Sem resposta

Ilustração | Edouard Manet
Ilustração | Edouard Manet

 

 

O que estamos fazendo aqui nesta história?, perguntaram, quase em uníssono. Ora, o que todos os personagens fazem nas histórias, eu respondi, vivendo a ficção. Mas passa da hora de reagir, alguém acrescentou, não sei se eu ou se eles, os gêmeos siameses. Tenho certeza, no entanto, de que a próxima frase foi um deles que disse, o da esquerda. Nossa vida inteira parece uma grande ficção, não precisamos mais uma. Eu ia começar a dizer que minha vida inteira também parecia, mas diante da situação deles pareceu ridículo dizer qualquer coisa e me calei.

 

debate fraterno

esquina-de-algum-lugar

 

 

meu irmão balançava a cabeça negativamente, me censurava pelo relato que eu lhe fazia da minha última travessura. pensei que recriminava minhas ações, mas acontece que ele disse estar insatisfeito com o modo como eu lhe contava. você não sabe usar os detalhes a seu favor, me disse, juntando as pontas dos dedos das duas mãos uns contra os outros. por um momento achei que também as palmas se encontrariam e ele iria dirigir uma prece aos céus implorando perdão ou clemência pela minha alma de pobre criatura do pântano. espere até eu contar isso por escrito, rebati, furioso com a insolência dele por me recriminar. vou transformar você num cara mesquinho, bigodudo e mal humorado, além de encher a história com detalhes. você só vai parecer ridículo, ele me advertiu, e mentalmente não pude deixar de notar que ele tinha razão.

 

funciona assim

imagem | guillaume gilbert
imagem | guillaume gilbert

 

 

ele estava com a vida emocional em frangalhos, para variar. não tinha conspiração de harmonia no universo que desse jeito. mas existe outro modo de viver?, indagava, um sorriso tristonho no canto dos lábios e duas grossas lágrimas a escorrer pelos cantos externos dos olhos — um jeito muito específico de chorar, como eu havia notado, sendo amigo dele e testemunha próxima de sua vida desequilibrada. se colocassem um sismógrafo para medir o coração, o aparelho teria ficado louco, registrando oscilações impossíveis. eu dava conselhos não aproveitados e água gelada que pelo menos lhe fornecia suprimento para o choro. acontece que certas vidas não se compatibilizam — a desse meu amigo era o caso. atravessou-a de distúrbios em distúrbios até que um dia… bem, gostaria de dizer que um dia ele me surpreendeu e mudou o leme das confusões para navegar em águas tranquilas, mas estaria apenas a contar uma mentira narrativa para o bem da história e a esperança dos leitores. o fato é que morreu tão atarantado quanto viveu e embora lamente que tenha morrido, confesso que sinto certa inveja do modo como viveu. existe outro modo?