Como emagrecer

 

cãozinho

 

 

Ele permaneceu em silêncio durante todo o voo, mergulhado nesse lado interior que o pensamento insiste em iluminar para que o sujeito volte a pensar mais uma vez a respeito de si mesmo, de limitações pessoais e possibilidades projetadas, como se tivesse sempre diante de si a balança da existência a medir as diferenças entre vantagens e atropelos. Quando buscou a mala na esteira e em seguida pediu ao motorista do táxi que o levasse ao hotel onde havia feito reserva, reteve durante um bom tempo a sensação de que chegara o corpo, mas algo faltava aterrissar, como se houvesse esquecido no avião (que ainda seguiria diversas rotas naquela noite) uma parte importante de si que não teria como recuperar de volta. A cada viagem, sentia ficar mais econômico e magro, como se deixasse pelo caminho o que não era mais necessário carregar. Haveria tempo em que nem mesmo carregaria mala.

 

Um mergulho em névoas

Ilustração | Stamatis Laskos
Ilustração | Stamatis Laskos

 

 

O cérebro mergulhado numa névoa provocada pela ressaca, ele começou a pensar acerca da realidade, simplesmente para praticar o exercício de ter dúvidas. A realidade, pensou, depende do meu cérebro para existir e embora eu possa um dia não mais estar aqui e possa supor que ela vai prosseguir do modo como se apresenta hoje para mim, o fato de não mais percebê-la fará com que ela não exista mais para mim, porque eu não existirei mais. De modo que a realidade é só parte da minha imaginação e nada mais. E porque estava cansado e com o cérebro cheio de névoa, adormeceu e parou de ter esses pensamentos de certo modo inquietantes.

 

O olho de Dalton

pássaro

 

 

O olho do químico John Dalton permanece embebido em formol, numa das prateleiras de uma famosa universidade. Ele não conseguia distinguir algumas cores e descreveu o processo de falha de percepção que hoje leva seu sobrenome e um sufixo, daltonismo. Uma doação para a ciência que se transformou numa relíquia a respeito das falhas humanas, sobretudo das que não se controlam. As gradações de cores que você percebe, qual a garantia você tem de que são percebidas da mesma forma por mais alguém? O olho de Dalton vigia a humanidade e continua à espera de uma resposta satisfatória a respeito de como a percepção de cores realmente funciona. A persistência delas — no mundo, nas retinas cansadas da memória de Drummond ou em qualquer outra — é um mistério permanente, e parte da felicidade dos que podem ver muito bem todas as variações e intensidades de cores.

 

lado de dentro do avesso

foto | fanis pavlopoulos
foto | fanis pavlopoulos

 

 

ele caminhou lentamente até a porta do próprio pensamento. é ali que eu estou, tentou projetar a si mesmo para fora, embora soubesse que pensava a partir do conceito que tinha de mente e a projeção era falsa como certas tentativas de viver artificialmente. melhor o silêncio, pensou também, embora sua mente tivesse produzido o ruído do pensamento (as palavras em conexão) e portanto se contradizia. havia uma mulher, beijos trocados, havia saliva e suores, havia o passado e a lembrança no presente dele, havia outras gentes e muito ruído, formas, lugares bonitos, outros horrorosos, havia confusão, guerras sem fim, gente que explodia e enterros, gente que nascia e festas, eleições, promessas, sussurros, ordens e contraordens, havia o ruído infindável do mundo e sua mente perturbada a perceber tudo. estava vivo. para muitos, um consolo. outros encarariam como fardo. para ele, sério, era erguer a cabeça e ser estoico. o mundo era um barulho em sucessão, como as ondas do mar, trabalhadoras incansáveis. numa história de ficção, o mar pararia o movimento. melhor escovar os dentes antes de dormir.