As coisas não se ajeitam

Arte | Marc Folly
Arte | Marc Folly

 

 

Abri a porta do escritório e Lauro estava com a miniatura de rastelo na mão, fazia desenhos na areia do jardinzinho japonês. Ele levantou os olhos. Você é um cretino, eu disse. Ele não se abalou, claro. Nesse nosso ramo ser chamado de cretino é o mínimo que acontece. Lauro levantou a sobrancelha. O que foi?, indagou. Elisa me contou o que aconteceu, falei. Ele voltou a chafurdar a areia, como se fosse revelar o segredo escondido ali. O que foi que ela te disse que aconteceu?, ele quis saber, como se fosse simplesmente mais uma conversa protocolar ou eu fosse apenas mais um cliente chatonildo a quem se deve explicar o básico da linguagem publicitária. O que ela me disse?, fiquei indignado, ou o que realmente aconteceu? Ou você não passou uma cantada nela, seu filho da puta? Ele voltou a erguer os olhos de peixe morto. Ia adiantar se eu contasse a verdade?, ele disse. Que ela me cantou e quando eu disse não ela ficou puta e disse que ia se vingar e inventar uma história a meu respeito para você, só para me sacanear? Bem, foi isso, ele acrescentou. É uma boa historinha essa sua aí, eu disse. Pena que não cola comigo. Pois é, ele disse, pena mesmo, porque você no máximo ia ficar pensando no que foi, no que não foi, e a tendência vai ser acreditar nela e me tratar como o cretino que sou. Mas não nesse caso. Para minha sorte, ou porque sou inteligente e prevenido, gravei a conversa. Ele puxou do bolso o gravador, colocou-o sobre a mesa e ergueu de novo a sobrancelha: quer que eu ligue? O resto foi como se pode imaginar, a prova de que a cretinice não é prerrogativa exclusiva de publicitários no exercício da profissão.

 

Mentiras que dão certo

Imagem | Endre Penovác
Imagem | Endre Penovác

 

 

Ela força a mão para ser profunda e, como se fosse a consequência inevitável, triste. Mas sua índole a desmente e quando se distrai, mostra quem de fato é: pessoa com vocação para ser feliz. Claro que nosso caso não poderia dar certo, comigo é o oposto: faço um tremendo esforço consciente para ser feliz, mas sou traído pelo talento natural para tristeza que me puxa de volta. No fim das contas, talvez seja por esse nosso contraste que as coisas deem certo. Isso e o fato inescapável de que ambos mentimos sobre nossa verdadeira natureza individual.

 

fábulas rabelaisianas

foto | sverrir thorolfsson
foto | sverrir thorolfsson

 

 

ler gargântua e pantagruel é submeter-se a provocações mentais sem fim. um brinde eterno à françois rabelais. de modo que a sequência de narrativas que se seguem são inspirações desse protorromance fundamental.

 

1.

era preciso lhe lançar uma escada ou corda, para que saísse do buraco em que havia se metido. pode ser, disse, mas também me contento se for um livro bom e uma lanterna.

 

2.

melhor ser cornudo do que ser solteiro, comentou o diabo, cheio de maledicência.

 

3.

mudo de inveja, sagaz feito lince, plantou duas piruetas e suplantou o oponente, que nem era dado a invejas nem tinha sagacidades.

 

4.

para o diabo que te carregue, vociferou. mas, feitiço que vira, foi a ele que o diabo veio buscar.

 

5.

ele tinha frio, um palito de fósforo e um pergaminho que jamais traduziria e que o aqueceu muito bem, impedindo que qualquer outro pudesse tentar a tradução.

 

6.

sou míope de um olho só, ele comentou. e o outro?, ela quis saber. é tão bom quanto meu coração, ele disse. depois do enfarte fulminante, ela soube que ele estivera mentindo.

 

7.

bela, essa vitória dedico a ti, ele disse, pondo-se de joelhos diante dela. depois lhe invadiu a cidade, matou-lhe os parentes, amigos e conhecidos e reclamou para si direito sobre a mão dela —- embora não tivesse mais a quem pedir.

 

8.

biltres, com voz rouca ele disse a todos, que eram conhecidos. o olhar fulminante. sobre o palco, os amigos perdoam esses xingamentos de araque, eles que também estão no elenco.

 

9.

em março tudo acaba, ela suspirou. aquele seria um abril como previsto no poema de t. s. eliot, o mais cruel dos meses.

 

10.

ergam seus copos, ele proclamou, pois perdemos a batalha e parte da honra, mas mantivemos a vida e precisamos beber hoje e descansar e amanhã teremos forças para novas batalhas, pois na vida há que ter esperança sempre, mesmo com a certeza de que o último inimigo já venceu.

 

11.

não declino meu nome, mas a vontade: quero seus lábios junto aos meus, nossas pernas duplicatas, o tempo pode suspender a contagem e a felicidade se lance sobre nós para nos cobrir.

 

12.

na dúvida se o sexo era divino ou invento da oposição, acenderam uma vela a deus e outra ao diabo. depois, aliviados e sem culpa, entregaram-se com volúpia aos prazeres do corpo.

 

13.

bebeu e desatou a língua. bebeu de novo e de novo e ela ficou tão bamba que não se podia mais entender o que era articulado em câmara lenta.

 

(p.s.: ali na 11 eu quis dizer duplicata, mesmo. faço o registro só para não restar dúvidas)

 

sono interrompido

coqueiro

 

 

quando alguém me liga no meio da tarde e estou dormindo, não sei dizer qual é o motivo pelo qual sempre tenho essa reação instintiva de me proteger com uma mentira. a primeira reação, enquanto o olho ajusta o foco e procura identificar o autor da ligação, é pigarrear uma ou duas vezes para limpar a voz da rouquidão, antes de atender. sou culpado, penso com a voz interna, enquanto a externa eleva o tom duas oitavas para dar a impressão jovial de que interrompi os exercícios de dança ou esgrima e, ainda inebriado da alegria que essas atividades certamente me provocariam caso decidisse praticá-las, digo: “alô”. mas quando do outro lado uma voz que também força jovialidade e procura me vender um plano de assinatura de televisão imperdível (com essa palavra ela me perde), descubro mais um motivo exterior para responder a minha depressão com esse sono infindável que me joga na cama a qualquer hora do dia ou da noite.

 

o poder das mentiras

cadeira-e-meia

 

 

ela se virou para ele com aquele olhar que ele não sabia decifrar se significava paixão ou ironia. disse: “sabe quando eu fico mais apaixonada por você?”. ele a olhou, à espera do resto. “quando você mente para mim”, ela prosseguiu. “não quando mente mal, mas quando mente de maneira perfeita, de modo que nem desconfio que estou ouvindo uma mentira. porque a verdade é boçal demais e me cansa. só a mentira é estimulante e provocadora. só a mentira contém o germe da verdade, porque a verdade está resolvida e completa, não precisa mais nada, é aquilo e pronto.”

ela sorriu. ele não sabia se aquilo era tudo ou a preparação para algo mais.

“o fato, meu querido, é que quando eu entendi isso também passei a mentir para você. por exemplo, como posso dizer que estou mais apaixonada quando você mente para mim, se não sei quando você mente bem para mim? você acha que podemos ser felizes para sempre dessa forma?”

 

roth, 1

foto | alexey nikishin

 

 

não sou eu. está longe de ser eu. é um jogo, uma brincadeira, uma fantasia a respeito de mim mesmo! sou eu servindo de ventríloquo para mim mesmo.

*

outros homens costumam ouvir com toda a paciência, como parte da sedução que acaba levando à trepada. é geralmente por isso que os homens conversam com as mulheres: para levá-las para a cama. já você leva as mulheres para a cama para poder conversar com elas.

 

philip roth, mentiras