Encontro inadiável

Foto | (desconhecido)
Foto | (desconhecido)

 

 

Atrasado para encontrar o destino, F. escapa da chacina da vez — três homens no bar para onde se dirigia executados à queima-roupa. Mas um raio o atinge indiretamente: cai sobre um galho que se rompe e desaba sobre o corpo de F. Uma ambulância é chamada, recolhe F., que começa a receber os primeiros cuidados. Na pressa, entretanto, a ambulância se envolve num acidente e todos se salvam com ferimentos leves, menos F., que parece ter sido finalmente alcançado.

 

Coisas erradas

Imagem | Oliver Flores
Imagem | Oliver Flores

 

 

A melhor professora que tive, costumava dizer aos amigos. A vida só me ensinou coisas erradas, truques bestas, a ambição de jogar para a plateia, suprema vaidade que alimentei com humildade suficiente para ninguém perceber. Mas todo dia ela pedagogicamente me encaminha para o grande aprendizado ao me retirar o sabor de estar vivo. Sobretudo, é preciso aprender a morrer. Quando for a hora, fingirei o mesmo despreparo que todo mundo que me antecedeu, mas estarei pronto. Que digam a meu respeito que descansei, porque se tratará justamente disso, de descansar, de me livrar do peso infatigável que é estar semi vivo, fingindo que levo a sério esta coisa, sendo que nunca de fato aprendi a viver, ou quis, ou me interessei a fundo pela matéria. Estuda-se muito, a vida inteira, para atingir o ponto de certo de passar no vestibular da vida e entrar na universidade da morte. Fingindo que me ensina as coisas erradas, a vida está me encaminhando direitinho e o fato é que sou bom aluno.

 

Desilusões aos pedaços

Imagem | Ernesto González
Imagem | Ernesto González

 

 

1 Persistência sem fim

Ele não sabe bem por quê, mas deu ouvidos a uma dessas frases edificantes que dizia: nunca desista. Agora está com oitenta e sete anos e a sensação de que finalmente as coisas vão começar a desenrolar, mas aí vem a morte e atrapalha tudo.

 

2 Caminhos possíveis

Há limite de idade para que uma pessoa possa se sentir orgulhosa. Depois o pudor impede e, por último, existe as alternativas: ou se vira um cínico ou se continua a acreditar em alguma coisa — em qualquer coisa — e aí não há remédio a não ser abraçar o seu quinhão de patético neste mundo.

 

3 Mergulho radical 

Passou a vida inteira à procura de si mesmo. Era o que dizia aos outros. Quando se deu conta de que na verdade tinha atravessado a vida toda a se esconder, das outras pessoas inclusive, mas sobretudo de si, percebeu que também era tarde para fazer qualquer coisa a respeito.

 

Tempo tempo tempo

Arte | Marc Chagall
Arte | Marc Chagall

 

 

Hoje é o tempo presente, sempre aqui, de forma avassaladora a me consumir por dentro, a me enviar memorandos para mim mesmo no futuro — quando então será o presente e minha memória terá consumido em chamas boa parte do meu passado. Os humanos estamos sempre equilibrando essas noções peculiares e estranhas do tempo tripartido, talvez por isso essa nossa eterna cara de insatisfação, esse desconforto visível com um monte de coisas pequenas para disfarçar essa outra, maior, devastadora e incontornável que virá, a última chamada da qual já se tem consciência agora.

 

Uma história triste

Foto | Jaime Navarro
Foto | Jaime Navarro

 

 

A morte precoce anula a posterior. 

Robert Walser — Absolutamente nada

 

É uma pena que seja assim, mas algumas histórias são tristes porque contêm esse componente inevitável da vida que é o desastre. Portanto fique advertido o leitor que prossegue: a narrativa que vem é triste. Havia esse garoto do interior que se mudou para uma cidade grande e ainda não tinha sido corrompido pelos valores brutais que imperam nas grandes cidades. Portanto, era um garoto com sensibilidade aguçada para notar o canto dos pássaros, a mudança na floração das árvores, detalhes relativos a trechos de asfalto que ficam especialmente bonitos depois da chuva, a direção do vento que muda ao final da tarde. Em outras palavras, ele tinha os sentidos atentos ao entorno, não apenas a visão. Grandes sonhos e ainda maiores esperanças estavam dispostos diante dele para serem colhidos feito fruta madura. Mas por conta de um desses infortúnios a que por falta de palavra melhor se dá o nome de acidente, contraiu uma doença fatal e morreu, foi atropelado e morreu, estava no caminho de uma bala perdida (outra expressão miseravelmente infeliz) e morreu, ouviu uma música ruim demais e morreu, tropeçou num pequeno declive na calçada e ao bater a cabeça de mau jeito morreu, o que importa o como? Fato indisputável é que morreu e é sempre muito cedo para morrer, mas ainda assim algumas pessoas parece que abusam.

 

Contrastes de geração

Imagem | Regina Nieke
Imagem | Regina Nieke

 

 

A velha andava com dificuldade e tinha uma meia marrom, grossa, que insistia em escorregar pela perna abaixo. Me ajuda aqui, pedia ao neto, menino de cinco anos e um poder incomensurável de se deslumbrar com a grande quantidade de desconhecido que ainda tinha como futuro. Ele se aproximou para erguer a meia, reparando sem de fato entender na dificuldade da avó de movimentar-se e ao ver as manchas escuras na perna que a meia ia tampando caminho acima, percebeu que a morte vem em parcelas, manda recados nem todos sutis. Cinco anos e um impacto daqueles, uma revelação do poder avassalador do espetáculo que é a afirmação e o negar de todas as coisas, a vida um sonho ainda em andamento, sem roteiro prévio. Mas naquela mesma noite iria começar uma série de pesadelos relacionados com aquela imagem tão simples e corriqueira, tão cheia de camadas ocultas e dilemas a serem explorados.

 

Impactos inesperados

Foto | Petros Koublis
Foto | Petros Koublis

 

 

“Não se suspeita de que a morte, que marchava conosco em outro plano, numa treva impenetrável, escolheu precisamente este dia para entrar em cena”

Marcel Proust — O caminho de Guermantes

 

Se a gente soubesse tratar a morte não como o fenômeno central, ele disse, com uma pausa para lamber o picolé antes que um começo de derretimento lhe sujasse os dedos unidos em torno do palito, o fenômeno central da existência, prosseguiu, mas como um evento absolutamente irrelevante, o que de fato ela é mas não conseguimos perceber nem muito menos admitir, as coisas seriam bem diferentes. Ele sorriu, como se para emoldurar as palavras e em seguida morreu. Nós que ficamos vivos e não tínhamos experiência suficiente para agir de acordo com a sugestão daquele homem sábio não escondemos a surpresa e em seguida seguimos os velhos protocolos, dando-lhe enterro digno com direito à velório, lápide e às lamentações de sempre. Ninguém, por exemplo, lembrou ou teve presença de espírito de aproveitar o picolé que, abandonado, derreteu completamente.

 

ator na vida

domo

 

 

para ele a cortina havia se fechado pela última vez. não seria capaz de perceber os aplausos da plateia. o homem é sempre o ator da peça a vida é sonho e não cessa de atuar nem para morrer, quando lança com os últimos estertores alguma frase ensaiada que o mantenha na lembrança dos vivos, como sua lápide insistirá em rememorar para quem passar por ali —- a sagacidade do eterno, o desejo insistente do não apagamento definitivo. o homem é dono dessa vaidade de vivo que lança para além de si mesmo, até os domínios da morte.

 

quando estiver morto

arte | ian teh
arte | ian teh

 

 

um dia estarei morto, minha voz silenciada, minha memória extinta. por isso as palavras no papel, o testemunho do que pensei —- de parte do que consigo, ao pensar, dispor no papel —- enquanto vivi. talvez não sirvam para muita coisa, mas a mim, enquanto estou vivo, me ajudam a compreender a experiência entre estranha e intimidadora, às vezes contente, que é estar vivo.

 

paz eterna

lágrimas

 

 

o sujeito foi sepultado e toda a família estava emocionada e comovida. foi bom que tenha sido celebrado e lágrimas derramadas em sua homenagem. porque por uma dessas coincidências algo inexplicáveis o zelador do cemitério morreu dormindo, quando o cigarro aceso incendiou o colchão. o correto seria dizer que morreu queimado, ele e os documentos do cemitério. nunca mais a família conseguiu encontrar o túmulo do sujeito, simplesmente dependia das informações do zelador para chegar até lá no meio daquele emaranhado labiríntico de lápides intermináveis. dele, do morto, se pode dizer realmente que descansa em paz.

 

mudar ou não

foto | j scriba
foto | j scriba

 

 

eu tinha parado de fumar e começado a correr —- provoquei uma grande reviravolta na vida, essa que é a verdade. quando tudo parecia estar indo muito bem, tive um ataque cardíaco e morri. as pessoas culpam o acúmulo de efeitos colaterais angariados na parte dissoluta, quando fumava e bebia e me acabava em esbórnias, mas o fato é que teria vivido mais se tivesse continuado a fumar e sedentário. exercícios são um acinte para o corpo. certas mudanças não são benéficas.

 

vida como esquecimento

escada

 

 

enquanto pôde, foi levando uma vidazinha sem fiasco, mas também sem grandes realizações, apenas o de sempre, a discrição, a invisibilidade como meta. mas que vida de merda, pensou, em mais de uma ocasião, sem que no entanto aquilo resultasse em qualquer alteração no rumo das coisas. porque não soubesse ou, pior, porque não quisesse. quando morreu, houve choro, mas nada em grandes proporções. o esquecimento naquele instante era mais forte. chegaram a mandar o nome para ser gravado na pedra da lápide, junto com a foto que era nova, mas hoje está velha e abandonada. o canto onde ficam os restos ninguém visita, o que lhe sobrou de família mudou-se para outra cidade, seu nome não é pronunciado, é como se nunca tivesse existido, embora possa ser chamado legião.

 

vida em conjunto

remo

 

 

era dezembro, o sol se organizava mal entre as nuvens de chuva, calor e umidade, essa combinação fatal, e nós com a obrigação de enterrar papai. discutíamos por tudo —- eu queria música, ninguém concordou; eu queria o epitáfio que meu pai escreveu, não aceitaram; o fato é que me transformei numa minoria descontente dentro dessa família, a voz dissonante, já estava ouvindo na mente me chamarem de ovelha negra —- e os ajustes pareciam não articular qualquer desenho. fico pensando, não sei se cheguei a dizer em voz alta, que essa defesa insistente do próprio ponto de vista é menos desgastante do que divertida porque ajuda a nos ocuparmos das minúcias e esquecer o essencial, um dos principais truques que os humanos fazemos. no caso, tratava-se de fingir ignorância ou pelo menos altivez diante do fato que papai não estava mais vivo. antecipei a imagem de mamãe a se atirar na cova e gritar para ser enterrada também, mas isso era ridículo, maldade da minha imaginação, minha mãe era sóbria demais e iria se ater ao papel de viúva que deixa uma lágrima deslizar discreta para o lenço que retém na mão, enquanto é amparada pelos filhos mais velhos. a última briga eu estava de antemão disposto a perder: voltaríamos para casa e nos reuniríamos em torno da mesa para começar a discutir o espólio. minúcias essenciais para que os vivos se mantenham vivos. então decidi que mesmo não tendo o menor talento para brigas por dinheiro eu ia adotar uma postura encarniçada nessa disputa, lutaria até o último centavo —- talvez depois doasse tudo à caridade. apenas para vingar papai, que não pôde ter seu epitáfio respeitado. só porque nele se dizia: não estou nem aí. minha família, que não tem muita imaginação, tomou a frase como ofensa pessoal, quando não passava de divertimento pós-vida.

 

espaçoso

fotomontagem | caras ionut
fotomontagem | caras ionut

 

 

acumulou em torno de si todo o espaço que lhe era possível. tinha grandes as casas, os carros, terrenos, barcos. parecia sustentar de forma nem tão secreta o desejo de se apossar de todo o espaço do mundo. de nada adiantou. ao morrer, embora a lápide fosse gigantesca e com dizeres reluzentes, couberam-lhe estreitos o caixão e a cova.

 

o que não sabem

foto | xan latta
foto | xan latta

 

 

morto por causas desconhecidas, dizia o relatório. o fato é que legistas não capazes de identificar quando alguém morre de tristeza, solidão ou por amor, então ficam esses relatórios estúpidos de admissão de incompetência. mas para mim não havia mistério a respeito dos motivos pelos quais ela estava morta.

 

amargo

foto | robert herman
foto | robert herman

 

 

“dosando suavemente o nada para não se machucar”

julio cortázar — o jogo da amarelinha

 

visitava os amigos cada vez menos. caminhava pelas tardes vazias sempre um pouco mais. o mate e o café seguiam iguais. lia cada vez menos jornais, cada vez mais poesia. havia aprendido um método para separar os poetas excelentes — raríssimos — dos medíocres, mais nocivos que pragas de gafanhoto e persistentes como as estações do ano. não se importava que cada vez menos as editoras se interessassem pela publicação dos poetas, os que tinha eram uma cota generosa e suficiente, além disso sempre se podia iniciar a releitura. produziu uma importante série de ensaios dedicada ao tema da solidão, que quase não tinha quem a defendesse. os homens são barulhentos e gregários, por hábito, cultura e tradição, ele sabia. de onde a necessidade de novos paradigmas. tinha consciência de que, quando morresse e o corpo fosse encontrado em estado avançado de putrefação, depois que os vizinhos convocassem os bombeiros por conta do mau cheiro, os manuscritos seriam descartados, bem como o resto de suas coisas parcas. pensando bem era mesmo o melhor caminho. portanto escreveu com liberdade e gosto.

 

próximo

curva

 

 

o jeito humano de lidar com a morte é não saber lidar. tire a morte da equação e restam as trivialidades. descansou. escolha o tipo de caixão, a cor da gravata, a hora da cerimônia do funeral e do enterro, a cor do mármore, de revestimentos, atenha-se a ouvir as pessoas a dizer obviedades — sentidos pêsames, sinceros pêsames, era uma boa pessoa etc. —, o tom certo e contido do seu comportamento nos próximos dias. apenas a morte não está ali, a totalidade, a vastidão brutal e insuportável da morte, esse grande passaporte para o desconhecido absoluto. aos vivos restam as trivialidades dos relatos que se repetem, a espera na fila para quando chegar a sua vez, o teatro estúpido dos cumprimentos, dos gestos, de tudo.

 

ciclos

navio

 

 

o homem se prepara para dormir, lentamente. escova os dentes enquanto contempla o movimento da escova no espelho, as rugas em torno do olho, o cansaço do rosto que lhe sugere a necessidade de aumento do número de horas de sono, algo que a vida não lhe permitirá ter. sem problema, dormirá quando estiver morto. de fato, na cama, ele contempla primeiro o escuro, depois, quando desiste de tentar, a tela do computador, as páginas de um livro, as de uma revista, depois novamente o escuro. seu pensamento se volta para o instante em que estava no banheiro, andando lento, largo, larguissimo. a sucessão de movimentos — lento, apressado — que a vida apresentará de novo e de novo, como a repetição de histórias semelhantes que o cinema insiste em recontar. é simples, ele equacionou, numa hora você está vivo e depois não está. alguns serão esquecidos, alguns lembrados às vezes, enquanto a terra dá mais uma volta em torno do sol.

 

pela comida que se recebe

peixe-garoto

 

 

um peixe se afogando em ar, a boca sôfrega tentando sorver o nada. eles ficam mareados? ou nunca. sem sexo, vida sem graça, existir para devorar e ser devorado e não fazer sentido. existir para ser multiplicado no milagre, virar o símbolo do filho do homem. se sacrificando para nos salvar, o eco das vozes a repetir pelos milênios e milênios. a repetição é o truque para fazer dar certo, a vida só repetições, almoço, jantar, comer, dormir, trepar, lavar, de novo e de novo até quando. a luta contra o vazio, do tédio e da morte. a morte é o tédio eterno. o peixe significado, o filho do homem na cruz dos pecados de onde há de vir ressuscitar os vivos e os mortos, creio na santa. creio na anta. a crença uma cegueira. não saber, só saber, como queria édipo. pelo perdão dos pecados. pela remissão dos pecados, pela repetição dos pecados. o peixe que me perdoe por comer a sua carne. todos um só. todos carnívoros, a nos entredevorar. o canibalismo de comer o meu peixe irmão. tomai e comei todos vós. esse é o meu corpo. e nós nham. comemos. sem dó, nem pensar, como o peixe não pensa, não pênsil. não pensamos, comemos. a terra há de comer. o sacrifício, por todos nós. o seu corpo o seu peixe, em sacrifício, na pira e na cruz. no pirê e no pirex, na luz. meu jesus cristinho. as beatas estremecem. as carnes trêmulas, de prazer e de ansiedade. de onde há de vir. os vivos e os mortos. amém, meu bem. me passa o prato.

 

até que a morte não separe

arte | henri toulouse-lautrec
arte | henri toulouse-lautrec

 

 

lúcidos e misturados, eles eram o que se chama por aí de nascidos um para o outro. simbióticos até nos momentos de brigar e desentender, desafiaram teorias conceitos percepções conclusões teses comprovações casos estatísticas tudo. não bastasse, morreram juntos no mesmo acidente que carbonizou os corpos a ponto de ser impossível dizer qual tinha pertencido a quem. a família não quis esperar os testes de dna para separar os caixões. foram enterrados no mesmo, partilham a lápide comum por toda a eternidade.

 

vida e morte

arte | judith eisler
arte | judith eisler

 

 

incapazes de definir o que é vida — tarefa espinhosa para a qual as tentativas são tão numerosas quanto os fracassos — os escritores concentraram-se em definir o que é morte — e a verdade é que o número de fracassos não foi menor, mas pelo menos havia charme e beleza naquelas palavras, que afinal serviam de consolo para muitos leitores mundo afora, tão condenados à vida quanto a morrer, quando chegasse a hora.

 

legados

foto | elvis martínez smith
foto | elvis martínez smith

 

 

então, a morte é esse momento em que a pessoa desiste de viver — o excesso de vida a exaure — ou o momento em que a vida desiste da pessoa, por achá-la de alguma forma desinteressante e destituída de atrativos para a continuidade? a pergunta, para a qual ele não tinha a menor ideia de sequer por onde começar a responder, assolou-o certa tarde durante a leitura de o legado de humboldt, o romance de saul bellow a respeito da relação de charles citrine e do amigo von humboldt fleisher, ambos intelectuais. havia esse momento do romance em que citrine é convocado para fazer parte de um júri e aproveita para ler revistas ou cartas ou pensar temas e questões para o ensaio que deseja escrever a respeito do tédio. “desde o início, a humanidade experimentava fases de tédio, mas ninguém se aproximava do assunto de frente e pelo centro, como um tema em si mesmo”, citrine registrava no livro, ou bellow travestido de citrine, uma vez que a orelha do livro diz que o romance se baseia na relação de bellow com o poeta delmore schwartz. depois ele diz que o tédio é talvez um tipo de dor, provocada “por faculdades não utilizadas, a dor de talentos e possibilidades desperdiçadas”. nosso amigo ficou pensando como foi que da leitura de dois trechos dedicados a discorrer a respeito do tédio e suas motivações sua cabeça fez um salto para começar questionamentos a respeito da finitude humana, mas é sabido que o cérebro tem analogias próprias que muitas vezes escapam a uma organização racional. então nosso amigo deu um suspiro, produziu uma anotação e deixou a vida prosseguir o curso.

 

vida entre cordões

o nascer só se completa quando o cordão que te prende a sua mãe é cortado. o sopro da vida depende desse corte, dessa ruptura primordial.

depois você passa a vida tentando desfazer os nós que te mantêem afastado do entendimento. os nós sustentam várias profissões (o médico termina a sutura com um nó; a costureira; o marinheiro; o sapateiro; o pescador; o cesteiro; o fabricante de tapetes; o cordoeiro de pianos; o empalhador de cadeiras; o acrobata; o açougueiro; etc.). quando for morrer, de novo será necessário cortar o cordão: dessa vez, o que te mantém atado à vida.