Sobre o otimismo

grãos-de-café

 

 

Adquiriu otimismo como se adquire uma doença: de maneira inadvertida e indesejável. Dizia não ter forças para evitar ver o lado bom e promissor das coisas. Eu olhava em volta e via tudo se desmoronando: guerras, conflitos, ambições desmesuradas, corrupção e não me restava alternativa a não ser achar que o meu amigo estava louco. Ouvi-lo falar do copo meio cheio tornou-se tormento e em mais de uma ocasião me vi forçado a conter meus punhos para não lhe dar um soco. Era irritante demais aquela posição que ele adotou: era improvável a não ter mais fim e no entanto estava lá. Então um dia eu e os que se irritavam junto comigo pudemos respirar aliviados, o que nosso amigo tinha era realmente um distúrbio cerebral que lhe provocava o otimismo exacerbado, ele foi diagnosticado. O que não foi surpresa: meu amigo recusou-se à cirurgia oferecida, que poderia lhe restabelecer a correta dimensão da realidade. Preferiu manter o filtro que a doença lhe proporcionava e não tive remédio menos amargo a não ser apoiá-lo na decisão e continuar me irritando com ele e com o otimismo inabalável. Faria de tudo para disfarçar minha inveja.

 

Miranda por dentro

Foto | Chris Kovacs
Foto | Chris Kovacs

 

 

A magreza faz com que pareça mais alta, mas a verdade é que ela é mesmo alta. Os óculos lhe cobrem mais da metade do rosto, é como se fosse atriz conhecida que procura se disfarçar chamando atenção para o disfarce. O formato do rosto é bem definido e não poucos homens, se instados a opinar, diriam-na bonita, sobretudo porque os lábios grossos sugerem um bom complemento para as linhas do rosto e o tamanho do olhos — para quem conseguiu vê-los quando ela tirou os óculos. Quando pensa bastante a respeito, Miranda conclui que tem problemas normais para pessoas normais. Como só consegue sentir as próprias questões e muito pouco das alheias, julga que o importante é se ater a si e ver no que dá. Teve sua cota de insônias e férias, sorrisos e fotografias, fora ocasionais dores de cabeça. Se sopesar a própria situação e a de milhares, bilhões de humanos em condições extremas, seria forçada a admitir que está bem, bem acima da média. Claro, não recusaria o pedido de casamento de um príncipe e por se tratar de fantasia que jamais se realizará, o sujeito é além de tudo jovem e bonito. Miranda recentemente tomou a decisão de passar a sorrir com mais frequência, não apenas para os conhecidos. Disseram-lhe inúmeras vezes que tem um belo sorriso, esse mesmo que agora adorna uma série de anúncios em outdoors espalhados pela cidade, mas não foi apenas isso, quer testar se é capaz de alterar o ambiente em torno de si com apenas o gesto simples e descomplicado de contrair alguns músculos faciais. Também almeja, com esforço e boa vontade, promover reforma interna de disposição, se for possível. Ela sabe que o exercício vai lhe exigir persistência no limite, nem todo mundo está disposto a retribuir sorrisos como se fossem moeda de troca das relações sociais. Seu Manoel, por exemplo, o porteiro rabugento e artrítico, requer esforço dobrado, porque ele não pretende ceder fácil e Miranda acredita mesmo que vai insistir apenas por desencargo de consciência, seu Manoel é causa perdida. Olho para Miranda, que passa todo dia próximo a minha janela, distribuindo sorrisos como se fosse sua missão neste mundo e, além de estar secretamente apaixonado por ela, sempre me recordo da letra de uma música, que adapto para incluir seu nome: “Quero ver Miranda rir / Quero ver Miranda dar sua risada”. Não sabe que eu seria o melhor interlocutor, o mais risonho recipiente de sua missão e talvez a única coisa que falta para Miranda perceber que felicidade está muito, mas muito mais próxima do que imagina.