Mudança e volta

Foto | Gianni Berengo Gardin
Foto | Gianni Berengo Gardin

 

 

Mestre absoluto no quesito procrastinação, ele achou que passara da hora de mudar de hábitos e tornar-se ativo, antes que a preguiça lhe criasse de vez raízes profundas demais para serem arrancadas. Tentou dança de salão, ciclismo, esgrima, golfe e meditação, atletismo, saltos ornamentais (desistiu porque achava os ornamentos inapropriados para um mundo em combustão). Tentou o mais difícil dos combates ao ostracismo: o cultivo das amizades, noites de debate ou saídas ao bar, discussões terapêuticas a respeito de política e economia, os desrrumos da nação, o impalpável do pensamento. Tudo aquilo, no entanto, parecia-se demais com um agitar-se desesperado que lhe impedia de ver o vazio no centro de sua vida, o grande e impactante vazio a ser preenchido talvez com memória, como fazem os escritores? Ou com lamentos, como fazem os nostálgicos excessivos. Procrastinar é exercício suficiente, proferiu e preferiu, estimula a pensar, a ter ideias, a imaginar mundos. E o que o mundo precisa é de alguém que o imagine com bastante intensidade. Nisso acho que todos estão de acordo.

 

cartografia do latido

espaços

 

 

a voz de alguém que fala mais alto do que devia sobe pela varanda, pula a grade e me entra pelo ouvido como um ladrão. não distingo o que é dito, apenas a voz, a entonação alterada. um cão também puxa um discurso incompreensível, cheio de réplicas dos cães vizinhos. o que comunicam uns aos outros tão excitadamente não se sabe ainda, talvez apenas postulados de manutenção territorial. esse é meu carnaval de semi silêncios, mezzo barulhos. tento avançar na leitura do romance, enquanto a consciência dá pulos meio bestas e insiste numa velha marchinha, lança confete, sorri cheia de sedução, saracoteia. minha consciência, concluo, não vale um níquel, por sorte ainda estou no controle e meus pés e a barriga continuam a se recusar qualquer movimento.