Lembrar a infância

Foto | Lorraine Healy
Foto | Lorraine Healy

 

 

Meu analista me recomendou que escrevesse a respeito de minha memória e da infância. Tudo o que você conseguir se lembrar, ele disse, sério. Pensei imediatamente no romance de Italo Svevo, A consciência de Zeno. Passei numa papelaria e, dessa vez obediente, investi algum dinheiro sério num bloco de anotações que me agradou, importado e caro como um fígado ou um rim. Era o primeiro passo rumo à cura para iniciar o tratamento. Ou rumo a mais deslavada invenção, porque decidi que iria me dar uma infância atribulada e aventuresca, bem diferente do que tinha sido na verdade, com orfanatos, fugas espetaculares, sequestros, abduções, reviravoltas. Se minha doença não tiver cura — verdade é que de fato não creio que exista, é crônico e insolúvel meu problema —, pelo menos posso angariar algum reconhecimento como escritor de falsas memórias e lançar uma carreira literária, quem sabe. Então, a elas.

Tudo começou em…

 

Memórias embaladas

Foto | José Diniz
Foto | José Diniz

 

 

Passou a noite acordado, cheirando carreira depois de carreira de cocaína e ingerindo uísque em quantidades que beiravam a overdose. Depois viria a rebatida, estava ciente, uma ressaca física e moral, a constipação das narinas, a mente encolhida ao essencial ou nem isso. Mas naquele momento, a cabeça a mil. Memórias, pensou. Conexões difusas se estabeleceram. Ter consciência da memória — usufruir dela — é ao mesmo tempo o que salva e a maldição: estar condenado às lembranças (o que fazer com elas? Emocionar-se toda que vez que acessá-las? Bá), saber, por memória, que do mesmo jeito que os antepassados morreram você também vai morrer um dia. Só não há, não pode haver, memória do amanhã. O acúmulo do passado é a ruína do presente, a lentidão cada vez mais intensa do rio que recusa a gravidade e se submete a ela com morosidade. Ele precisa dar jeito nesse monturo de ruínas, descartá-las, reciclá-las, sei lá o quê, mas dar jeito. Só não será com a aceleração do presente promovida pela combinação de cocaína e uísque. Mas talvez a essa conclusão ele não chegue, se a overdose vir antes e só — e apenas só — se for fatal.

 

Tardes de sábado

Arte | Sepe
Arte | Sepe

 

 

Em algumas cidades do interior, brilha o sol mas não a vida. Essa segue modorrenta, arrastando-se por entre uma decisão lenta e um adiamento inadiável. Num lugar desses cresceu Airton, considerado pelo pais e professores bom menino — opinião compartilhada, no que diz respeito ao qualificativo, por Janete, que disse sim ao pedido de casamento, quando chegou a hora. Airton não usou de pompa, em circunstância tão corriqueira quanto esquecível. Memória não é o melhor atributo das pequenas cidades interioranas, há quem culpe o calor do sol ou o absoluto desinteresse generalizado pelo que aconteceu no passado. É uma cultura — ou a falta dela, a depender de quem argumenta. Fato é que Airton e Janete partilharam o leito e tiveram uma penca de filhos tão cretinos quanto desinteressantes. O terceiro de uma leva de oito, Juvenal, cresceu bruto e frívolo, combinação que pode ser desastrosa em algumas situações. Tentou ser sapateiro e trabalhar numa oficina mecânica, mas o emprego que se revelou duradouro foi no frigorífico. Numa tarde especialmente azucrinante, Juvenal conversava com um amigo tão tosco e brutal como ele mesmo, Dioclécio. Os sujeitos se embriagavam durante o turno, porque não havia o que fazer e precisavam esperar a hora de bater o ponto. Um carregamento de carne que aconteceria sofreu atraso, que não lhes dizia respeito, em termos de responsabilidade, de modo que se sentiam autorizados a beber no ambiente de trabalho. Dioclécio desafiou Juvenal, matar uma pessoa não era a mesma coisa que matar vaca, mas Juvenal teimou que sim e, para provar, pegou a faca e foi para cima de um rapaz que apareceu ali com o intuito de fazer uma cobrança, chamado João Vitor. Começou pela barriga e subiu com a faca até quase o pescoço, expondo as vísceras do jovem no chão encardido por tantos sangues animais. Quando Airton e Janete receberam a notícia de que o filho estava preso por assassinato, ele pensou diversas vezes onde tinha errado. Janete ficou na dúvida se teria alguma coisa a ver com a depressão que sentiu pouco tempo depois de dar à luz a Juvenal — doença que não lhe acometeu em nenhum dos outros partos. Fato é que às vezes é preciso afastar para o lado com a mão firme a pachorra que se acumula feito gordura em certas tardes de sábado, no interior.

 

O longo desvio

Foto | Logan White
Foto | Logan White

 

 

Levantou os olhos do papel e havia alguma coisa de antiga naquele semblante, algo de outro tempo, sabedoria, cicatrizes acumuladas, sofrimento curtido. As narrativas que lhe saíam das anotações revezavam minúcias e amplidões, chapadas inteiras de pensamento, ponderações microscópicas, seres imaginários se misturando com eventos reais que a memória intencionalmente produzia e misturava. Bebeu café, olhou a rua pela janela com a xícara na mão porque imaginou que era isso que esses caras faziam, consideravam o peso de alguma história medindo-a contra o mundo lá fora, o mundo com barulhos, cores, confusão intensa. Algo daquilo borbulhava também nas tramas e enredos, algo do caótico, mas de alguma maneira precisava estar ali com aparência de organização, certas elegâncias, um ajuste, mesmo no desgarramento mais audacioso. Este é o homem cujo fermento é interno, cuja expressão de calma suave se contrapunha com furacões, assassinatos, reviravoltas e revoltas, alucinações, com todo o destempero do mundo. Ele estava prestes a criar a trama mais contundente e provocadora do romance contemporâneo, estava à beira de descortinar para os semelhantes a verdadeira intensidade e vibração e loucura da vida no papel. Mas antes de voltar a toda essa confusão e atividade, precisava terminar o café.

 

Tomba a carrocinha

Foto | Balaton Kikasz
Foto | Balaton Kikasz

 

 

A casa era simples e havia pouco espaço para bagunça, mesmo assim meu pai fazia questão que os cômodos permanecessem mergulhados nela. Era como se fosse o recado dele para todos: estão vendo?, eu não ligo. Não que ele se achasse melhor do que o mundo, mas no fundo era isso: arrogância do desespero. E eu, mesmo que ligasse, não tinha direito a emitir opinião, ninguém me perguntava coisa alguma ou dava importância ao que sentia. A casa era simples e a rua em frente era de chão batido, o que significa muita poeira entrando pelas frestas e se depositando sobre a bagunça, por exemplo na louça suja que se acumulava na pia. Eu fazia uma visita, mais a meu irmão, que naquele momento estava morando com nosso pai, do que propriamente a meu pai, embora também a ele: queria entender por que tinha se separado de minha mãe, queria saber por que tinha sumido no mundo e não dava a mínima para os filhos. Meu irmão tinha se imposto a tarefa de morar com ele, mas resistiu um ano e depois mudou de ideia, quando os desentendimentos, as discussões superaram qualquer possibilidade de manutenção do convívio. No primeiro fim de semana da minha visita, depois que havia escutado Maria Bethânia cantar uma música de Chico Buarque num gravador — era a primeira vez que eu via um gravador, o que me causou sensação (a música me levou às lágrimas, eu tinha enorme propensão a me emocionar fácil com praticamente qualquer coisa que me afetasse e tudo me afetava; a letra falava de sonhos impossíveis) —, a família se reuniu na pequena sala da casa para assistir um filme de tomba a carrocinha, o modo jocoso como meu pai se referia aos faroestes: em todos eles chegava o momento em que os colonos tombavam as carroças que os transportavam ao velho oeste e faziam um círculo de carroças, de dentro do qual atiravam contra os índios que cavalgavam num círculo maior, em torno daqueles sujeitos que eram afinal os verdadeiros invasores, embora isso eu só fosse perceber bem mais tarde. Nossa conversa se resumia a comentários pejorativos sobre os filmes em preto e branco num velho televisor chuviscado que às vezes interrompia a transmissão. Por dentro, eu tinha sentimentos em polvorosa e milhões de perguntas que não sabia fazer, então engolia em seco e me exercitava também na arte do riso debochado, como se agir de acordo fosse o meu passe para pertencer de alguma forma ao mundo adulto. Aquele tipo de escárnio final não me foi muito útil, uma vez que eu tinha talento natural para tragédias, mas era a única ponte de conexão que nos definia como família naquele momento, enquanto eu permanecia com a sensação de morar um pouco no faroeste, embora não houvesse mais índios a dar combate, apenas muita poeira e as moscas que faziam festa sobre a louça esquecida na pia, com zumbidos cortantes.

 

Se tiver de ser assim 2

Arte | Eric Lacombe
Arte | Eric Lacombe

 

 

Mesmo que eu quisesse dizer tudo — mas entenda: não quero — mesmo que soubesse como abrir o bico e dizer tudo o que me vai pelo lado de dentro as coisas sairiam atropeladas e sem sentido e seríamos obrigados a desistir eu de falar você de ouvir — forçados a concluir o óbvio: palavras não conseguem dizer não têm as nuances para esclarecer as emoções. Palavras são pragmáticas demais funcionais demais comunicação de superfície: a vida é o que está embaixo no subsolo das palavras. Seria preciso um dicionário das emoções estou convencido. Mas quá seria também ineficaz. Não sei como resolver simplesmente não sei. Nada mais para dizer a memória acaba de me levar para uma tarde na infância em que chovia e eu observava a água bater no vidro da janela a temperatura caía eu triste melancólico e feliz com a melancolia porque era minha e autêntica e emoção: pelo menos eu a tinha naquela época. A chuva no vidro mas agora do carro enquanto sou levado para casa escorregando rumo a um sono reconfortante o sono da melancolia reconfortante. Posso descansar a vida tem atrativos. Talvez eu não fosse feliz ainda mas sentia que estava ali ao alcance da mão. Precisa de coragem ou de medo? Ainda não sei dizer. Todas as coisas que devo esconder todas as emoções que não sei expressar todos os silêncios quando nem eu nem quem estivesse comigo tínhamos o que dizer aquele hiato difícil aquele vazio que poderia ser atravessado por uma galáxia escura. A vida é triste. Mas às vezes é engraçada. Um monte de coisas de uma só vez ou em sucessão. Um pensamento que vai e volta uma borboleta no jardim iluminada pelo sol brilhante de depois da chuva.

 

Algumas lembranças de outro tempo

Foto | Brian Bowen Smith
Foto | Brian Bowen Smith

 

 

Antes de perceber os fantasmas, eu tinha todas as dúvidas voltadas para mim mesmo. Era o que garantia, eu pensava, que os meus pensamentos fossem efetivamente meus e não implantados em mim e controlados a distância por aquele que os implantou, com tal sutileza que me fazia inclusive duvidar da autonomia dos meus pensamentos. Ou, por outra, o que garantia em mim a autenticidade humana? O sangue que escorria pelos meus dedos ou pela minha testa quando eu me machucava em alguma brincadeira parecia ser apenas mais um elemento do dispositivo implantado em mim para me enganar melhor. E se descobrisse um dia que eu era um robô tão sofisticado que tinha um implante de mecanismos de pensamento que conseguiam inclusive formular essas questões e, tal como ocorre com os demais humanos, não ter a mais remota ideia de como ia começar a respondê-las. Talvez essa grande quantidade de questões que me assolavam estavam vindo do fato de que eu era deixado muito tempo sozinho na infância, com muitas horas vagas para especular e especular novamente, formulando e reformulando questões e narrativas pessoais nas quais eu poderia abolir a previsibilidade do mundo convencional e me comportar de modo semelhante ou melhor do que aquele que testemunhava nas histórias em quadrinhos que me eram dadas para ler, ou nos filmes que podia assistir uma vez por semana no cinema perto de casa ou em bases mais frequentes na televisão, que tinha afinal horários muito restritos — e eu, outras obrigações e afazeres, de modo que o acesso também era limitado e controlado. Mas em tudo isso que estou contando o importante, me parece, é perceber — o que consigo agora, mas não sei bem se tinha essa consciência à época — que um garoto deixado sozinho por muito tempo vai desenvolver um lado muito introspectivo, ruminante e cheio de indagações, mas que não sabe para quem deveria formular, de modo que as ruminações sofrem quase sempre uma segunda rodada de reflexões e novas elaborações mentais. Na vida real eu poderia estar indo a pé para a escola todos os dias, mas na imaginação eu voava, o que em geral causava uma sucessão de espanto e admiração entre as pessoas que podiam testemunhar, muitas deles meus conhecidos ou amigos, todos se transformando muito rapidamente em admiradores instantâneos. Na imaginação os voos se davam sem qualquer dificuldade, enquanto na vida real o máximo que eu conseguia sair do solo eram as corridas até em casa, tão intensas que me deixavam o peito dolorido de calor e a pele do rosto avermelhada por muito tempo, enquanto o cabelo grudava na testa, cheio de suor. O mundo se oferecia para ser desbravado e a verdade é que o meu repertório limitado não me sugeria caminhos melhores para desfrutar dele do que aquelas corridas desenfreadas ou senão uma brincadeira na rua com amigos que se estendia até escurecer e que parecia ter a extensão do infinito, mas que na verdade estava apenas na casa dos minutos.