Crises, síndromes e que tais

Foto | Burt Glinn
Foto | Burt Glinn

 

 

A taxa de desvalorização da memória a partir de certa idade é sempre mais acentuada do que a valorização do dólar. Grandes buracos, feito queijo, que nunca serão preenchidos. Há a lembrança encardida de uma emoção, o traço do sorriso dela que permaneceu como a farpa de um lembrete da minha finitude iminente. Você ainda está novo para pensar nessas coisas, mais de um amigo me advertiu. Isso é apenas sintoma da crise de meia idade. E tentam me dar um tapinha condescendente nas costas, mas me esquivo. Crise de meia idade é o cacete. Ninguém sabe com que idade vai morrer, que porra é essa de estabelecer marco regulatório que determina um meio do caminho para te liberar para começar a ter surtos? Vociferei para todos eles e ainda precisaria de muito tempo para entender que essas explosões, esses destemperos também eram parte do surto, da crise ou lá que nome queiram dar. Por mim, podiam chamar de Síndrome do Homem Falível. A compreensão da mortalidade se torna um soco na cara a cada manhã gloriosa. A ruga a mais no canto do olho, o fio extra de cabelo branco. Até aqui você pôde se dar o luxo de cometer equívocos, doravante tentará se comportar com retidão, como âncora existencial para os demais. Eu achava que âncoras existenciais eram os filhos, eles te impedem quase sempre de fazer as grandes asneiras. Te restam as pequenas, as desimportantes. E ali estava eu, a arma no criado-mudo a me acenar, as lembranças do traço do sorriso dela e o calor interno que aquela imagem ainda me provocava, a meia idade rosnando e exibindo seus caninos para mim. Eu precisava decidir.

 

Esperança é vício

Foto | Gordon Spooner
Foto | Gordon Spooner

 

 

Regular o futuro e as esperanças pelas estações. Regular o passado pelas memórias, recompostas ou fidedignas. Mas o que alguém pode saber do meu passado, por mais que eu insista em relatos circunstanciados? Havia uma vaca com dificuldades de parir, por exemplo, e meu avô chamou um veterinário e me deixou assistir à intervenção no curral a céu aberto: ele enfiou o braço dentro do traseiro da vaca e puxou de lá o bezerro, que estava com as patas para fora mas não nascia. Um deles, talvez os dois, vaca e bezerro, se salvaram e se tivesse que fazer uma aposta diria que foi o bezerro. O veterinário ficou com o braço encharcado e a autoconfiança de quem realizou bem o próprio trabalho. Mas de que adianta esse relato, a mim, aos outros, a quem seja? A vaca e o bezerro já morreram há muito, meu avô também, logo será minha vez. Eu conto, no entanto, na esperança (essa centelha do futuro que ainda insiste comigo no poder das expectativas) de que algum neto me leia (meu avô só deixou livros-caixa; não sei nada a respeito do que pensava) e me entenda, ou pelo menos saiba o que me inquietava, quando eu era vivo. Meu avô deixou terras, que se converteram em dinheiro também para mim. Meus netos terão minhas palavras, que valem pouco do ponto de vista prático, mas talvez lhes sirvam para alguma coisa. Tenho esperanças, elas me alimentam de futuro.

 

Três histórias curtas 2

Foto | Alvaro Sanchez Montañes
Foto | Alvaro Sanchez Montañes

 

 

1 Localizações

Você está aqui, a placa dizia, com uma seta a apontar para onde eu supostamente estaria. Senti um súbito mal estar, mas pensei, dane-se, sou rebelde, não estou onde deveria.

 

2 Lembranças

Sou da época em que música pressupunha a evolução de uma melodia, não a redundância, não uma letra intencionalmente estúpida. Quando foi que a estupidez passou a ter valor positivo? E suspirou, melancólico e nostálgico.

 

3 Biblioteca

No asilo de velhos vi a mais triste biblioteca. Todos os livros estavam destinados ao esquecimento quase imediato.

 

passado e hoje

foto | david chance fragale
foto | david chance fragale

 

 

nondinhas colocou as mãos pequenas sobre a mesa e logo em seguida apareceram aqueles olhos pidões para os quais a avó tinha problemas de mostrar resistência. sem esconder o semissorriso ela perguntou, fingindo estar zangada: “o que é, menino?”. nondinhas disse, com aquela voz de criança irresistível: “queria comer um daqueles biscoitos de amor que você faz, vó”. os biscoitos são de nata, o adjetivo do espertinho é a malícia que ele sabe que tem chance de sucesso com a avó derretida. “se você contar para sua mãe que eu te dei biscoito antes do almoço”, a avó diz, enquanto abre a vasilha e entrega em seguida a rodela para o menino, “eu deixo de ser sua vó.”

no asilo onde a avó hoje passa os últimas dias, o senhor epaminondas, orelhas tão grandes quanto as do avô, observa as rugas nos cantos dos olhos dela, imaginando como será com ele, quando a hora chegar. “vó, a senhora se lembra de me dar biscoitos de amor antes do almoço?”, ele dá um sorriso triste. o alzheimer subtraiu a memória dela, deixou grandes buracos negros no cérebro, portanto ele sabe que a pergunta é retórica. “está na hora do seu remédio, vó”, ele diz, e lhe estende diretamente à boca um conjunto de pílulas, uma de cada vez, junto com goles de água de um copo americano. entre os remédios, desta vez, está a ricina que deve fazer efeito nas próximas vinte e quatro ou quarenta e oito horas. um fim misericordioso, ele acredita, para uma velha tão gentil que acrescentava à receita do biscoito um ingrediente secreto, o amor que a infância enxergava com olhos tão gulosos.