Uma mulher

Arte | Paul Klee
Arte | Paul Klee

 

 

Não sei o que aconteceu comigo para agir dessa maneira, mas o fato é que me pus a seguir essa mulher — não porque fosse especialmente bonita, ou desejável, não de forma convencional, pelo menos; ela era, pelos padrões vigentes, regular; mas não para mim, que me senti magneticamente atraído para o campo dela. Embora tenha sido discreto a princípio, logo fiz questão que ela percebesse que eu estava em seu encalço, queria que se sentisse acuada, que tentasse escapar do meu assédio, que se transformasse em presa e eu, em predador. Mas não contava com a reação dela, que a certa altura e muitas ruas depois de ter tentado apertar o passo e se livrar daquela sombra, no caso, eu, virou-se e me encarou muito séria. Você está me seguindo?, disse, com voz firme, com postura agressiva, com decisão irrevogável, olhando-me nos olhos como se quisesse enxergar a minha alma. Está? Está me seguindo?, repetia, encarando-me e tentando fazer com que eu recuasse. Resignei-me. Ainda tentei o eterno argumento do filho inconformado. Mas, mãe, eu disse.

 

Os livros que se salvam

pássaro-na-gaiola

 

 

Nos momentos em que há perseguição, a família precisa deixar a casa levando poucos pertences, mão na frente, outra atrás, sem saber o que será o futuro (mas essa é fácil: ninguém sabe). Apenas um par de livros de toda a biblioteca acumulada ao longo do tempo — adquiridos por conta do interesse próprio, herdados de parentes diretos — pode ser escolhido. Esse momento é ouro: o que levar? Decisão árdua, tanto quanto reveladora. Um inventário de todos esses livros escolhidos no calor da fuga, na precipitação do escape, revelaria o que realmente importa em termos de leitura, a verdadeira formação do cânone essencial.