sutilezas delas, jamais sentirão as coisas do mesmo modo nem captarão racionalmente o que existe afinal de lógica na manifestação das suas emoções. Então, você começa a pensar, qual é o sentido de extravasar isso se a compreensão é mínima ou mesmo inexistente? Você então passa a um outro regime, o de economizar na manifestação das emoções, cada vez mais, cada vez com maior eficiência. Por esse motivo, talvez, é que se observa com desconfiança os velhos que são expansivos, intuitivamente se é levado a concluir que se trata de pessoas que não amadureceram. E quando percebe, o que você esteve fazendo esse tempo todo foi abrir mão de ser você mesmo, de agir de acordo com as expectativas alheias ou, pior, com o que você julga que sejam as expectativas alheias. E não te ocorre pensar que seu julgamento pode estar profundamente equivocado. Ou mesmo que estivesse correto, não te ocorre pensar que talvez você deva viver a sua vida do jeito que achar melhor, sem ligar para o que os outros estão pensando ou se estão fazendo críticas a sua conduta e aos seus valores. Você chega mesmo a dizer algumas vezes para os outros que não liga para o que as pessoas acham, você gostaria de acreditar na verdade do que está dizendo, mas no fundo começa a perceber que sim, você se tolhe e observa de modo geral qual é a etiqueta vigente e procura segui-la na medida do possível. Os loucos parecem ser os que verdadeiramente conseguiram abolir todas as convenções sociais, mas em compensação foram todos confinados nos mesmos hospícios para que seu comportamento libertário não atrapalhe a malha social constituída por impedimentos, cerceamentos, restrições. O louco talvez seja o único ser humano que está em contato consigo e com a verdade do ser em si, talvez por isso precise se desvincular tanto dos demais e aparenta ser alienado: o contato verdadeiramente íntimo implica numa ruptura com esse mundo exterior revestido de tantas e tantas aparências e da manutenção dessa suposta ordem. O louco é o humano que deu certo, embora pareça justamente o contrário. Quando todos tivermos o projeto coletivo de enlouquecer será o momento em que a humanidade terá chegado ao estágio correto de amadurecimento. Infelizmente, a loucura não é um projeto que dá para encarar de maneira racional, não é possível ser louco com hora marcada. É preciso que esse meu flerte com a loucura pudesse ter sido convertido num mergulho radical, se eu tivesse tido a coragem, mas fui covarde e nunca pulei de cabeça. A história ensina que os loucos sofrem — confinados, medicados, terapeutizados — na mão da maioria, que não abre mão de tentar “recuperar todos” para o projeto avassalador da razão, esse império que atravessou séculos e fronteiras, muito mais eficiente do que qualquer capitalismo chinfrim. A razão é o que nos perde a todos, a razão é o grande projeto alucinado do qual não conseguimos nos desvencilhar. Por isso fico achando que me perdi, fico lacônico pensando nos estragos que a memória me proporcionou, fico triste pensando nas porções de mim mesmo que perdi, preocupado em restituir o que não pode ser recuperado jamais.

 

Tempo tempo tempo

Arte | Marc Chagall
Arte | Marc Chagall

 

 

Hoje é o tempo presente, sempre aqui, de forma avassaladora a me consumir por dentro, a me enviar memorandos para mim mesmo no futuro — quando então será o presente e minha memória terá consumido em chamas boa parte do meu passado. Os humanos estamos sempre equilibrando essas noções peculiares e estranhas do tempo tripartido, talvez por isso essa nossa eterna cara de insatisfação, esse desconforto visível com um monte de coisas pequenas para disfarçar essa outra, maior, devastadora e incontornável que virá, a última chamada da qual já se tem consciência agora.

 

Âncoras da vida

Foto | Dave Jordano
Foto | Dave Jordano

 

 

Por não saber lidar com toda a intensidade de ser livre, apenas as plantas dos pés fixas no solo e todo o resto ao ar livre (livre!), o homem inventou contenções: roupas, cadeiras, paredes. Ele se restringe, apequena-se, para e reflete, cogita, anota, inútil e sedentário, alheio ao vento que esbarra na vidraça e é desviado. Você se lembra da tarde em que o sol se punha e você mergulhado num jogo de bola de vida ou morte (o coração aos pulos como se daquilo dependesse o destino do universo) no meio da rua — sua vontade era que o sol jamais se pusesse, o jogo jamais terminasse, prolongado por toda a eternidade e além — até que se tornou impossível ver a bola e a noite afinal demarcava o limite do horário para voltar para casa, tomar banho e jantar. O ciclo das estações, o intercâmbio das amizades, as flutuações das vontades, a intensidade concentrada que a vida possuía e que ganhou contornos mais dilatados com o passar dos anos, apaziguando angústias para ceder lugar a outras. A vida é besta, você é uma besta que fica relembrando o passado, ciente de que ele não volta e de que rememorá-lo não colabora, e lamenta as amarras, a quantidade de âncoras que o seu barco foi angariando pela vida afora.

 

o fim do mundo

avião

 

 

talvez seja tudo parte da sua imaginação, não sei. mas em 1969 você era um pequeno garoto, meio perdido, meio assustado, meio contente e curioso, quantas metades existem, mesmo? o fato é que do modo como você se lembra, junto com a informação pelo rádio (não havia televisão na casa da família naquela pequena cidade interiorana) de que o homem ia conseguir pisar na lua começou a se espalhar o boato de que o mundo se acabaria numa explosão e no começo aquilo parecia divertido, por que não?, que acabe, bem feito! mas o desespero da família começa a mudar sua disposição e logo todos estão chorando, você inclusive. quando o homem afinal pousa na lua e dá o grande salto para a humanidade, o mundo permanece onde está e a família esconde a vergonha num riso nervoso e aliviado. anos mais tarde, muitos anos mesmo, quando você tenta confirmar a história, as pessoas da família riem sem graça e desmentem, isso nunca aconteceu do jeito como você se recorda, dizem. parecem convencidas, tanto tempo se passou, aprenderam a disfarçar dissabores antigos. agora você vai ter que decidir em quem confiar: se na sua memória, que você sabe que lhe prega uns truques de vez em quando, se na sua capacidade de avaliar que a família está mentindo, porque sente uma vergonha incrível do modo como chorou naquela época e não quer em absoluto remexer nesse assunto.

 

quando estiver morto

arte | ian teh
arte | ian teh

 

 

um dia estarei morto, minha voz silenciada, minha memória extinta. por isso as palavras no papel, o testemunho do que pensei —- de parte do que consigo, ao pensar, dispor no papel —- enquanto vivi. talvez não sirvam para muita coisa, mas a mim, enquanto estou vivo, me ajudam a compreender a experiência entre estranha e intimidadora, às vezes contente, que é estar vivo.

 

reencontros

navio

 

 

podia ver nos olhos dela que não se lembrava de mim. aquele olhar que te atravessa e ao mesmo tempo gostaria de se virar para dentro para vasculhar melhor nos arquivos da memória. um olhar em fuga. comecei sem mostrar a sem-graceza, disse meu nome, ela tentou disfarçar, depois se via que procurava juntar aquele nome e a imagem do rosto, envelhecido de uns vinte anos e várias adversidades, o tempo que tínhamos nos visto pela última vez e as adversidades que eram parte da minha história pessoal. aquilo devia se encaixar em alguma situação específica: escola, trabalho, clube, círculo de amigos do bloco, de onde nos conhecíamos, ela devia estar se perguntando. despejei duas ou três perguntas óbvias sobre a vida em geral, em nome de uma polidez que respondia mais a algo meu do que dela, depois me despedi, sem esclarecer de onde nos conhecíamos. imaginei que levaria uns dez minutos de inquietação, se muito, até que ela se distraísse com algum outro assunto e lançasse a minha imagem e nome de novo para o buraco negro de onde a ausência de um lugar definido aguardava, com paciência.

 

todo mundo tem objetivos

arquibancada-trêmula

 

 

o meu objetivos, ele disse, é não ter objetivos. retiro um a cada dia, prosseguiu, um por vez e procuro não sentir falta. nesse caso, rebati, seu penúltimo objetivo terá que ser a perda de memória, para que ao chegar ao último objetivo você não possa ter a sensação de sucesso. ele sorriu meio tristonho. você tem razão, falou. o problema que enfrento é justamente esse. se perder a memória, prosseguiu, corro o risco sério de voltar a ter objetivos e aí a coisa não parar mais. você se parece muito com os seres humanos que eu conheço, falei, sem qualquer ironia. mas de um jeito diferente.

 

a velha tarde de chuva

ilustração | daniel hertzberg
ilustração | daniel hertzberg

 

 

havia num canto da memória uma tarde chuvosa dentro da moldura da janela de uma casa grande e ao mesmo tempo aconchegante, no aparelho de som a voz de simon e de garfunkel a sussurrar lamentos de velhos amigos sentados num banco a escutar o barulho da cidade. na inocência a que as antigas memórias são capazes de forjar existia solidariedade entre os homens e uma esperança de paz que terminou nunca aparecendo. os sonhos sempre ficam mais bonitos quando vistos através do filtro da memória.

 

cartas ao futuro

neste diário em que os dias adquirem dimensões próprias, variáveis entre as 24 horas do dia e um número bem maior de horas e dias, escrevo cartas solitárias para mim mesmo, para quando estiver mais velho e precisar de bengala para a memória.