Mudança e volta

Foto | Gianni Berengo Gardin
Foto | Gianni Berengo Gardin

 

 

Mestre absoluto no quesito procrastinação, ele achou que passara da hora de mudar de hábitos e tornar-se ativo, antes que a preguiça lhe criasse de vez raízes profundas demais para serem arrancadas. Tentou dança de salão, ciclismo, esgrima, golfe e meditação, atletismo, saltos ornamentais (desistiu porque achava os ornamentos inapropriados para um mundo em combustão). Tentou o mais difícil dos combates ao ostracismo: o cultivo das amizades, noites de debate ou saídas ao bar, discussões terapêuticas a respeito de política e economia, os desrrumos da nação, o impalpável do pensamento. Tudo aquilo, no entanto, parecia-se demais com um agitar-se desesperado que lhe impedia de ver o vazio no centro de sua vida, o grande e impactante vazio a ser preenchido talvez com memória, como fazem os escritores? Ou com lamentos, como fazem os nostálgicos excessivos. Procrastinar é exercício suficiente, proferiu e preferiu, estimula a pensar, a ter ideias, a imaginar mundos. E o que o mundo precisa é de alguém que o imagine com bastante intensidade. Nisso acho que todos estão de acordo.

 

Toda promessa é ilusão

Foto | James Nachtwey
Foto | James Nachtwey

 

 

Era um sujeito pensativo, um ruminante renitente. A poucos partilhava os pensamentos, que eram densos e inquietantes. Alguns acusavam-no de ser poeta, mas ele despachava a ideia com um movimento de mão, aquilo lhe parecia inútil e não se dava o trabalho de ficar chateado com o que qualificava de maledicências. Ser poeta, supunha (e argumentava), implica atingir os pontos mais altos, nos quais o pensamento encontra-se com o afeto e o resultado há de ser a elevação. A pedra encontra a flor, ele dizia, e dessa união decorre a poesia. No máximo, prosseguia, e se tanto, alcanço a pedra, mas me escapa a flor. Se nada, insistia um amigo, você atinge a flor sem perceber, o que não torna você menos poeta, mas ainda mais. Que nada, ele replicava, e não parecia haver falsa modéstia. Domenico, esse o nome, embora fosse brasileiro da gema, nascido e criado, o nome uma provocação da família que nem era italiana, nunca devidamente explicada, Domenico, dizia, ruminava e ruminou, sem ambições de reconhecimento ou oportunismos baratos. Talvez um dia lhe conheçam o conjunto de aforismos que compõe numa miniatura em movimento, insisto, desambicioso, sem pretensões além da de produzir pedregulhos de um jardim japonês que, quem sabe, talvez nunca se torne conhecido nem seja visitado.

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Uns poucos exemplos: 1 O sorriso da caveira zomba da morte quando já é tarde 2 A sensação de continuidade está na base do tédio. O susto serve para despertar para o fato: vida é sopro 3 Peço esmola ao tempo, ele me dá um pouco de memória.